Perfil e Biografia

Publicado por João Mellão Neto Em 20 Aug 2009

Deputado João Mellão

João Mellão Neto, 54 anos, é um dos jornalistas mais lidos, comentados e acreditados da imprensa de São Paulo e do Brasil. Nascido em São Paulo, Capital, João Mellão Neto é casado há 28 anos com Dora, com quem tem três filhos: João, Ricardo e Anna Maria.

Ele escreve no jornal “O Estado de São Paulo” desde 1987 e seus artigos são publicados, quinzenalmente, às sextas-feiras na página A 2 do Estadão e no “Florida Review” – o maior jornal em língua portuguesa dos EUA.

Estudou administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas e jornalismo na Fundação Cásper Líbero. É empresário no setor agropecuário e atua na área imobiliária.

Dedica-se, no mínimo, três horas por dia ao estudo dos mais variados temas.

Mellão escreve com propriedade sobre os mais diversos assuntos: política, economia, costumes, família e até mesmo religião. As razões de seu sucesso são muitas. Ele sempre aborda os diferentes assuntos a partir de enfoques originais, cuidadosamente estudados, mostrando aspectos importantes, cruciais, porém pouco ventilados pela mídia em geral. “Escrever difícil é fácil. O difícil é escrever de modo fácil” – em poucas palavras é esse o objetivo que ele persegue incansavelmente em seus textos.

Seu estilo é leve sem abrir mão da profundidade do conteúdo. Sempre didático, muitas vezes irônico, surpreende os leitores pela sua capacidade de síntese. “Curto e grosso” como se diz.

Apesar de ainda jovem, João Mellão traz consigo uma vasta experiência.Fez uma exitosa e precoce carreira política. Foi quatro vezes secretário municipal, cumpriu dois mandatos de deputado federal e foi ministro de Estado, tudo isso antes de completar 40 anos de idade.

Ele não se vale de seu currículo para dar uma pretensa autoridade ao que escreve. “Cada artigo deve falar por si próprio”, é o seu entendimento. Acredita, isto sim, que sua vida pregressa – a sua intimidade com os bastidores do poder – só é útil na medida em que lhe permite analisar os fatos de forma mais ampla, interpretando-os a partir de ângulos que não são familiares à maioria dos leitores.

No site www.mellao.com.br você poderá encontrar alguns dos os artigos mais significativos de sua carreira, classificados por temas.

Atividades

Atualmente João Mellão Neto é Deputado Estadual por São Paulo.

Secretário de Estado da Comunicação – 2003
Ministro de Estado do Trabalho e da Administração, 1992
Deputado Federal, 1991-1995, eleito com 260 mil votos
Deputado Federal, 1995-1999, reeleito com 95 mil votos
Secretário da Coordenação Governamental de São Paulo, 1986-1987
Secretário Municipal da Administração de São Paulo, 1987-1988
Secretário Municipal da Habitação e Desenvolvimento Urbano, 1993

Condecorações

Ordem do Mérito do Rio Branco – grã-cruz
Ordem do Mérito do Trabalho – grã-cruz
Ordem do Mérito da Justiça do Trabalho – grã-cruz
Ordem do Mérito das Forças Armadas – grande oficial
Ordem do Mérito Militar – grande oficial
Ordem do Mérito Naval – grande oficial
Ordem do Mérito de Brasília – grã-cruz
Medalha do Mérito Legislativo da Câmara dos Deputados
Medalha Anchieta e Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo
Medalha Tobias de Aguiar da Polícia Militar de São Paulo
Láurea do Mérito Pessoal da Polícia Militar de São Paulo

 

BIOGRAFIA – até 1990

 

Quem sou eu?

Um breve resumo de minha história…

 

A vida de um escritor nunca vale o que ele escreve. No mais das vezes é desinteressante. Só é importante para quem a viveu.

Por um motivo muito simples. Neste perfil eu cito os cargos públicos que exerci, as condecorações que recebi, os livros que escrevi e, no final das contas, as pessoas ficam sem saber quem eu sou de fato, como foi que eu cheguei até aqui.

A minha vida não contém passagens emocionantes. Mas, já que me cabe narrá-la, vamos lá.
 

Infância e Juventude

Nasci na cidade de São Paulo, em 6 de novembro de 1955. Meu pai era comerciante de café e agro-pecuarista. Éramos bem de vida.

