Para aqueles que não conseguem entender qual é a lógica que preside as aparentemente tresloucadas opções de Lula no que tange à política exterior vai aqui uma pequena colaboração. Continue Lendo..
Arquivo da categoria ‘Política Brasileira’
Por que a nossa política externa é assim
O que representa o civismo
“A Justiça só é justa quando alcançada por meios justos.” Essa palavra de ordem eu conheci com o Guilherme Afif, durante a sua heroica campanha à Presidência da República em 1989 – primeiro pleito democrático de tal porte depois de três décadas. Foi por meio dele também que entendi (eu e o então garoto Gilberto Kassab) que a política não é, necessariamente, a mais vil das profissões. Ela pode ser também a mais nobre das artes. E a humanidade precisa que ela seja assim.
Eu, é forçoso reconhecer, estou ficando velho – “maduro”, numa definição mais precisa. Queira ou não, sou um político identificado pelos jovens como “do século 20″. Infelizmente é verdade. Aprendi a lidar com a informática e com a internet nos seus primórdios. Dominava tudo nessas duas áreas, mas estacionei no fim do século passado. Word, Excel, e-mail, tudo isso é comigo mesmo. Agora Twitter, Facebook e as demais redes sociais só consigo operar com a assessoria de profissionais qualificados: jovens que me “concedem” aulas, empertigados.
Cabe aí a pergunta: Será que nós, “políticos do século 20″, ainda somos de alguma utilidade? Eu ouso afirmar que sim. Somos nós, ainda, os guardiães dos “valores permanentes”. O que são eles? Coisas assim como virtude, coerência, palavra e honra – que recebemos de nossos avós com a condição de transmitirmos para os nossos netos.
Dia desses eu juntei a família e declarei: – Meus filhos, eu já ocupei quase todo tipo de cargo em minha vida pública, como jornalista, administrador e parlamentar, e posso hoje afirmar que as únicas personalidades políticas que me impressionaram foram aquelas que demonstraram ter as vistas postas além do horizonte próximo. Isso é o que se pode chamar de civismo. Essas pessoas punham os seus ideais além de suas conveniências políticas imediatas e – exatamente por isso – muitas vezes foram incompreendidas pelas grandes massas. Paciência! Nem por isso deixaram de lado os seus sonhos e se tornaram impenitentes velhacos e adeptos do farisaísmo e da hipocrisia, como parece ser praxe no mundo político. Muitos ainda lograram colher em vida os frutos de sua coerência. Outros, não, o que valida a máxima cristã (Sermão da Montanha) de que “Deus faz chover da mesma forma sobre justos e injustos”.
Voltando ao tema principal, eu declarei solenemente aos meus filhos que sempre estaria ao lado de gente com tais virtudes, porque eles pertencem a um tipo especial de políticos que “pensa grande”. E eu, particularmente, tenho especial fascínio por pessoas assim.
“Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”, repetia para mim sempre, parafraseando Fernando Pessoa, durante uma campanha presidencial – aquela de 1989 – em que todos nós sabíamos não ter chances reais de vitória. Essas palavras caíam fortes em mim em especial: um ano antes, em 1988, eu havia sido candidato a prefeito de São Paulo pelo PL, um partido então minúsculo, porém dotado de uma doutrina e de uma conduta coerentes e consistentes. E também jamais tivera chances mínimas de vitória.
Pois bem, lá se vai metade do artigo e eu ainda nem sequer esbocei a minha mensagem principal.
Lá vai. O que quero dizer é que, por já conhecer a política e os seus personagens o suficiente, eu aprendi a dar valor apenas àqueles homens que se dispõem a, na vida pública, acrescentar alguma coisa: valores, principalmente.
Em outras palavras: eu prefiro os homens públicos que sempre atiram para cima, mesmo sob o risco de errar, do que aqueles que costumam atirar para baixo, porque julgam que assim é mais fácil de acertar.
A sabedoria antiga já rezava: quando no deserto, guie-se sempre pelos astros mais brilhantes. Você jamais haverá de alcançá-los – não se iluda -, mas é seguindo-os que você alcançará o seu destino.
Eu, dessa forma, tenho especial admiração pelos homens que pretendem deixar nessa vida alguma marca de si. São eles – e unicamente eles – aqueles que conseguem fazer alguma diferença.
O agora ex-governador de São Paulo José Serra se lança candidato à Presidência da República, buscando realizar aquele que sempre foi o seu maior sonho.
Aprecio muito o Serra. Eu o conheço relativamente bem há mais de três décadas. Mais especificamente desde a heroica primeira candidatura do então professor Fernando Henrique Cardoso ao Senado, por São Paulo, em 1978, numa sublegenda do então MDB. O candidato vencedor, então, foi o Franco Montoro.
