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	<title>Blog do Jornalista João Mellão Neto</title>
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		<title>Lula é Popular</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jul 2010 15:07:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mellão Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Um ano antes da eleição em que, após outras três tentativas frustradas, Lula foi guindado à Presidência da República, o então novo marqueteiro do PT, Duda Mendonça, publicou um livro que merece ser ressaltado. O título é Casos e Coisas.Entre outras afirmações, Duda vaticinou que o Partido dos Trabalhadores, em função da coesão, da motivação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/lula3.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-937" title="lula" src="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/lula3-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Um ano antes da eleição em que, após outras três tentativas frustradas, Lula foi guindado à Presidência da República, o então novo marqueteiro do PT, Duda Mendonça, publicou um livro que merece ser ressaltado. O título é Casos e Coisas.Entre outras afirmações, Duda vaticinou que o Partido dos Trabalhadores, em função da coesão, da motivação e da uniformidade ideológica de seus membros, haveria, mais cedo ou mais tarde, de alcançar o poder nacional.</p>
<p>Duda realçou que alguns retoques na imagem de Lula e do partido deveriam ser feitos de imediato. Entre eles, o principal era o de eliminar qualquer resquício da ideia de luta de classes, tão cara aos intelectuais marxistas. E foi mais além. O ideal, mesmo, era suprimir todos os vestígios que lembrassem luta. Segundo o marqueteiro, o bordão preferido dos petistas &#8211; &#8220;a luta continua!&#8221; &#8211; era terrivelmente contraproducente. A palavra luta lembrava briga, confusão. E se havia algo de que os brasileiros, em geral, queriam distância, era isso.</p>
<p>Dito e feito. Nunca mais nenhum petista &#8211; a não ser alguns desavisados &#8211; se valeu de tal slogan. Nunca mais, também, foi utilizado o argumento de que haveria uma contraposição entre os anseios dos proletários e dos seus patrões burgueses. Não havia mais por que dividi-los em duas classes em tudo opostas e conflitantes. A partir de então seríamos todos brasileiros. Com princípios, conceitos e objetivos iguais em tudo. O atual slogan do governo de Lula, &#8220;um Brasil de todos&#8221;, é um eloquente exemplo dessa então nova postura.Lula jamais venceria eleições majoritárias enquanto provocasse receio e ojeriza nas camadas mais elevadas da sociedade. Se não pudesse tê-las ao seu lado, deveria, ao menos, neutralizá-las. Tudo deveria começar com uma mudança radical de atitude, começando por sua aparência pessoal. Lula aparou a barba e corrigiu os dentes. Foram comprados ternos bem cortados, camisas sob medida e gravatas de bom gosto. Passou também a se apresentar com o rosto bronzeado e sem suor.</p>
<p>O tom do discurso mudou. Saiu o Lula combativo, feroz e ameaçador para dar lugar à versão &#8220;paz e amor&#8221;. Quer dizer, então, que o novo Lula é uma farsa? Não. O seu compromisso com o marxismo e com a Teologia da Libertação era apenas circunstancial. No início de sua carreira pública, como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, no final dos anos 70, Lula não só tinha nenhum dos cacoetes da esquerda brasileira, como também se mostrava refratário a qualquer participação dela em sua pregação. Chegou a declarar, à época, que intelectuais e estudantes só serviam para atrapalhar. Lula despontava perante a opinião pública como um líder operário de massas de perfil moderno, destituído dos vícios ideológicos que inviabilizaram os sindicalistas de antes de 1964. Mais tarde, depois de fundado o PT, ele percebeu que o apoio do pensamento de esquerda era fundamental para motivar a militância, passando, então, a permitir que professores, estudantes e padres o municiassem de argumentos.</p>
<p>Lula, em sua origem, não era um esquerdista. E após a chegada de Duda Mendonça deixou logo de sê-lo. Não há nada de insincero ou artificial, portanto, em seu atual perfil. Lula, no poder, tem-se revelado ora liberal, ortodoxo e conservador, ora esquerdista, &#8220;progressista&#8221; e nacionalista, ora clientelista e assistencialista. Qual deles é o verdadeiro L ula? Talvez todos.Sua política econômica é, em todos os sentidos, de cunho liberal. Ou seja, não faz apostas contra as forças do mercado, não demoniza a iniciativa privada e, no geral, procura não atentar contra o direito de propriedade e o fiel cumprimento dos contratos. É melhor que seja assim. Ao agir dessa forma, Lula ganha alguns inimigos dentro das esquerdas, mas, em contrapartida, passa a ser respeitado na comunidade internacional e no meio empresarial.</p>
<p>Seu lado esquerdista e terceiro-mundista se revela, principalmente, na política externa, na área fundiária e, até recentemente, no que tange ao meio ambiente. Aí vale de tudo: cortejar Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e, agora, Fernando Lugo, do Paraguai, mesmo quando estes manifestam intenções belicosas e contrárias aos interesses do Brasil, despender tempo e dinheiro em viagens aos países pobres da África, rosnar e vociferar contra os Estados Unidos, e vai por aí em diante.</p>
<p>Na política fundiária, o governo de Lula transfere recursos para o MST, nada faz contra as invasões de terras e fecha os olhos para tudo de ilegal que ocorre nesse campo. Mas é do clientelismo e do assistencialismo &#8211; práticas atrasadas e antiquadas de nossa democracia &#8211; que Lula extrai suas maiores forças. Este governo abrigou mais de 30 mil petistas na administração pública federal. Os que não estão diretamente empregados no governo são favorecidos por este por meio de contratos de prestação de serviços e de fornecimento de produtos. Tudo isso sai muito caro para o Brasil, que cada vez mais desperdiça recursos, quer por corrupção, quer por incompetência. Há, por fim, o cume do assistencialismo, que é o famigerado Bolsa-Família. Já são bastante conhecidos os inconvenientes provocados por tal programa. Ao dar dinheiro vivo às pessoas sem exigir nenhum tipo de contrapartida, o governo está incentivando a irresponsabilidade, o parasitismo e o espírito da mendicância. Está dando o peixe, abstendo-se de ensinar a pescar. O problema é que o Bolsa-Família alcança 11 milhões de famílias, em todos os rincões da Nação. Ou seja, não dá mais para voltar atrás. Lula é tudo isso e entende, também, que a coerência é um princípio descartável quando se exerce o poder.Lula é popular. Com tudo isso e apesar de tudo isso.</p>
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		<title>O Resgate Moral da América</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Jul 2010 12:40:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mellão Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[A Visão Liberal]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Antigos]]></category>
		<category><![CDATA[Espaço Aberto do Estadão]]></category>
		<category><![CDATA[Liberalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[A eleição consagradora de um negro para ocupar a presidência dos Estados Unidos da América é um fenômeno que merece ser estudado. Barack Obama, de início, já tinha contra ele três obstáculos que o inviabilizavam. Ele não é um wasp (branco, anglo-saxão e protestante, na sigla em inglês) e, até hoje, o único eleito que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/barack-obama2.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-930" title="barack-obama" src="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/barack-obama2-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>A eleição consagradora de um negro para ocupar a presidência dos Estados Unidos da América é um fenômeno que merece ser estudado. Barack Obama, de início, já tinha contra ele três obstáculos que o inviabilizavam. Ele não é um wasp (branco, anglo-saxão e protestante, na sigla em inglês) e, até hoje, o único eleito que não preencheu esses requisitos foi John Kennedy, que era católico. Obama só preenche um deles: é protestante. Outro óbice é a idade: os americanos raramente elegem alguém com menos de 50 anos. Obama, Bill Clinton e Kennedy foram os únicos a vencer esse preconceito, elegendo-se na faixa dos 40.</p>