Estudei em bons colégios, tive uma juventude sossegada. Até que, aos 17 anos, ocorreu um fato que marcou a minha vida até hoje. Meu pâncreas foi destruído devido a um ataque virótico e eu me tornei um diabético do tipo 1, a forma mais violenta da doença.

Emagreci, de imediato vinte quilos, e fiquei praticamente inutilizado durante 4 anos, sendo internado em hospitais quase que todos os meses. Foi, afinal, conseguido um certo equilíbrio na doença e eu pude, novamente, me dedicar às atividades próprias da idade, embora com limitações.
Sou diabético até hoje. Serei o resto da vida. Tomo cinco injeções diárias de insulina e um sem número de medicamentos. Mas não me queixo não. Tudo, na vida, se supera. E, no mais, eu agradeço a Deus por ter sido tão generoso comigo.

 

Aprendendo política

 

Na escola e na cadeia.

 

Em 1977 eu comecei a estudar administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas. Era a época do renascimento do movimento estudantil, no qual eu ingressei de corpo e alma. Refundamos a UEE- União Estadual dos Estudantes e a UNE – União Nacional dos Estudantes. Realizamos os primeiros atos públicos e passeatas, em aberto desafio ao governo autoritário.

Nós, estudantes, tivemos a oportunidade de vivenciar momentos heróicos, à época. E cabe aqui uma nota de agradecimento ao presidente Geisel…Explico: a distensão “lenta e gradual”, ainda estava em seu início e os militares, então, viviam extremamente paranóicos. Todo e qualquer movimento de protesto era visto por eles como uma grave ameaça à ordem social. Os nossos atos públicos não reuniam mais do que 500 ou 600 estudantes. Era algo que, hoje em dia, passaria despercebido.

Mas o governo, então, nos conferia um imenso prestígio. Para confrontar-nos, mobilizava milhares de soldados, a tropa de choque inteira, além de dezenas de carros de combate, como o “cascavel” e o “brucutu”. Nós nos sentíamos extremamente importantes. Acreditávamos, mesmo, que, com aqueles movimentos, estávamos prestes a derrubar o governo.

Nossa primeira passeata se deu na rua 25 de março. Eu estava lá e, junto com outros 20 estudantes, fui preso. Após levar uma boa surra, fomos encaminhados ao “terrível” DEOPS, onde passamos a noite respondendo enfadonhos e burocráticos interrogatórios.

Este episódio eu conto em detalhes no artigo “Por que me tornei um liberal“, no meu site (www.mellao.com.br). Passara pelo batismo de fogo. Doravante eu podia me considerar um “político”.

 

Com Fernando Henrique Cardoso, na Campanha Eleitoral de 1978

Com Fernando Henrique Cardoso, na Campanha Eleitoral de 1978

      No ano seguinte, em 1978, eu me engagei na campanha eleitoral ao senado do então desconhecido professor Fernando Henrique Cardoso.

Este é um assunto que detalho em outro artigo, “O encantador de serpentes” (www.mellao.com.br). Foi ali que se deu o início de minha carreira pública. Mas ela só iria se revelar, de verdade, 8 anos mais tarde.

Jornal e Livro

1980- Escrevendo sozinho um jornal inteiro.

Como é difícil ser jornalista no Interior…

Uma das experiências mais curiosas, estimulantes e significativas para a minha futura carreira jornalística ocorreu quando decidi que seria uma boa idéia criar um jornal. Mal sabia eu o que me esperava…

Em finais de 1979 fui levado, ao menos nos dias úteis da semana, a me mudar para São Manuel, terra dos meus ancestrais, no interior de São Paulo. Meu pai, à época, estava adoecido e cabia a mim cuidar de nossa propriedade rural.

Ora, fazendeiro não passa de um sócio, minoritário, da natureza. Por mais que você se dedique, a administração agrícola não ocupa mais do que metade do seu tempo útil.

Como escrever, para mim, é uma vocação inata, entendi por bem fundar um jornal para a cidade e a região. Tinha como sócio, morando em São Manuel, o Emílio Carlos Macedo, que fora um brilhante jornalista na Folha de São Paulo e também decidira se dedicar às lides rurais.

Caindo na real

As coisas não eram bem assim. As empresas, nas cidades pequenas, não têm o costume de fazer publicidade. Os anúncios eram raros e tinham que ser vendidos praticamente de graça. Os poucos jornais que subsistiam na região conseguiam sobreviver porque eram ligados aos grupos políticos locais. Quando eram a favor dos prefeitos, viviam à custa de editais e matérias publicitárias das prefeituras. Quando eram de oposição, eram custeados pelos opositores. Quando eram imparciais, como o nosso, não eram financiados por ninguém.