José Serra, após 1964, aproveitou para graduar-se em Ciências Econômicas no Chile e nos Estados Unidos e pretendia se candidatar naquela eleição a deputado federal. A legislação da época não permitiu e, assim, ele contentou-se em ser, como eu, um cabo eleitoral de FHC. Sorte minha. Tive assim a oportunidade de vir a conhecer razoavelmente bem alguém que o próprio Fernando Henrique me confidenciara, então, ser um dos mais preparados de seus quadros.
José Serra adotou como um dos principais temas de sua campanha a ética. Difícil escolha essa. Valores éticos não são dos mais fáceis ou atraentes temas eleitorais. Essa é uma das razões pelas quais eu tenho orgulho em empunhar essa bandeira.
Talvez seja exatamente nisso que nós, os “antigos”, nos comungamos com os mais jovens: todos nós entendemos que de nada adianta acenar ao povo com privilégios ou benesses se não se garante a ele aquilo que é o mais básico, a decência.
Essa bandeira é, de todas, a mais gloriosa. Há mais de 2 mil anos se sabe que os corações não são conquistados pela força das armas, mas sim pela grandeza da alma. Continue Lendo..
Quem vai ser presidente?
Estou começando a achar que eu dou azar. Na primeira vez, por volta de um ano atrás, que critiquei neste Espaço Aberto a dona Dilma Rousseff, candidata do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República, ela, segundo as pesquisas, contava com apenas 3% da preferência popular. Também não era para menos. Se Nosso Senhor a investiu de grandes predicados – como assevera o presidente Luiz Inácio Lula da Silva–, com certeza foi mais frugal nos encantos.
Passaram-se alguns meses e eis que dona Dilma abriu mão de algumas de suas arraigadas convicções feministas – em especial, aquela que prega que os cuidados de beleza femininos representariam uma subserviente e inaceitável concessão ao machismo.
Dona Dilma é surpreendente. Eis que, num certo dia, ela literalmente se transformou. Não chegou a ficar por assim dizer, exatamente bela, é verdade, mas aproximou-se o possível disso: emagreceu visivelmente, passou por um “extreme makeover”, notadamente no rosto, trocou os pesados óculos por lentes de contato, mudou o penteado – agora com o cabelo mais curto e tingido – e se apresentou, leve e brejeira, trajando roupas mais modernas, joviais e descontraídas. Deixou de parecer a vovó irascível que ninguém gostaria de ter. Passou a aparentar mais, digamos, algo como uma tia mais velha… que todos tolerariam possuir. Mas o mais importante é que, pela primeira vez desde que apareceu na vida pública, ela finalmente se dispôs a sorrir. No início, com uma certa dificuldade – afinal, passava a acionar músculos faciais que anteriormente jamais saíam da posição de repouso. Depois tomou gosto pela coisa: hoje ela se entrega a generosas risadas até mesmo quando recebe notícias tristes.
Dona Dilma é uma mulher que tem método, autodisciplina e obstinação. São qualidades essenciais para uma eficiente guerrilheira; são também atributos que ela entende como indispensáveis a uma pleiteante à Presidência do País.
O fato é que Dona Dilma, antes sempre gelada, austera e reservada, de repente mudou. Hoje, esforçadamente, ela se mistura no meio da massa popular, troca beijos, cumprimenta várias vezes as mesmas pessoas e há quem jure que a viu abraçar até poste…
“Tudo pelo povo, tudo para o povo – mas precisa ser tudo com o povo?”, certamente há de pensar consigo mesma. “Paciência. Depois de eleita mando cercar o palácio com o fosso de jacarés… “, talvez pondere.
Pois essa é a nova Dona Dilma – que, se eleita, previsivelmente há de implantar no Brasil um governo esquerdista de cunho populista e autoritário.
Para enfrentá-la já se apresentaram a verde Marina da Silva, o incansável Ciro Gomes e o ex-mal humorado José Serra.
É praticamente impossível antecipar o que acontecerá durante uma campanha política presidencial.
Mal comparando, trata-se de um evento que guarda alguma semelhança com uma corrida de Fórmula 1. Os concorrentes são todos extremamente talentosos e bem preparados; suas equipes são compostas pelos melhores e mais experimentados especialistas do ramo. Recursos não faltam para incrementar o desempenho. Tudo é minuciosamente visto e revisto para que não ocorra nenhuma surpresa desagradável depois que for dada a largada. Os disputantes sabem, de antemão, que qualquer erro ou falha poderá ser fatal. E para que tal não ocorra, assistem vídeos para avaliar os acertos e erros dos demais concorrentes.
Ninguém pode falhar. Uma frase ou expressão infeliz ou mal colocada será, com certeza enfatizada e explorada pelos adversários e tem potencial, no limite, de inviabilizar uma promissora candidatura.
Quais são os prognósticos? Isso é mais difícil do que fazer previsões meteorológicas.