<p>Isso já bastaria para descartá-lo, mas tem mais: Obama não tem nenhuma experiência administrativa. É senador há somente três anos e provavelmente nem conhece o prédio do Senado por inteiro. Ninguém tem como dizer qual é o seu plano de governo. Suas palavras são messiânicas e não têm, ao menos, um mínimo de detalhamento. Dele se conhece apenas a recorrente palavra de ordem: &#8220;É preciso mudar, acredite, você pode fazê-lo!&#8221; Ora, Obama jamais esclareceu quais são as mudanças que vai fazer. Seu discurso é, mal comparando, como uma meia de nylon: entra fácil em qualquer pé. Mesmo assim, ele é fascinante, arrebata todas as platéias a que se dirige. Seu passado é impecável. Se por acaso fosse católico, jamais, mesmo na infância, cogitaria, num inocente desejo, de mordiscar uma hóstia. Imagine-se, então, como se teria comportado se fosse tentado por pecados mais graves.</p>
<p>Com um passado sem jaça e uma pregação vaga e irresistível &#8211; afinal, quem é contrário a mudanças? -, Obama revela-se uma pessoa inatacável. Sua pregação, imprecisa e atraente, na sua boca, é irresistível. Seu apelo &#8211; místico e messiânico na dose exata &#8211; se multiplica ainda mais na medida em que se recusa a explicitá-lo. Ele se acha o agente das mudanças. Obama, acreditam todos, é o presidente ideal para realizá-las. Por seu passado, sua determinação e seu destemor, no imaginário popular é um messias providencial que vai empreender as mudanças que se fazem necessárias.</p>
<p>A maior nação da Terra está moralmente frágil. Homens públicos com o perfil, a pregação ética e a eloqüência de Barak Obama, em outras épocas, seriam ridicularizados. Atualmente, diante das graves feridas que gangrenam a América, o que se passa é o contrário. Pessoas como Obama, no momento especial e delicado que o país vive, ao contrário, revelam-se extremamente oportunas e urgentes. Jimmy Carter, na década de 70, com seu discurso piegas e moralista, só se elegeu presidente no rastro da vergonha que os americanos sentiam em razão do comportamento injustificável do presidente Richard Nixon, nem tanto no caso Watergate, mas pelos pecados éticos que cometeu para encobrir sua participação e total cumplicidade, cabalmente demonstradas logo depois.</p>
<p>Explica-se: os Estados Unidos da América, embora poucos no estrangeiro se dêem conta disso, são, ao mesmo tempo, a mais poderosa, pujante e &#8211; surpresa! &#8211; a mais moralista, ética e religiosa nação do Ocidente. Até a desastrosa gestão de Bush filho, todos os países, por puro e improcedente hábito, atribuíam a culpa de todas as suas mazelas &#8211; invariavelmente criadas por eles próprios &#8211; ao extremamente poderoso e pujante colosso das Américas. Até aí, não havia problema algum. Os Estados Unidos, desde que passaram a liderar o mundo &#8211; por volta do final do século 19, ao sobrepujarem economicamente a Inglaterra -, tinham como sagrado princípio jamais entrar numa guerra sem terem recebido desesperados pedidos de socorro de nações amigas, agredidas por despóticos vizinhos, que quase sempre estavam empreendendo uma guerra de conquista. Havia uma exceção: o país se mobilizava, com todo o direito, quando uma nação qualquer, pelos mais variados motivos, atacava suas bases militares ou suas empresas no exterior. Nota-se esse espírito, claramente, na explícita relutância com que entrou tanto na 1ª como na 2ª Guerra Mundial. Sua participação, em ambos os casos, foi decisiva. Invariavelmente vencedores, os americanos, em todos os conflitos, abriram mão de conquistar territórios dos vencidos e nunca ousaram deles exigir as famigeradas &#8220;reparações de guerra&#8221;, porque entendiam que isso, na verdade, não era mais do que os execráveis butins tão costumeiros ao final dos combates, pelo menos até a 1ª Grande Guerra. Os &#8220;ianques&#8221;, ao contrário da maioria de seus aliados, não apenas se abstinham de saquear os derrotados como também despendiam fortunas vultosas para reerguer a economia de seus ex-inimigos, exigindo em troca que dali em diante estes adotassem o regime democrático pleno. Por sempre terem agido dessa forma, os cidadãos norte-americanos podiam, de fato e de direito, perambular pelo mundo de cabeça erguida. Entendendo, com razão, que todas as eventuais agressões e ofensas que sofressem eram motivadas pela mais mesquinha e vil das invejas. Toda essa superioridade moral, que era tão cara aos cidadãos norte-americanos, se perdeu, quase por inteiro, quando George W. Bush, talvez para vingar os vergonhosos resultados obtidos pelos &#8220;ianques&#8221; na primeira Guerra do Golfo &#8211; aquela em que um conjunto de nações se uniu para desalojar as tropas de Saddam Hussein do Kuwait -, tratou, logo depois de assumir a presidência, de quebrar todos os códigos de ética seguidos à risca pelos Estados Unidos em guerras no exterior.</p>
<p>Bush filho, sem ter sido agredido e sem ter em mãos um argumento minimamente justo, invadiu o Iraque, quebrando um precedente sagrado da ética norte-americana. Resultado: os norte-americanos acabaram perdendo, perante o mundo, a autoridade moral que a duras penas haviam conquistado. A América precisa de um Obama, para resgatar a autoridade moral que estupidamente perdeu. Que Obama o faça, com total destemor.</p>
<p><strong>Artigo publicado no jornal ” O Estado de São Paulo ” em 7 de novembro de 2008.</strong></p>
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		<title>A tragédia do Neopopulismo</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jul 2010 14:14:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mellão Neto</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Política Brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[O ex-deputado federal Vilmar Rocha, de Goiás, foi presidente do Instituto Tancredo Neves (ITN) na época em que eu fui diretor, em meados dos anos 90. Grande sujeito, missão ingrata a dele. Explico: por força de lei, todos os partidos devem criar um instituto de estudos e pesquisas, para melhor fundamentarem seu posicionamento no Congresso. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/lula1.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-924" title="lula" src="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/lula1-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>O ex-deputado federal Vilmar Rocha, de Goiás, foi presidente do Instituto Tancredo Neves (ITN) na época em que eu fui diretor, em meados dos anos 90. Grande sujeito, missão ingrata a dele. Explico: por força de lei, todos os partidos devem criar um instituto de estudos e pesquisas, para melhor fundamentarem seu posicionamento no Congresso. Até aí, tudo bem. Ocorre que, no Congresso, ninguém, em sã consciência, é capaz de dispor de um minuto sequer de seu tempo para discutir ideologia. Não que esta não seja importante. O problema é que, na prática, cada um adapta o discurso da maneira que quiser. Restamos nós, os bravos mosqueteiros do ITN, para formular, de maneira simplificada, simplória até, os postulados de nosso partido. Alguns, a esta altura, vão dizer que o PFL &#8211; hoje DEM &#8211; não tem ideologia. Acontece que o mesmo problema afligia todos os partidos, inclusive o (então vestal) Partido dos Trabalhadores.</p>
<p>Éramos meia dúzia de deputados, mas a nossa ação sugeria que fôssemos mais de cem. Devemos tudo isso ao Vilmar Rocha, que, a par de seus sólidos conhecimentos sobre sociologia política, tinha um senso de marketing inigualável.Pois bem, o Vilmar esteve em São Paulo na semana passada, para lançar o seu excelente e atual livro O Fascínio do Neopopulismo, que ele diferencia do antigo em função de algumas características básicas: o velho populismo alavancava o seu poder graças ao apoio incondicional dos sindicatos urbanos, aos quais concedia, em troca, vantagens salariais e privilégios trabalhistas; o neopopulismo, ao contrário, prefere cortejar a massa dos destituídos de tudo &#8211; são os sem-terra, os sem-teto, os sem-emprego.</p>