Não bastasse a premente questão financeira, ainda havia o problema, muito maior de não termos redatores em número suficiente para tocar o jornal. Número suficiente é um eufemismo. Na verdade meu sócio e eu redigíamos, através de pseudônimos (o que é muito comum no interior), o jornal inteiro.

Eu, por exemplo, era o editorialista, o comentarista de economia, o consultor rural, a “Maria Cláudia” – que escrevia a página feminina, o colunista social, o analista político, o revisor ortográfico e por aí afora. Muitas vezes, para criar alguma polêmica, eu colocava um personagem contra o outro e o público se deliciava com as brigas entre eles.

O “Diálogo com a Notícia” durou um ano e meio. O problema era que recebíamos elogios demais e receitas de menos. Atolados em despesas fomos obrigados a fechar as portas.

O saldo positivo, para mim, foi que aprendi a redigir nos mais variados estilos. Esta versatilidade me viria a ser muito útil depois, na minha carreira jornalística.

O primeiro livro a gente nunca esquece

Sem dúvida porque é o mais difícil. Em meados de 1981, sem prejuízo de minhas atividades agrícolas, eu já me via entusiasmado com outro projeto. Jânio Quadros, amigo de meus pais de outras épocas, estava voltando para a vida pública. Começou a sua reentrada fazendo palestras em faculdades no interior de São Paulo.

Acompanhei várias delas. O que mais me impressionava em Jânio era a sua capacidade de “virar o jogo”. Entrava nos auditórios sob vaias e, terminada a palestra, saia delirantemente aplaudido. A minha geração – que crescera na ditadura – não conhecia políticos carismáticos do porte de Jânio.

Comecei a pesquisar a sua vida e a sua vertiginosa trajetória na política nacional. Tinha material para isto. Meu pai havia colecionado e encadernado a revista “Manchete”- a melhor da década de 1950 – desde o primeiro número, em 1952. Uma coisa é você ler o que foi escrito depois dos fatos, onde os autores dos livros dão um jeito de “adaptar” a história às suas teorias. Outra, bem diferente, é acompanhar o noticiário da época, com as notícias e comentários sendo redigidos conforme as coisas aconteciam.

A carreira de Jânio Quadros – que em apenas treze anos lograra sair de professor secundário e chegar à presidência da República – sem dúvida era algo fascinante. Decidi escrever um livro – meu primeiro livro – sobre o fenômeno.

Não haveria de ser um livro qualquer. A minha versatilidade como jornalista adquirida no “Diálogo” mais o farto material jornalístico que a coleção da “Manchete” me proporcionava me deram a idéia – extremamente ambiciosa – de escrever um livro totalmente diferente dos outros.

 

Capa do livro "3 Estórias para 1 História"

Capa do livro "3 Estórias para 1 História"

      O “3 Estórias para 1 História” custou-me uma ano e meio de pesquisas. Ele abrangia todos os fatos importantes ocorridos entre 1953 – quando Jânio elegeu-se prefeito de S.Paulo – e 1961, o ano em que ele renunciou à presidência da República. A forma do livro era absolutamente insólita e inédita. Era uma sucessão de jornais fictícios, onde os fatos eram abordados dentro do espírito da época em que ocorreram.

Eu, como escritor, me colocava na posição de um editor de jornal e reportava os fatos e as suas repercussões como se estivesse vivendo naquele exato momento. Jânio Quadros, obviamente, era o personagem central. Mas o jornal “A Notícia” – inventado para o livro – abrangia tudo o que de importante foi acontecendo naquele período: o suicídio de Vargas, os percalços do governo de JK, etc. Havia reportagens até mesmo sobre a quase eleição de Marta Rocha como Miss Universo.

O grande imortal e mestre dos jornalistas políticos, Carlos Castello Branco concordou entusiasmado em prefaciar o livro, o qual foi lançado em maio de 1982. Foram vendidas 3 edições. Para alívio meu foi um sucesso. Nem tanto pelo conteúdo – eu não revelava nada de explosivo ou inédito – mas principalmente pela forma de abordagem. Eu contava a História exatamente como ela tinha acontecido, dia após dia, com as opiniões e os comentários publicados na época dos fatos.