Com base nos resultados das eleições presidenciais anteriores, levando-se em conta a extraordinária popularidade alcançada pelo presidente Lula, computando a seu favor os programas sociais de grande apelo eleitoral – como é o caso do Bolsa-Família- e também as habilidades e limitações de cada um dos candidatos, pode-se prever- ceteris paribus – o seguinte:
Se concorrerem, Marina Silva e Ciro Gomes alcançarão no máximo, 10% dos votos cada um. Marina tira votos que seriam destinados a Dilma Rousseff e Ciro desvia votos que seriam, preferencialmente, de José Serra.
Se haverá segundo turno ou não, isso vai depender da continuação, na disputa, dos dois candidatos citados.
José Serra terá, com certeza, votação maior do que a de Dilma nos Estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás e Santa Catarina. Dilma, é certo, será mais votada do que Serra em todos os estados das regiões Norte e Nordeste e na maior parte da Centro-Oeste.
Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro deverão ficar com Dilma; Minas Gerais e Espírito Santo representam as incógnitas do processo. Se Aécio Neves não for constrangido pelo PSDB a ser candidato a vice-presidente na chapa de Serra, o mais provável é que deixe a campanha presidencial correr, em Minas, espontaneamente. Suas maiores preocupações, no momento são eleger-se senador com votação inédita e eleger o seu atua vice, Antonio Augusto Anastasia, como governador mineiro.
Aécio mantém boas relações tanto com o tucanato como com Lula, Dilma e o PT. Aos 50 anos de idade, ainda lhe restam, teoricamente, 20 anos para poder disputar a presidência com chances. Porque haveria de botar todo esse cacife a perder agora? Por amor a Serra? É improvável…
É assim que se apresentam os candidatos, agora. Boa sorte para o Brasil. Continue Lendo..
O Brasil tem jeito
Artigo publicado em abril de 1988 no jornal “O Estado de São Paulo”
“Quando a floresta pegou fogo, todos os animais, com exceção do beija-flor, fugiram. Este, desesperado, fazia sucessivas viagens até o córrego, onde enchia o bico de água para depois despejá-la sobre o fogo. Frente à gozação dos demais bichos, argumentou:
- Pode ser que não funcione, mas pelo menos eu estou fazendo a minha parte…” (Fábula popular). Continue Lendo..
A cultura da cédula falsa
Uma tradição largamente arraigada no Brasil é a anedota de português. São milhares de casos, alguns até verídicos, em que nossos patrícios são apresentados na desairosa condição de burros. Um alto oficial da Aeronáutica contou-me um deles, ocorrido em Lisboa, com um de seus comandados. O major brasileiro quebrou o salto de sua bota e o levou a uma sapataria. “_ Troque os saltos”, ordenou o diligente sapateiro. Na semana seguinte, ao voltar ao local, teve a desagradável surpresa de saber que o profissional havia cumprido a sua ordem ao pé da letra: trocara os saltos, o da bota esquerda pelo da direita e vice-versa. De nada adiantou discutir. “- Trocaire é isto. Tu devias ter pedido para substituire!” Continue Lendo..
Por que ela?
O caso Bancoop – a Cooperativa Habitacional dos Bancários, de onde, segundo o Ministério Público, teriam sido desviados recursos para ajudar a financiar as campanhas do PT – é mais um que vem à tona sob o mesmo tema. Digo “mais um” porque não é o primeiro nem, certamente, haverá de ser o último. Este, em teoria, é mais inaceitável porque não extraiu dinheiro do detestável “Estado burguês”, mas dos próprios “proletários” – as famílias filiadas à cooperativa que investiram os seus sofridos recursos na vã intenção de virem a possuir a casa própria. Continue Lendo..
Prezada dona Dilma
Tempos atrás, aqui mesmo, neste Espaço Aberto, comparei a senhora, com as ideias antiquadas que defende, a um DKW – aquele automóvel que foi fabricado no Brasil no início da década de 1960. Recebi numerosos e-mails reclamando que eu estava sendo injusto. Injusto com o DKW. Pois é. O carro deixou uma boa impressão, o que – perdoe-me o mau jeito – parece muito não ser o seu caso. Estive vasculhando as minhas memórias e constatei que o DKW é muito moderno para a senhora. A comparação adequada seria com um Ford 1929. E, ao afirmar isso, espero que ninguém reclame do fato de eu estar cometendo outra injustiça.
É Ford 1929, mesmo. Foi naquela época em que ele estava sendo fabricado que um sujeito chamado Benito Mussolini fazia sucesso com o lema: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.” Joseph Stalin e outros contemporâneos também não pensavam muito diferente disso. Poderíamos agraciar cada um deles com um Ford da época. Ou com uma Mercedes-Benz 770. A senhora sabia que esses personagens históricos já defendiam a ideia de um “Estado forte” – que é o cerne de sua plataforma política – naqueles tempos?