<p>Essa mudança estratégica se deve ao fato de o operariado, hoje, estar longe de ser a camada mais sacrificada da sociedade. De modo geral, o operário tem casa própria, TV em cores, automóvel e, cercado pelo conforto que seus eletrodomésticos lhe proporcionam, não tem mais disposição para sair às ruas em passeatas de protesto. O livro de Vilmar Rocha traz numerosos exemplos de como estão pipocando pela América Latina presidentes populistas, agora com ideologia renovada, e a ameaça que isso representa. O populismo, seja de que tipo for, redunda sempre em desastre. No início, o governo começa a gastar mais do que arrecada e, assim, pode dar aumentos salariais polpudos aos proletários e tocar um sem-número de programas sociais. Na segunda fase, o governo descobre que precisa criar receitas para fazer frente às crescentes despesas e passa a emitir bônus da dívida pública, na esperança de que essa fonte de receita seja inesgotável. Na terceira fase, o volume de bônus em poder do público é tão grande que ninguém mais acredita que o governo poderá pagá-los. O resto é sabido: a nação entra em colapso, não sem antes drenar toda a poupança do público.</p>
<p>Presidentes ou chefes de Estado personalistas existem em todas as partes do mundo. Nicolas Sarkozy, na França, é um deles, Silvio Berlusconi, que governou a Itália até recentemente, é outro. Barak Obama, caso venha a vencer as eleições norte-americanas, é um terceiro.</p>
<p>Por que eles não são classificados como populistas? Porque o poder de mando deles, uma vez no poder, é baixo. Quer falemos de França, Itália ou EUA, são todos países politicamente amadurecidos, cujos povos resistem, com ferocidade, a qualquer tentativa de conspurcar as suas instituições.A América Latina é o berço e, felizmente, a única pátria do populismo. Na África, simplesmente não existem instituições; nos países desenvolvidos, elas são fortes demais para que alguém ouse confrontá-las. Já na América Latina, as instituições existem, porém são fracas demais para resistir às investidas de aventureiros dotados de uma boa dose de carisma. Pesquisa recente levada a cabo em toda a América Latina demonstra o desapreço que nossos povos têm pelas instituições democráticas. Questionados a respeito, apenas 55% dos pesquisados consideraram a democracia o melhor regime. Esses números também são válidos para o Brasil, com uma agravante: boa parte dos pesquisados condicionou sua resposta a uma circunstância &#8211; se a economia for bem, se os salários subirem, etc.Acende-se, assim, uma luz vermelha no painel. O mais correto seria pensar que a democracia é importante quando as coisas vão bem e imprescindível quando vão mal. Caso contrário, nós estaremos à mercê do primeiro tiranete que apareça, em situações de crise, prometendo tão-somente que, por intermédio dele, “dias melhores virão”.</p>
<p>Prova disso tive recentemente, quando um aluno do terceiro ano de uma das mais renomadas faculdades de Administração do Brasil me procurou para que eu desse um testemunho vivo em seu trabalho de escola sobre os anos da ditadura. (É nessas horas que percebemos que estamos ficando velhos&#8230;) . Procurei mostrar-lhe que a nossa ditadura foi ambivalente: truculenta e cruel no trato com a oposição, com os dissidentes e até mesmo com os descontentes, eficiente e bem planejada no que tange à administração pública.Para surpresa minha, a essa altura, aquele rapaz que estudava na fina-flor da elite acadêmica, me aparteou: “Mas, se os governos militares tocavam a economia e a administração pública com muito mais eficiência do que o regime democrático, não teria sido mais inteligente mantê-los no poder?” Confesso que fiquei perplexo. Não é só ele que pensa assim. Provavelmente, a maioria de seus colegas de faculdade pensa dessa forma. Arrisquei uma resposta: “O que se discutia ali era a liberdade. E a liberdade não é um bem que se possa trocar no mercado.”Terminamos a entrevista, notei que ele não ficou nem um pouco convencido com a minha resposta. Queira Deus que não seja mais um, no futuro, a cerrar fileiras com os ditadores.</p>
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		<title>O Gênio do Mal</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Jul 2010 13:14:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mellão Neto</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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		<description><![CDATA[Depois do meu período universitário, ele era incensado por todos. Daniel Dantas era conhecido como o jovem mais inteligente do Brasil. Discípulo preferido de Mário Henrique Simonsen na Fundação Getúlio Vargas (FGV), fazia uma carreira brilhante na iniciativa privada, trabalhando como consultor para grandes empresários do Rio de Janeiro e recebendo como paga fortunas astronômicas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/corrputos.jpeg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-918" title="danieldantas" src="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/corrputos-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Depois do meu período universitário, ele era incensado por todos. Daniel Dantas era conhecido como o jovem mais inteligente do Brasil. Discípulo preferido de Mário Henrique Simonsen na Fundação Getúlio Vargas (FGV), fazia uma carreira brilhante na iniciativa privada, trabalhando como consultor para grandes empresários do Rio de Janeiro e recebendo como paga fortunas astronômicas. Sempre ouvi falar dele com respeito e admiração. Por pouco não foi ele o ministro da Fazenda de Fernando Collor, no lugar de Zélia Cardoso de Mello. Algumas intrigas palacianas o impediram de assumir o cargo. Até então, ele era do bem. O que faz um homem mudar tanto de índole e personalidade? Quem cruzou com ele em meados da década de 90, encontrou uma pessoa totalmente diferente.</p>
<p>Daniel Dantas deixara de trabalhar para grandes grupos econômicos e passou a se dedicar às suas próprias negociatas. Aquele que tinha sido o pupilo dileto de Simonsen, o &#8220;rei do mercado&#8221;, resolvera se dedicar a negócios, quase sempre escusos, com a banda podre do Estado. Eis o exemplo de um homem que se valeu de todo o seu talento e preparo com a finalidade exclusiva de ludibriar. Ludibriar os governantes, ludibriar os investidores e ludibriar a opinião pública.</p>
<p>Para tanto não hesitou em comprar consciências, despertar a cupidez de altos burocratas, cegar de ambição gente até então tida como proba e idônea. Dantas fez um grande mal para o Brasil. E tanto mais inteligente ele venha a ser, piores os estragos que causou ou pode vir a causar. Ele descobriu aquilo que todos, a bem da sociedade, vínhamos negando &#8211; qual seja, que cada homem tem o seu preço. E &#8211; o que ainda é mais nefasto &#8211; ele sabe quanto vale cada um.</p>
<p>Munido de tais &#8220;talentos&#8221;, ele logrou fazer uma carreira nas sombras da administração pública, sempre vendendo caro o que adquirira por uma pechincha, ou alienando por um valor exorbitante aquilo que não lhe custara nada para se vir a apossar. Dantas tem o talento inato de encantar as pessoas. E quanto mais alto o posto que essas pessoas ocupam na hierarquia, maior é a sua capacidade de persuadi-las. Ele tem intimidade com presidentes de estatais, ministros de Estado e até mesmo presidentes da República. Um homem com tais intenções e relacionamentos que grandes cataclismos tem o poder de causar às nossas instituições!</p>
<p>Eu, pessoalmente, prefiro o Daniel Dantas dos tempos da FGV. Era alguém, ao menos, que se podia admirar. O Brasil perdeu um gênio, alguém que sabia colocar as palavras certas nas frases certas. E, dessa forma, arrebatar as multidões. Esse homem se foi. Tomado, talvez, por tormentas de vil metal. Restou-nos um homem frio e insensível, para não dizer inescrupuloso. Um homem que se deita e levanta com uma única preocupação na cabeça: quanto vou ganhar hoje, quem será o otário que me vai proporcionar essa oportunidade? A que ponto se reduzem os seres humanos! Dinheiro é bom, seria hipocrisia negar esse fato. Mas viver unicamente em função dele é tornar-se escravo de seus caprichos, é condenar-se à indigência emocional. Se para amealhá-lo, então, há que vender a alma ao demônio, há que abrir mão de uma boa reputação, de que serve ele, afinal?</p>
<p>Não tenho o menor apreço, o menor respeito pelo Daniel Dantas de hoje em dia. Diferentemente do respeito e da reverência que nutro por Mário Henrique Simonsen. Mário Henrique foi coerente até o fim. Jamais abriu mão de seus ideais. Nunca permitiu que o fausto ou o poder lhe subissem à cabeça. Terminou os seus dias ocupando a mesma cadeira empoeirada que lhe serviu de assento por décadas a fio na FGV. Ao seu enterro, como último tributo, compareceram as figuras mais ilustres e respeitáveis da República, mesmo aquelas que discordavam de suas idéias.</p>