Por causa do livro fui convidado a participar de diversos programas de rádio e televisão, o que acabou me rendendo um convite, no fim do ano, para ser comentarista de economia e política no “Jornal da Manhã”, um programa de grande audiência da Rádio Jovem Pan.

Iniciava-se, assim, uma nova etapa de minha vida.

O mundo neurótico do rádio e da TV

Diga o que disser, nunca passe de 1 minuto.

1983 foi um ano de mudanças para mim. Em março me casei, em fevereiro voltei para a escola e em janeiro comecei a trabalhar no rádio.

 

Álbum de Família

Álbum de Família

       O casamento foi uma decorrência natural de minha vida. Havia namorado Dora, minha esposa durante longos dez anos, embora de forma intermitente. Tempo mais do que suficiente para perceber que era ela, e ninguém mais, a mulher da minha vida.

A volta à escola foi uma exigência do Sindicato dos Jornalistas que andava pressionando a Jovem Pan pelo fato de não ser eu formado em comunicações sociais.

Difícil mesmo foi me adaptar ao ritmo frenético do radiojornalismo. Eu entrava no ar pontualmente às 7 horas da manhã, o que me fazia chegar à rádio às 6 horas, para dar tempo de ler atentamente todos os jornais. Essa rotina fazia com que eu tivesse que despertar às 5 horas, todos os dias. Esse maldito hábito se impregnou em mim. Até hoje, mesmo sem ter o que fazer de madrugada, eu desperto automaticamente às 5.

Os locutores iam lendo rapidamente as notícias do dia e a minha função era, de vez em quando, entrar com um comentário “inteligente”, fosse para interpretar a notícia, fosse para opinar sobre ela.

O diretor de jornalismo da rádio, então, era o lendário Fernando Vieira de Mello, um brilhante e experimentado jornalista, ao mesmo tempo genial e genioso. Logo no meu início ele tratou de me alertar, com sua voz sempre exaltada:

__ Escuta aqui, ô rapaz! Jornalismo de rádio é acima de tudo ritmo. Jamais deixe o jornal perder o pique. Você pode ter o comentário mais importante e inteligente do mundo para fazer, mas se demorar mais do que 60 segundos eu corto imediatamente o seu microfone!

Ele não estava brincando. Passava as 2 horas do jornal em pé, no estúdio. Mal eu começava a falar ele acionava o cronômetro. Lá pelo trigésimo segundo da minha locução ele começava a dar pontapés na mesa. Aos 50 segundos ele já estava histérico, soltando palavrões em voz baixa. Nunca me atrevi a ultrapassar os 60 segundos fatais…

Hoje em dia eu reconheço que ele foi o meu maior mestre no jornalismo. Na época nutria por ele uma freudiana relação de amor e ódio.

Ele me dizia que comentarista que se preze tem que viver concretamente as notícias. Durante pelo menos um ano obrigou-me a voltar à rádio a tarde, depois da faculdade, para acompanhar as ocorrências do dia “in loco”, com as diversas equipes de reportagem. Eu fazia de tudo. Desde entrevistar ministros até cobrir batidas policiais e rebeliões de presídios.

Os repórteres da Jovem Pan – Edson DiFonso e Milton Parron, por exemplo – parece que tinham sangue de barata. Se havia um tiroteio entre polícia e bandidos eles faziam questão de se colocar, com seus microfones, bem no meio da linha de tiro. E eu tinha que ir junto. Cheguei algumas vezes a temer pela minha integridade física. Mas que a experiência valeu, valeu. Aprendi a praticar jornalismo como gente grande.

Quanto ao salário, ele era pouco mais do que ridículo. Eu eu, então, já tinha família para sustentar. Quando completei um ano de serviço procurei o Fernando Vieira de Mello e lhe pedi um aumento. Recebi um sonoro e indignado não! E a explicação que ele me deu eu guardo até hoje comigo.

__ Vocês, jornalistas, não tem porque ganhar bem. Primeiro porque tem mil pessoas tão boas como você que se dispõem a pagar para fazer o que você faz. Segundo porque vocês já recebem um polpudo “adicional de vaidade”!

Ele estava coberto de razão. Em todo lugar, até mesmo na Rede Globo, jornalista ganha um salário miserável. E nunca vão faltar profissionais para trabalhar. O que vale mesmo é o maldito “adicional de vaidade”….

Na TV- O insólito “Jornal da Tosse”

No início de 1983 fui convidado para participar do corpo de comentaristas do “Record em Notícias”, um programa da TV Record que era levado ao ar diariamente, das 12 às 13 horas.

Era um programa original em todos os sentidos. A TV Record, na época de propriedade da família Machado de Carvalho, vivia havia muito anos em situação financeiramente difícil.

Um belo dia muitos anos antes de meu ingresso – a emissora decidiu que deveria ter um programa jornalístico. Foi escolhido o horário do meio-dia, que era quando os telespectadores – principalmente no interior – costumavam ir para casa, almoçar.

O problema é que jornalismo em qualquer lugar, custa caro. Um programa tem que ter necessariamente imagens externas para ilustrar as notícias. E a Record, na sua tradicional penúria, não contava com equipes de reportagem que pudessem sair a campo para as filmagens. Decidiu-se então pelo mais barato. As notícias eram redigidas por dois antigos jornalistas com base na leitura dos jornais do dia e as imagens utilizadas eram aquelas cedidas gratuitamente pela Radiobrás. Mesmo assim sobrava tempo. E a maioria dos fatos noticiados não tinha imagens para acompanhá-los.

A solução foi montar no estúdio uma mesa em semi-círculo e convidar alguns radialistas veteranos para preencher o tempo “comentando” cada notícia. Havia de tudo. Repórter policial, comentarista esportivo, político aposentado, padre, animador de auditório e até mesmo delegado de polícia. Um mediador traquejado, o Hélio Ansaldo, coordenava o programa. Um locutor lia a “notícia” e, após isso, o Hélio convidava cada um dos participantes a fazer o seu comentário sobre ela.

A média de idade dos participantes era alta, eram todos veteranos dos tempos áureos da emissora, na década de 1960. Muitos deles pigarreavam e tossiam no ar, de onde veio o apelido maldoso de “Jornal da Tosse”.

Para surpresa geral, o programa começou a fazer algum sucesso. O Dr. Paulo Machado de Carvalho começou a selecionar melhor os comentaristas e, com isso, logrou-se conseguir uma fiel audiência. A interpretação do fenômeno foi a de que havia um segmento de telespectadores que não se contentava simplesmente em ouvir textualmente as notícias. Eles queriam gente que interpretasse os fatos. Quanto mais gente melhor. Da soma de diferentes opiniões o espectador dispunha de elementos para formar a sua própria.

Eu fora convidado com o intuito de melhorar um pouco o nível dos debates. Logo depois veio a Maria Lídia e até mesmo o José Serra. O programa emplacou. Chegava a dar 7 pontos no IBOPE, uma audiência invejável para o horário.

Trabalhei no “Record em Notícias” diariamente, por 10 anos, até 1993. Tenho saudades até hoje. O programa só saiu do ar depois da venda da emissora à Igreja Universal, que o substituiu por um outro, de cunho religioso.

Tornei-me um jornalista famoso, ao menos no interior.

Jânio Quadros
 
 

 

1986 – O início de minha vida pública com Jânio Quadros como professor.

Jânio Quadros elegeu-se prefeito de São Paulo após uma memorável campanha em novembro de 1985. Permaneci neutro naquela campanha. Jânio era amigo de meu pai desde moço e eu mantinha boas relações com ele, a ponto de tê-lo escolhido como tema de meu primeiro livro 3 estórias para 1 história . Ocorre que o seu maior adversário, naquela campanha, era ninguém menos do que o Fernando Henrique Cardoso, um homem que eu admirava profundamente e cujo relacionamento eu relato no artigo O encantador de serpentes. Eu não me senti à vontade para tomar partido por nenhum dos dois.

Para certa surpresa minha, em dezembro de 1985, a quatro dias de sua posse, Jânio me convocou ao seu apartamento. Eu trabalhava à época como assessor especial da presidência do Banco Mercantil de São Paulo e era uma espécie de faz-tudo do dr. Gastão Vidigal.

 

Com Jânio, Secretário da Administração 1988

Com Jânio, Secretário da Administração 1988

      Jânio me convidou para ser o seu Secretário de Coordenação Governamental. Ele soube que o seu antecessor, o dr. Mario Covas, havia montado no gabinete do prefeito uma super-assessoria que controlava e acompanhava todas as obras e serviços da municipalidade. Ele me considerou talhado para o cargo, então chamado de Assessoria Especial do Prefeito.