<p>Quem fará presença no velório de Daniel Dantas? Afinal, ele é o herdeiro intelectual de Mário Henrique. Duvido que venha a comparecer qualquer um dos condestáveis que prestigiaram Simonsen. Afinal, ele é um desprezível traidor da causa. Ao seu enterro, se muito, se farão presentes todos os parasitas do Estado que com ele enriqueceram, ou a quem ele ofereceu oportunidades de enriquecer. Gente que não deveria estar num campo santo, mas sim cumprindo pena em alguma penitenciária.</p>
<p>A Justiça norte-americana adota um procedimento muito singular quando o réu se trata de uma celebridade: as penas, em geral, são muito mais severas. Entendem os magistrados do norte que, justamente por serem celebridades, os transgressores deveriam cuidar muito mais de sua imagem, uma vez que os seus comportamentos acabam servindo de exemplo para milhares de admiradores. De mais a mais, esses ídolos populares não precisam se esforçar para ganhar dinheiro, vivem no luxo e no fausto e, não raramente, tiveram a oportunidade de usufruir uma educação diferenciada. Não há por que ter complacência por eles. Da mesma forma que, guardadas as proporções, ninguém se deve Antes de enveredar pelos tortuosos caminhos da pilantragem, Dantas já auferia fortunas por meio das concorridas consultorias que dava, gozava de prestígio ímpar por ser o braço direito de Simonsen e era recebido com reverência em qualquer escritório presidencial do Rio de Janeiro. O problema é que tudo isso não lhe bastava. Ele queria mais, muito mais.Deus castiga os ambiciosos, reza a Bíblia. No que tange a Dantas, parte da pena ele já recebeu. Talvez não vá para a cadeia, como acreditam os mais crédulos. Mas o seu prestígio, a sua honradez são coisas que, sem dúvida, ele já perdeu.</p>
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		<title>Quem tem medo da reforma tributária?</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Jul 2010 13:16:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mellão Neto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;O Estado não pode dar a ninguém algo que antes não tenha tirado de alguém.&#8221;  Essa assertiva parece óbvia, mas todos se esquecem dela quando o assunto é reforma tributária. O Estado, na cabeça de muitos, é um ente imaginário graças ao qual é possível todo mundo viver à custa de alguém. Nada mais justo, pelo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/arrecadacao-desonesta1.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-914" title="reforma tributária" src="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/arrecadacao-desonesta1-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>&#8220;O Estado não pode dar a ninguém algo que antes não tenha tirado de alguém.&#8221;  Essa assertiva parece óbvia, mas todos se esquecem dela quando o assunto é reforma tributária. O Estado, na cabeça de muitos, é um ente imaginário graças ao qual é possível todo mundo viver à custa de alguém. Nada mais justo, pelo menos do ponto de vista de cada um. Mas o Estado não produz riquezas, a não ser pelas poucas e pessimamente administradas empresas que ainda controla. No mais, a sua função é exclusivamente redistributiva: pela cobrança de impostos, taxas e &#8220;contribuições&#8221; ele acumula recursos que, ao menos teoricamente, despende em obras e serviços voltados para o bem comum. Acontece que, ao final das contas, ambos os lados ficam insatisfeitos. Quem pagou entende que pagou demais, quem recebeu acredita ter recebido de menos.  Para um governante, a tarefa mais ingrata é a de promover uma mudança efetiva nesse complexo sistema de extração de recursos, por um lado, e alocação de verbas, pelo outro.</p>
<p>Não há povo no mundo que se afirme plenamente satisfeito com seu sistema fiscal e tributário. Não há registro na História de algum grupo que tenha fundado uma &#8220;Sociedade dos Amigos do Fisco&#8221; ou algo similar. Os impostos, como bem diz o próprio nome, são impostos. O Estado os cria e cabe à sociedade a obrigação de pagá-los. O ideal é que o sistema seja o mais neutro possível: ninguém paga mais do que pode, ninguém recebe mais do que deve. Na prática, isso é quase impossível. Os segmentos da sociedade que gozam de melhor relacionamento com o poder sempre criam artifícios para pagar de menos ou receber demais. E o inverso ocorre com os segmentos que não contam com essa relação privilegiada. Mexer nesse complexo emaranhado, como já se disse, é uma missão trabalhosa e nada gratificante. Por pior que seja o sistema tributário de uma nação, ele ao menos goza do benefício da inércia. Trata-se de um tigre adormecido. Cutuque-se a fera e ninguém sabe o que pode acontecer&#8230;  Para melhor situar os leitores vale dizer que as reformas tributárias são sempre reformas constitucionais e, portanto, seguem o rito legislativo próprio delas: o presidente da República envia ao Congresso o seu projeto de reforma constitucional (PEC), que, para valer, deve ser aprovado por três quintos dos membros de cada Casa legislativa, em duas votações independentes em cada uma delas. Geralmente, as PECs iniciam sua tramitação pela Câmara dos Deputados.  Uma vez recebida a PEC pelo presidente da Câmara, este imediatamente cria uma comissão especial para dar parecer sobre ela. Essas comissões são compostas por membros de todos os partidos, na proporção de sua representação na Casa. Tive a oportunidade de ser presidente de uma comissão especial, a da Reforma Administrativa, no início do governo de Fernando Henrique Cardoso. A minha comissão não era a única. Simultaneamente foram criadas várias, para atender à ânsia reformista do nosso presidente sociólogo. Uma delas, justamente, tratava da famigerada reforma tributária e se reunia na sala contígua à da minha. Novamente a título de esclarecimento, cabe lembrar que cada comissão tem um parlamentar que cumpre o papel de relator. Sua função é recolher as propostas de emendas que são feitas pelos deputados com o fim de mudar ou aperfeiçoar o texto vindo do Planalto. De posse dessas emendas e ouvindo as diversas opiniões dos membros da comissão, o relator elabora seu parecer, que é submetido à votação da comissão. Se for aprovado, o texto segue para votação pelo plenário &#8211; a totalidade dos membros da Casa.  Pois bem, a minha comissão foi inaugurada na mesma data em que se iniciou a da reforma tributária. O relator da comissão vizinha era o deputado Mussa Demes, um piauiense, tributarista experiente e dotado de uma paciência de Jó. Ele teve de valer-se dela toda para conduzir o seu trabalho, tamanhas eram as controvérsias e as paixões envolvidas. A comissão da Reforma Administrativa encerrou os seus trabalhos 14 meses depois. A da Reforma Tributária até hoje aguarda um parecer conclusivo, uma vez que não se chegou a consenso sequer quanto ao texto de seu preâmbulo.  Eu, pessoalmente, não acredito em reformas tributárias em democracias e sob o signo da paz. Como se trata de dinheiro, todos participam sem disposição de ceder em nada e determinados a ganhar em tudo. O jogo é tipicamente de soma zero: para que um possa ganhar é necessário que outro perca na mesma proporção. E todos os jogadores têm poderes iguais. Não existe um árbitro para decidir controvérsias. Não é preciso ser conhecedor da Teoria dos Jogos (Neumann-Morgenstern, 1944) para intuir ser impossível um final feliz ou, ao menos, razoável. Se ganham os Estados produtores, naturalmente perdem os Estados consumidores. Se a União sai com vantagens, saem perdendo os Estados e municípios. A solução que enfrenta a menor resistência é aquela em que todos, de uma forma ou de outra, saem ganhando. Como o poder público pode até fabricar dinheiro &#8211; embora não produza riquezas -, opta-se por aumentar o quinhão de todos, comodamente omitindo quais são as fontes desses recursos extras. O resultado, no curto prazo, é que todos saem felizes e satisfeitos. Já no médio prazo, como o poder público está despendendo mais do que arrecada, surge uma incômoda inflação, o que, entre outras coisas, desorganiza a economia. No longo prazo, é o caos. Ninguém mais investe, porque se torna impossível calcular a taxa de retorno, ninguém mais emprega, porque não convém assumir custos maiores em eras de incerteza. E ocorre a total estagnação da economia.  Queira Deus que, desta vez, seja diferente. Mas a experiência histórica nos indica que promover reformas tributárias é o mesmo que subir no lombo de um leão. Montar é fácil. Difícil mesmo é desmontar depois&#8230;</p>
<p><strong>Artigo publicado no jornal ” O Estado de São Paulo ” em 14 de março de 2008.</strong></p>