__ Sr. Mellão, eu quero que o senhor faça por mim o mesmo que tem feito pelo Gastão Vidigal.
__ Presidente ( ele gostava que o tratassem assim), a prefeitura não é um banco. Lá no Mercantil eu tenho plena liberdade de ação. Em uma prefeitura existem vereadores, secretários, assessores, uma porção de pessoas para se contrapor ao meu trabalho e fazer intrigas sobre mim.
__ Não tem importância. Se o senhor sobreviver seis meses naquele ninho de cobras eu prometo que lhe entrego a cadeira de prefeito!

Topei o desafio.

Descendo ao InfernoNo dia 1º de janeiro compareci à prefeitura – à época no Parque Ibirapuera – para a minha posse. Minha sala era vizinha a do prefeito e havia pelo menos uns cinco tiranetes interessados em tomá-la de mim nem que fosse na marra. O principal era um coronel da Polícia Militar, o novo chefe da Assessoria Militar do Prefeito que a desejava pretextando motivos de segurança. Cada um dos demais também tinha os seus sólidos motivos.

 

Falei diretamente com Jânio e ele não se dispôs a fazer nada por mim. Gritei, ameacei, esperneei e, a muito custo – e vários novos inimigos – consegui manter o meu local de trabalho.

Aquilo era só o começo. Como pretenso biógrafo de Jânio Quadros eu deveria saber que o seu estilo era esse mesmo. Deixar que todos se matem e depois tratar de prestigiar os sobreviventes.

Não foi fácil, mas sobrevivi. Lá pelo sétimo mês de governo, o prefeito começou, aos poucos, a me dar algum poder.

O mérito não foi apenas meu. Mário Covas havia deixado sob o comando de minha pasta nada menos do que a elite da prefeitura. Os meus assessores eram excelentes e entendiam a máquina pública como ninguém. Com gente assim não foi difícil mostrar serviço.

__Traga-me soluções, sr. Mellão. Problemas qualquer um pode trazer…

Dito e feito. A minha equipe detectava os problemas, apresentava as soluções e eu já levava, devidamente redigidos, os “bilhetinhos” para o Jânio assinar.

Com o tempo Jânio acostumou-se a me passar todo e qualquer tipo de problema que não estava com vontade nem disposição de resolver. Fui interventor em diversos setores da prefeitura, inclusive na Secretaria de Esportes, a qual dirigi por seis meses, brigando com a bancada inteira de vereadores.

Jânio Quadros cunhou uma frase que ficou famosa na minha carreira pública:

__Abacaxis são com o Mellão!
__E que abacaxis…

 

A minha grande chance – A Reforma Administrativa

 

Em junho de 1987, estava eu para lá de satisfeito no meu cargo, quando o prefeito me nomeou Secretário Municipal da Administração.

A princípio fiquei inconformado. A Secretaria da Administração, embora enorme, era um verdadeiro caos. Em um ano e meio de governo havia passado pelas mãos de cinco secretários diferentes. Cabia a ela administrar o inadministrável, ou seja, os mais de 100 mil combativos funcionários municipais.

Queixei-me ao Jânio. Ele me respondeu:

__O que o senhor queria? Se eu lhe desse uma secretaria sem problemas o senhor não teria como se destacar. Lá, não. Está tão ruim que tudo o que o senhor fizer é lucro!

Fui, a contragosto, mas tratei de levar a minha eficiente equipe comigo.

Seis meses depois, tinha em mãos um revolucionário projeto de reforma administrativa da prefeitura, calcado em experiências bem sucedidas de recursos humanos de grandes e modernas empresas privadas.

A Reforma Administrativa foi aprovada pelo Legislativo Municipal e, como Jânio previra, a partir dali eu comecei a me destacar. Até hoje, passados 15 anos, ainda encontro funcionários municipais que me agradecem pelo feito.

Com José Sarney em audiência no Palácio do Planalto - Reforma Administrativa

Com José Sarney em audiência no Palácio do Planalto - Reforma Administrativa

      O mérito, verdade seja dita, não era meu, mas sim da brilhante equipe que eu herdara de Mário Covas. Mas quem tem fama, deita na cama. A Câmara Municipal me outorgou o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, toda a grande imprensa fez editoriais ao meu favor e até o então presidente José Sarney se interessou pelo meu trabalho. Eu adquiri uma imgaem pública de excelente administrador. E ela seria muito útil mais tarde.

Sou grato a Jânio por isso.

E por todos os abacaxis que ele me enviou pra descascar.