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		<title>Réquiem para o Senado</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Jul 2010 14:33:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mellão Neto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Foi, sem sombra de dúvida, o momento mais execrável de toda a história do Senado da República. Que dizer? Invejar Ali Babá por ter enfrentado apenas 40 ladrões? Pois deste lamentável escrutínio se sobressaíram 46. Os que inocentaram o réu e mais meia dúzia que sabia de antemão que, ao optar pela abstenção, estaria, na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/1080954-51945-1280.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-900" title="mellao" src="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/1080954-51945-1280-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Foi, sem sombra de dúvida, o momento mais execrável de toda a história do Senado da República. Que dizer? Invejar Ali Babá por ter enfrentado apenas 40 ladrões? Pois deste lamentável escrutínio se sobressaíram 46. Os que inocentaram o réu e mais meia dúzia que sabia de antemão que, ao optar pela abstenção, estaria, na prática, engrossando o contingente da vilania e da canalha.  A República romana se encerrou assim, melancolicamente. O povo, já totalmente desencantado com a venalidade e a falta de credenciais morais dos membros do Senado, optou por entregar seu destino a Júlio César. Um complô, articulado por senadores, acabou por assassiná-lo, mas sua eliminação física de nada adiantou. Nos corações e mentes dos cidadãos já estava enraizada a idéia de transformar Roma num império.</p>
<p>Consta que alguns tribunos ainda tentaram alertar as massas para o risco potencial de se entregar todo o poder ao arbítrio de um homem só. Tiveram como resposta o argumento de que preferiam a eventualidade de serem consumidos por um único leão à certeza de serem devorados por várias dezenas de ratos. A República havia desmoronado. E ninguém lamentou seu fim.  A, sob todos os aspectos, vexatória e injustificável absolvição do presidente do Senado não é, como acreditam muitos dos poderosos do Planalto, o marco de um recomeço. É uma missa de réquiem, é o lúgubre dobre dos sinos que se dá quando um cortejo fúnebre adentra a capela de uma necrópole. Vela-se o cadáver de quem? O da democracia &#8211; ao menos aos olhos daqueles que a tinham como um regime perfeito, que se aperfeiçoava por si própria a cada novo impasse ou problema que se apresentava.   A nós só cabe lamentar que seja assim. Uma legítima instituição democrática, num processo também impecavelmente legítimo, cometeu um erro gravíssimo, o que, no pensar de muitos, demonstra que o regime democrático não é desprovido de máculas, que seus freios e contrapesos por vezes falham e que nele ocorrem situações em que os interesses inconfessáveis de uma ínfima minoria acabam por se impor, à força, sobre a vontade geral. Episódios reles como este aguçam em muitos a tentação totalitária. A idealização de um regime de força que, sob a égide de um tirano esclarecido, conquiste as massas, acenando-lhes com sua determinação de limpar de vez, e para sempre, as fétidas cavalariças de Áugias.  Na 2ª Guerra Mundial, no que ficou conhecida como a Batalha da Inglaterra, não mais que três centenas de pilotos britânicos lograram salvar Londres da total destruição, sob os ataques de mais de mil bombardeiros nazistas. O primeiro-ministro Winston Churchill, sobre o fenômeno, declarou que “nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.  A História se repete agora, com sinais trocados, no Brasil. Nunca tantos se desencantaram tanto com tão poucos&#8230; Quatro dezenas e meia de tribunos da Câmara Alta &#8211; além, é claro, do próprio réu -, uma vez protegidos pelo anonimato que lhes garantiu a votação e até mesmo a sessão secreta, simplesmente mandaram às favas seus princípios e escrúpulos, tripudiaram sobre os milhões de cidadãos que os elegeram e, contrariando todas as provas e evidências apresentadas, optaram pelo mais abjeto dos compadrios e livraram do justo castigo o nefasto colega.  Confesso-me um ingênuo. De tanto estudar a biografia de grandes homens, eu imaginava que a função moldava o indivíduo. Quanto mais elevado o cargo que o cidadão assumia, mais ele se imbuía de suas responsabilidades e mais grandeza adquiria. A mesquinhez, a tacanhice, o pensar pequeno, a meu ver, eram atributos exclusivos daqueles que nunca galgaram posições minimamente destacadas na vida pública. Qual o quê! O episódio de quarta-feira demonstra cabalmente que até mesmo digníssimos senhores senadores da República, todos eles vencedores de eleições majoritárias &#8211; ou seja, agraciados com a maioria dos votos de confiança dos cidadãos de seus Estados -, são capazes de descer ao nível de pequenez e baixeza do mais desprezível vereador de cidade pequena.  Já se propalou, na imprensa, que esta é a pior legislatura do Senado em toda a sua história. Contribui para sua mediocridade o fato de que nada menos que 16 de suas 81 cadeiras estão sendo ocupadas por suplentes, ou seja, pessoas que não receberam nenhum voto, mas lá estão porque seus titulares assumiram outros postos. Eles não têm nenhum laço de confiança com os eleitores e não cultuam a veleidade de virem a ser reeleitos. Que grau de compromisso com a coisa pública se pode esperar de cidadãos desse naipe?  Não são poucos, também, aqueles que, provenientes de Estados recentemente guindados a essa condição, têm um eleitorado ainda não consolidado e imaturo politicamente, o que proporciona excelentes oportunidades para que aventureiros venham a ter sucesso nas urnas.   Em razão de tudo isso, nunca nutri grandes expectativas quanto à sabedoria política e à ponderação que, como Casa revisora, é o que minimamente se espera em sistemas democráticos em que o Poder Legislativo é bipartido. Mas, mesmo com todo o meu ceticismo, não imaginava que a degradação moral e de costumes da Câmara Alta chegasse ao ponto a que chegou. Não culpemos todos. Eles são 46. Mas compõem, juntos, a maioria da Casa. E isso é o bastante para desacreditá-la quase por completo perante a opinião pública.  Eticamente falidos, anões morais, arremedos de estadistas, simulacros de homens públicos, essa gente já garantiu para si e perante a História o epíteto de “os 46 infames”. E que nossos filhos e netos jamais se esqueçam deste nefasto 12 de setembro de 2007 &#8211; o dia em que o Senado, por opção majoritária de seus membros, não hesitou em mergulhar na pocilga e nela chafurdar na desonra.  Vergonha!</p>
<p><strong>Artigo publicado no jornal &#8221; O Estado de São Paulo &#8221; em 14 de setembro de 2007.</strong></p>
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		<title>O Gênio de Garanhuns</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Jul 2010 13:59:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mellão Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos Antigos]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Lula e o PT]]></category>
		<category><![CDATA[Política Brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[Esta semana ficou marcada, em Brasília, por um fenômeno inédito: a renovação da CPMF foi derrubada (dia 13) no Senado e, com isso, Lula perdeu a sua primeira batalha naquela Casa. Algo semelhante não ocorrera durante todo o tempo em que esteve à frente do Poder Executivo. Ele, sem dúvida, é um homem predestinado. Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/garanhuns2.jpg"></a><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/lula.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-897" title="lula" src="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/lula-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Esta semana ficou marcada, em Brasília, por um fenômeno inédito: a renovação da CPMF foi derrubada (dia 13) no Senado e, com isso, Lula perdeu a sua primeira batalha naquela Casa. Algo semelhante não ocorrera durante todo o tempo em que esteve à frente do Poder Executivo. Ele, sem dúvida, é um homem predestinado. Não enfrentou, até agora, nenhuma crise séria que pudesse abreviar o seu mandato. O cenário internacional não poderia ser-lhe mais positivo. Tem ampla maioria na Câmara dos Deputados e é aprovado por uma larga margem de brasileiros. Estamos vivenciando um momento paradoxal. Nós, da elite, estamos acostumados a associar a cultura à inteligência. Pois está aí o paradoxo: nosso presidente é, ao mesmo tempo, uma pessoa inteligente e ignorante. E essa insólita combinação, até agora, só lhe trouxe benefícios. Não são poucos os que o subestimam. Todos acreditam poder influenciar as suas decisões. Trata-se de um esforço vão. Ninguém, realmente, é capaz de &#8220;fazer a sua cabeça&#8221;.</p>
<p>No seu sinuoso trajeto de Garanhuns para o mundo, ele aprendeu mais sobre as pessoas do que o mais renomado dos psicólogos lhe poderia ensinar. Não será um intelectualóide qualquer, com um discurso atraente, que logrará influenciá-lo ou ministrar-lhe lições de vida. Lembro-me de ter lido, alguns anos atrás, um livro do psicólogo americano Daniel Goleman em que ele defendia, com admirável lucidez, a tese de que a inteligência humana não pode ser mensurada apenas por testes de Q. I. (quociente intelectual). Haveria outra inteligência, tão ou mais importante que a racional, que permitiria, com precisão ainda maior, avaliar o potencial de cada pessoa. Ele a denominou inteligência emocional. As pessoas emocionalmente inteligentes possuem, naturalmente, uma simpatia cativante.Elas decifram o potencial, as motivações e a boa-fé de um interlocutor em questão de segundos. Não perguntem aos inteligentes emocionais quais são as ferramentas mentais de que se valem, eles também não sabem, têm ciência, apenas, de que são mais persuasivos que os demais e são dotados de aguda sensibilidade. As pessoas emocionalmente inteligentes não saem por aí se gabando de seu cérebro privilegiado. Ao contrário, desde crianças aprendem que os rios só correm para o mar porque este, sabiamente, se coloca abaixo deles. Os emocionalmente inteligentes não se deixam inflar por elogios, mas, como todos os humanos, anseiam pelo aplauso e pela aprovação das pessoas. São, porém, inteligentes o suficiente para não alienar sua auto-estima aos sentimentos fugazes que os demais possam vir a ter. Preferem contar com a sua intuição, esta, sim, imutável e infalível.O presidente Lula é um exemplo eloqüente de inteligente emocional. Nenhuma circunstância o aflige, nada no mundo é capaz de tirá-lo do sério. E, o mais importante, ele é sinceramente autêntico em suas atitudes. É tarefa impossível pretender classificá-lo ideologicamente. Ele é um mosaico de convicções empíricas. Já testou um sem-número de discursos. Foi deixando para trás os que não lhe traziam dividendos políticos. Na política, como na vida, sempre se mostrou adepto do &#8220;certo é o que dá certo&#8221;, sempre falou o que sua platéia desejava ouvir, sempre soube escolher o bode expiatório mais adequado para cada ocasião. Como presidente, discorre sobre cada assunto o essencial, aquilo que lhe parece o mais conveniente a ressaltar. É sintomático que Lula tenha ojeriza de entrevistas coletivas. Ele só sabe um mínimo sobre tudo. Odiaria arriscar a sua retórica impecável discorrendo sobre temas que pouco ou nada conhece. Ladino, esperto, só se aprofunda sobre um tema quando tem certeza que sua opinião expressa os anseios e as verdades da maioria.Todos os que tentaram decifrar Lula &#8211; ou ao menos antever os seus passos &#8211; acabaram se frustrando. A lógica que o move não segue, nem de longe, os postulados racionais. Aristóteles, por exemplo, o acharia um imbecil. E, no entanto, suas atitudes acabam por se mostrar as mais adequadas na maioria das vezes. Por muito menos outros presidentes foram depostos, renunciaram ou foram impedidos pelo Congresso Nacional. Lula, em seu primeiro mandato, não só enfrentou graves dificuldades, como soube manter o poder e se reelegeu por folgada maioria de votos. Uma explicação importante: quando afirmo que Lula sempre toma as atitudes mais adequadas, não estou me referindo à Nação, mas a ele próprio e à sua carreira. Ele erra pouco, bem abaixo da média. E é por isso que logrou chegar aonde chegou. A inteligência emocional é uma área do conhecimento humano descoberta recentemente e, portanto, os conhecimentos sobre ela ainda são incipientes. Mas um número cada vez maior de especialistas se debruça sobre ela e procura desvendar seus fundamentos. Dentro de meio século, no máximo, a humanidade terá descoberto sobre ela o suficiente para entender seus mecanismos. Somente então, reavaliando o que se sabe sobre os grandes gênios, poderemos antecipar os seus comportamentos e entender os complexos mecanismos mentais que os levam a agir da forma insólita como agem. Até hoje, o que se pode afirmar é que os inteligentes emocionais logram alcançar resultados muito mais brilhantes que seus adversários. Eles próprios não sabem exatamente a que atribuir, especificamente, seu alto índice de acertos ante as circunstâncias que a vida lhes proporciona. Alguns se sentem escolhidos, não são poucos os que se socorrem do misticismo. Mas, se há algo em comum entre eles, é a inabalável autoconfiança, a fé que depositam em seus próprios julgamentos e, principalmente, o senso de predestinação.Lula é um predestinado. Ou, pelo menos, acredita que é. Não é um louco. É, isso sim, um brilhante psiquiatra de muitos milhões de loucos.</p>
<p><strong>Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 21 de dezembro de 2007.</strong></p>
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		<title>A força moral de um rei</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Jul 2010 13:33:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mellão Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos Antigos]]></category>
		<category><![CDATA[Crise Internacional]]></category>
		<category><![CDATA[Espaço Aberto do Estadão]]></category>

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		<description><![CDATA[O que Hugo Chávez, o ditador da Venezuela, mais adora é participar de controvérsias em eventos internacionais. Isso lhe traz publicidade e, quase sempre, lhe permite roubar o espetáculo. Pois não foi assim que as coisas ocorreram duas semanas atrás, no encontro de cúpula ibero-americano? Quem lhe ordenou que se calasse foi Juan Carlos de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/1233452139Jc2p4h2.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-879" title="1233452139Jc2p4h" src="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/1233452139Jc2p4h2-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>O que Hugo Chávez, o ditador da Venezuela, mais adora é participar de controvérsias em eventos internacionais. Isso lhe traz publicidade e, quase sempre, lhe permite roubar o espetáculo. Pois não foi assim que as coisas ocorreram duas semanas atrás, no encontro de cúpula ibero-americano? Quem lhe ordenou que se calasse foi Juan Carlos de Borbón y Borbón. Chávez não só silenciou como, o que é raro, ficou desconcertado. Explica-se: o que o intimidou, na verdade, foi o fato de ter sido repreendido por ninguém menos que Sua Majestade o rei de Espanha e este possui uma autoridade moral que ninguém ousa desafiar.</p>
<p>Não é a primeira vez que Juan Carlos se vale desse seu poder para resolver situações críticas. E tudo isso só serve para provar que o generalíssimo Francisco Franco, que governou ditatorialmente a Espanha durante 40 anos, agiu com sabedoria ao decidir que seu sucessor deveria ter sangue azul e a monarquia seria restaurada. O que ocorre é o seguinte: existem pelo menos dois movimentos separatistas em território espanhol, o dos catalães e o dos bascos, e o segundo, não raro, recorre às armas em defesa de sua causa. A Catalunha – onde está Barcelona – não chega a esses extremos, mas não abre mão de usar seu próprio idioma e se valer de sua milenar cultura, além de gozar de uma autonomia política e econômica que nenhuma outra nação concede a uma província. A nação espanhola só se mantém coesa porque existe a forte figura de um monarca para representá-la. Franco, mais do que ninguém, sabia disso e, portanto, anos antes de falecer, saiu em busca de um rei com legitimidade suficiente para ocupar o seu lugar.</p>
<p>Haveria de ser um Borbón – a dinastia que desde o ano de 1700 governou a Espanha. Mas não servia um Borbón qualquer. O ungido teria de ser alguém cujo passado fosse exemplar e que tivesse uma inteligência e uma força moral que o distinguissem dos demais. Para tanto Franco fez todos os que estivessem à frente de Juan Carlos na linha sucessória abdicarem de suas pretensões reais, até que seu escolhido se transformasse no herdeiro primeiro da coroa. O processo de depuração da família real durou até 1969, quando, enfim, Franco pôde anunciar o atual rei como seu sucessor. Ainda assim, Juan Carlos só pôde ser coroado em 1975, após a morte do ditador.</p>
<p>A escolha de um monarca para suceder ao franquismo não poderia ter sido mais acertada. Foi a figura do rei, e mais ninguém, que garantiu a passagem da Espanha para a democracia. Ele enfrentou tentativas de golpes de Estado, movimentos separatistas e atentados os mais diversos, com extrema serenidade. Afinal, ostentava uma coroa que pertencia à sua família havia quase três séculos. Sua legitimidade, potencializada por suas atitudes, sempre comedidas, lhe garantiram a pacificação da nação e a imensa prosperidade que se seguiu a ela. O povo espanhol, por índole e convicção, adora a monarquia e Juan Carlos, mais que ninguém, se presta perfeitamente ao seu papel.</p>
<p><strong></strong>Não sou monarquista e jamais ousei defender a restauração do regime monárquico no Brasil. entre outros motivos, porque não vejo na família real dos Orleans e Bragança nenhuma pessoa que pudesse exercer uma ascendência moral inconteste sobre o povo brasileiro. Se essa pessoa existisse, eu bem que poderia mudar de opinião. Um rei é bem mais do que um simples monarca. Ele personifica todos os valores e instituições da nação. E sua autoridade, assim, é incontrastável. Muitos dos problemas políticos – e até mesmo econômicos – seriam facilmente resolvidos se por aqui existisse alguém com tal força moral.</p>
<p>Fala-se que a monarquia é um regime anacrônico, obsoleto. Se for assim, gostaria que alguém me explicasse por que grande parte das nações desenvolvidas do mundo até hoje conserva seus monarcas. Não é, certamente, porque seus povos ainda acreditem no poder supostamente de origem divina da realeza. O mais provável é que a razão seja de ordem pragmática. É preciso, para o bem das instituições democráticas, que, pairando sobre tudo, exista a figura impoluta de um rei, a cuja autoridade moral sempre se pode recorrer em momentos críticos. Além disso, todos os reis são cercados de alguma pompa, fausto e cerimônia. Nada melhor do que isso para representar, de forma condizente, os valores e a força de uma nação. Isso vale para encher os olhos dos estrangeiros, como também para catalisar o patriotismo, as crenças e os valores dos nacionais.</p>
<p>Ser rei, num país moderno, democrático, não é uma profissão fácil. É preciso que o monarca, bem como os demais membros de sua família, estejam sempre dispostos a participar de um sem-número de cerimônias, no país e no exterior. Todos, também, hão de trajar-se e saber comportar-se de forma nobre e austera. Tudo isso sem jamais perder a simpatia. Trata-se, sem dúvida, de um ofício difícil e extenuante, do qual a família real não pode jamais se eximir. Muitos monarcas, nos tempos modernos, firmam contratos com o Estado, nos quais se estabelecem desde as regras de comportamento até mesmo o número anual mínimo de eventos a que os membros da família real devem obrigatoriamente comparecer.</p>
<p>O luxo em que vivem os monarcas não só é necessário, para a solidez das instituições, como também cobra um alto preço, em obrigações e compromissos, da família real. Se um rei – como é o caso de Juan Carlos – é capaz de repreender e colocar em modos ditadores estrangeiros irreverentes, malcriados e amantes de controvérsias, como Chávez, imagina-se o poder moral que pode exercer junto aos seus próprios súditos. Viva o rei! na falta de um nosso, que viva o rei de Espanha, Sua Majestade Juan Carlos Alfonso Víctor María de Borbón y Borbón. Que falta faz alguém com sua estatura em nossa tão maltratada Nação&#8230;</p>
<p><strong>Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 23 de novembro de 2008.</strong></p>
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		<title>A ética agora é roubar</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Jul 2010 13:10:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mellão Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos Antigos]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Lula e o PT]]></category>
		<category><![CDATA[Política Brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[ Quando Fernando Henrique Cardoso, do alto de sua cátedra de sociólogo emérito, declarou, meses atrás, que a ¨ética do PT é roubar¨, não foram poucos os protestos escandalizados que ouviu. Hoje em dia, não haveria mais do que murmúrios envergonhados. Quando a corrupção grassa por toda parte, quando o próprio presidente empresta o seu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/a_tica_dos_canalhas.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-869" title="joaomellao" src="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/07/a_tica_dos_canalhas-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a> Quando Fernando Henrique Cardoso, do alto de sua cátedra de sociólogo emérito, declarou, meses atrás, que a ¨ética do PT é roubar¨, não foram poucos os protestos escandalizados que ouviu. Hoje em dia, não haveria mais do que murmúrios envergonhados. Quando a corrupção grassa por toda parte, quando o próprio presidente empresta o seu prestígio para defender notórios larápios, é para começar a acreditar na cruel sentença do ex-presidente.</p>
<p>Para quem, por dever de ofício (sou jornalista), vem acompanhando com acuidade a história desse partido, a declaração de Fernando Henrique não tinha nada de surpreendente.  Os primeiros petistas, lá pelos inícios dos anos 80, nutriam uma interpretação muito particular do que fosse corrupção. Para eles, tratava-se de um problema menor, que seria automaticamente banido, uma vez implantada a sociedade sem classes. ¨O verdadeiro roubo, na sociedade, se dá entre patrões e proletários: tudo o mais advém disso.¨ Como corolário deste raciocínio, não haveria nada de mais entre burgueses espoliando burgueses (isso é próprio do capitalismo) ou, então, entre pseudo-socialistas extraindo verbas do erário (é um dinheiro expropriado da burguesia para ser usado contra a própria burguesia).  Esse discurso, obviamente, não pegou. Não porque os petistas o considerassem de alguma forma equivocado, mas sim porque, na leitura deles, a sociedade brasileira, em especial a classe média, se arraigava a valores conservadores, tais como honestidade, integridade, austeridade e escrúpulo no trato do dinheiro público.</p>
<p>Após apanharem fragorosamente nas urnas por sucessivas eleições, os petistas decidiram fazer uma releitura de seu discurso. Não daquele básico, de extração marxista, razão de ser do partido, mas sim do discurso voltado para as massas. O PT, ao menos nas palavras,tornou-se um partido pequeno-burguês típico, bradando contra a imoralidade, exigindo cadeia para os corruptos e, paranoicamente, encontrando larápios em potencial até mesmo debaixo dos próprios colchões.  Não havia um pingo de sinceridade nesse discurso. Ele serviu apenas como escada para o PT ganhar as eleições. Tanto isso é verdade que foi abandonado com a maior sem-cerimônia, tão logo Luiz Inácio Lula da Silva galgou as rampas do Palácio do Planalto.  Se não o primeiro, o principal sinal de que as coisas haviam mudado se deu com aquele que ficou conhecido como ¨o escândalo do mensalão¨. Como teria agido um governo minimamente ético naquelas circunstâncias, desde que não tivesse nada a temer? Teria agido de forma determinada, de modo que não pairasse a menor suspeita sobre a sua lisura no episódio, a começar pela demissão sumária de seu então chefe da Casa Civil. O presidente Lula não só se manteve omisso durante todo o episódio como também atestou, por escrito, a idoneidade de Roberto Jefferson e, posteriormente, a do próprio José Dirceu.  Sucessivos escândalos foram vindo à luz e Lula, numa recorrência espantosa, foi sempre dando sinais de inequívoca simpatia pela causa dos acusados. Foi assim no caso do ex-presidente da Câmara dos Deputados e foi assim no caso do ex-presidente do Senado, Renan Calheiros. Lula entregou-se ao requinte de ressuscitar até mesmo os mortos, como tem ocorrido várias vezes, sendo o caso mais recente o do ex-presidente do Senado Jader Barbalho.  Simpatia pelos deserdados de Deus? Duvido. O mais provável é que o presidente e o seu staff entendam que todo esse pessoal não tenha cometido ilícito algum. Ao menos dentro daquela ética &#8211; abandonada provisoriamente, porém jamais esquecida &#8211; do partido desde a sua fundação.  Se for assim, estamos mal. O homem público convencional, quando comete um delito, ao menos tem a exata noção do que fez de errado e por quê. Os petistas, não. Cometem as maiores barbaridades e vão dormir de bem com o travesseiro, porque acreditam que tudo o que fizeram teve uma motivação justa: a ¨causa¨. Se, decerto, nos anos 60 vários de seus atuais membros se dispunham a matar, ou até mesmo a morrer, em benefício dessa maldita ¨causa¨, que mal podem ver, agora, em surrupiar algum dinheiro do erário?   Nesta Nova República delinqüente, a classe média está emparedada. Tradicional reduto dos bons valores republicanos, desta vez ela não tem voz.  Conscientemente ou não, o PT a pinçou com tenazes de aço. Do lado dos pobres, apaziguou-os com a mesada do Bolsa-Família &#8211; mesada, sim, porque se trata de um punhado de dinheiro doado sem contrapartida, erodindo a ética do trabalho. Do lado dos ricos, porque com a política dos juros baixos e o crédito a perder de vista lhes propiciou ganhar mais dinheiro do que em toda a sua vida. A classe média, para variar, ficou bradando no deserto &#8211; quando não falando sozinha. Ela, sem dúvida, vai votar na oposição nas próximas eleições. Mas o que importa? O PT já amealhou votos suficientes para vencê-la com folga. E, para os petistas, isso é crucial. Calcula-se que, entre empregos diretos e indiretos, o Partido dos Trabalhadores (santa ironia!) tenha uns 40 mil parasitas vivendo à custa do governo. O que farão eles no caso de uma derrota?  Ora, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. O atual modelo econômico tem pés de barro. Essa fartura geral e irrestrita não é fruto de uma eventual maestria de Lula, mas reflexo da maior onda de prosperidade que o mundo conheceu desde a 2ª Guerra Mundial.  Retirem essa poderosa escada e o resultado é que ficarão todos ali. Desesperados, pendurados no pincel.</p>
<p><strong>Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 04 de julho de 2008.</strong></p>
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		<title>Índio não quer mais só apito</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Jun 2010 13:30:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mellão Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Antigos]]></category>
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		<description><![CDATA[Já sou velho o suficiente para não me deixar encantar pelas ilusões românticas com que pretendem nos envolver exaustivamente, por intermédio da mídia. Agora mesmo, por exemplo, sou obrigado a tomar conhecimento, pelos jornais, de que a eterna pendenga relativa à reserva indígena Raposa Serra do Sol permanece inconclusa. É isso mesmo: há um novo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/06/indio-bandeira-do-brasil2.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-866" title="indio-bandeira-do-brasil" src="http://www.blogdomellao.com.br/wp-content/uploads/2010/06/indio-bandeira-do-brasil2-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Já sou velho o suficiente para não me deixar encantar pelas ilusões românticas com que pretendem nos envolver exaustivamente, por intermédio da mídia. Agora mesmo, por exemplo, sou obrigado a tomar conhecimento, pelos jornais, de que a eterna pendenga relativa à reserva indígena Raposa Serra do Sol permanece inconclusa. É isso mesmo: há um novo conflito à vista entre índios e arrozeiros nos confins do Estado de Roraima. Não há nada mais tedioso do que esses recorrentes confrontos.</p>
<p>Primeiro, porque Roraima continua um território economicamente irrelevante. Segundo, porque o Estado em questão dista alguns milhares de quilômetros de qualquer centro urbano que nutra a pretensão de vir a ser importante &#8211; alô, presidente Lula, o onipresente Bolsa-Família já chegou àquelas plagas? Terceiro, porque a população indígena, no Brasil, é rarefeita &#8211; quase inexistente -, ao contrário dos indigenistas (destes existe um a cada esquina, todos falando um inglês impecável). E, finalmente, quarto, porque ninguém sabe ao certo a quem cabe a razão nessas desinteligências. O que deu para se apurar, de certo, até o presente momento, é o seguinte: existe, em matéria de índios, duas tendências mais ou menos claras. Uma, a daqueles que defendem a volta pura e simples dos &#8220;selvagens&#8221; à natureza. (Conjugam-se os verbos aqui no futuro do pretérito: ninguém é autoridade inconteste para ditar regras sobre como se daria essa &#8220;volta ao campo&#8221;, da mesma forma que ninguém minimamente sério ousaria garantir que essa gente toda, uma vez de volta à vida campestre, teria um comportamento toleravelmente harmonioso, que é o que se espera de silvícolas de índole rousseauniana.) Na outra margem do rio &#8211; tão belicosos quanto os primeiros &#8211; existem aqueles que acreditam que jamais um índio que tenha tomado contato com os &#8220;civilizados&#8221; reúna condições mínimas para estabelecer um pacto indígena satisfatório. Em comum, as duas tendências só comungam em duas convicções: a de que os &#8220;ex-selvagens&#8221; deveriam ser intransigentemente protegidos pelo governo da União e a de que essa &#8220;proteção&#8221; deveria consumar-se da velha e eficiente forma criada pelos fenícios &#8211; ou seja, por meio do vil metal. Argumentos não faltam a essa briosa gente: o principal deles gira em torno da forma perversa como os indígenas foram apartados da mãe natureza: eles, ao que se sabe, não tiveram escolha. Devem, por conseqüência, ser, agora, devidamente reparados. E não será com um ridículo &#8220;bolsa-esmola&#8221;, não, porque esses passivos seriam milhares de vezes maiores. Entre essas duas correntes, vem ganhando cada vez mais força uma terceira, aparentemente mais conciliadora, que nasceu, ao que se sabe, da própria cabeça dos silvícolas. Tanto faz quem espoliou quem. O que importa é o aqui e agora. O índio brasileiro é perfeitamente capaz de arrancar rumo ao desenvolvimento, desde que lhe sejam garantidas algumas modestas prerrogativas, dentre as quais pontifica o legítimo direito de explorar as suas terras da forma que bem entenderem. Entenda-se, aqui, o monopólio da lavra dos recursos minerais, a livre exploração da floresta, bem como a dos seus frutos. Caso se mostre inviável este aproveitamento, os índios seriam figuras jurídicas aptas a subcontratar empresas que o façam. Esta fórmula claudica pelo fato de que as terras ditas indígenas representam nada menos do que 15% do território nacional, o que, na prática, inverte a equação: pobres e desvalidos passariam a ser os chamados &#8220;brancos&#8221;, que nem sonham em gozar de tais prerrogativas. Os &#8220;brancos&#8221;, na prática, são a gata borralheira da história. Não possuindo tais privilégios extrativistas e contando apenas com a sua disposição para o trabalho, tudo o que mais desejam é a garantia de terras para trabalhar. Ser índio, no Brasil, revela-se, assim, um bom negócio. Embora correndo o risco de parecer &#8220;politicamente incorreto&#8221;, não me poderia omitir quanto às minhas simpatias pelos pleitos e aspirações das causas dos &#8220;brancos&#8221;. Só não vê quem não quer: os indígenas, na prática, já usufruem as prerrogativas que pleiteiam no papel. Com a vantagem adicional de estarem permanentemente em foco na imprensa internacional e contarem com a incondicional simpatia desta. Todos os dias, na mídia, encontram-se notícias de extravagâncias realizadas pelos herdeiros de Peri, tais como fretamento de jatos executivos, aluguel de andares inteiros nos hotéis das maiores cidades e dispêndio de fortunas com a contratação dos serviços profissionais de competentes rameiras (índio também gosta disso). Por outro lado, não se ouve falar de gastos nababescos realizados pelos espartanos &#8220;brancos&#8221;. Parece que o dinheiro é curto na seara dos &#8220;caras-pálidas&#8221;. E parece que nascer índio é realmente um excelente negócio no Brasil, somente suplantado pela condição de viver como índio. Consta que os &#8220;brancos&#8221;, quando morrem, não sonham com paraísos. Tudo o que almejam é, nas próximas encarnações, voltar para o mundo como legítimos indígenas. Não sou adepto da escola dos &#8220;politicamente corretos&#8221; e tampouco rezo pelo catecismo do clero progressista. Não tenho, portanto, obrigações com corrente ideológica alguma. É por essas razões que não tenho nenhum constrangimento em manifestar a minha simpatia irrestrita pela causa dos &#8220;brancos&#8221;. Eles só querem trabalhar. Meu Deus, será que, em tempos petistas, até isso virou pecado?</p>
<p><strong>Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 29 de agosto de 2008.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
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