Li, se não me, engano, na revista Veja, que o bordão que o Duda Mendonça apresentou para a sua campanha eleitoral é baseado naquela música do Zeca Pagodinho: “Deixa a Dilma me levar; Dilma leva eu…” Com todo o respeito, dona Dilma, levar para onde? Dá calafrios só de pensar.
Por falar em Duda Mendonça, cabe a pergunta: vocês o reabilitaram? Vão pagar a campanha com dólares depositados nas Bahamas, como ele gosta? Isso é proibido, dona Dilma. A senhora sabia?
Li, creio que na mesma revista, que quem está articulando a sua campanha nos diversos Estados é ninguém menos que José Dirceu. É, ele mesmo. Ele já foi ministro-chefe da Casa Civil, o mesmo cargo que a senhora ocupa. Também foi reabilitado? E aquela história do “mensalão” como é que fica? Segundo a malvada da imprensa, ele era o grande articulador do esquema. Deixa pra lá. Isso também deve ser “intriga da oposição”, não é verdade? Continue Lendo..
Conselhos úteis ao meu filho
Meu filho do meio, o Ricardo, hoje com 22 anos e prestes a se formar em Direito, me manifestou o seu desejo de seguir a carreira política. Quanto ao País, tudo bem. Ele tem uma sólida formação moral, ideais e princípios bem definidos e uma cultura humanística bem superior à média, para a sua idade. Mas, perguntei-lhe, desde quando política pode ser definida como uma carreira?
Há maneiras diversas de se chegar a ela. Muitos logram galgar cargos eletivos porque, por algum motivo, conquistaram respeito e prestígio em suas comunidades. Começam como vereadores, têm desempenho destacado, e logo são levados a disputar a prefeitura de sua cidade ou um mandato de deputado estadual ou federal. Outros se elegem em função da mídia, por nela, graças ao seu talento comunicativo, se tornarem conhecidos e admirados o suficiente para amealhar um número de votos suficiente para aspirar a uma candidatura. Há aqueles que se elegem por serem parentes ou afilhados de algum político famoso, que lhes transfere parte de seus votos. E há, também, aqueles que, sendo abastados, se dispõem a despender fortunas em busca de um mandato que, uma vez obtido, lhes trará prestígio e consideração por parte da sociedade. Quais deles saberão se comportar da forma mais digna, de modo a honrar o mandato que os eleitores lhe outorgaram? É difícil dizer.
Carlos Lacerda, num de seus livros, distinguiu os políticos mesquinhos, tacanhos, daqueles realmente dotados de grandeza. Os pequenos, observava ele, são os que vêem no poder – e na pompa de que ele é revestido – apenas uma forma de exaltar o seu amor-próprio. Deixam-se levar pelos áulicos, extasiam-se com as reverências que lhes são dedicadas, aproveitam-se do posto para ajudar os amigos e espicaçar os desafetos e jamais vêm a entender o quanto poderiam ter-se valido do cargo para promover mudanças realmente proveitosas para a sociedade. Os miúdos simplesmente são varridos pelos ventos da História. São merecidamente esquecidos porque, na verdade, nada fizeram de monta para que viessem a ser lembrados. Ao contrário do que parece, o exercício do poder, tão sonhado e almejado, não os satisfaz. Em pouco tempo as tropas perfiladas e o rufar dos tambores acabam por se tornar rotineiros, não mais entusiasmam, e o que resta ao governante são os problemas e as dificuldades, que parecem multiplicar-se à medida que o tempo passa.
Já no caso dos autênticos estadistas, daqueles raros homens de fato dotados da virtude da grandeza, o poder não é desejado apenas como um fim em si, mas sim como uma preciosa e indispensável ferramenta para aperfeiçoar a sociedade. Com ou sem conotações místicas, todos eles se sentem predestinados (e já li centenas de biografias). Julgam-se dotados de uma missão cuja importância é maior que a deles próprios. As honrarias que lhes são dirigidas não os comovem, só amplificam o seu senso de responsabilidade. A que vieram, por que vieram são questões existenciais que os atormentam diuturnamente. E, uma vez escolhidos, dedicam ao posto o melhor de si e de seus sentimentos.
Ricardo, meu filho, que tipo de político você pretende ser? Pequenos e menores já existem de sobra. A sociedade não carece deles. Mesmo que lhe faltem as virtudes necessárias para ser um Churchill ou um De Gaulle, procure pensar e se comportar como se fosse um deles. Mais do que tudo, as pessoas carecem de referências, de exemplos. A grandeza contagia. Não só os que lhe estão próximos, mas também o próprio intérprete que se dispõe a praticá-la. Pense como os grandes e, em breve, você será um deles.
Não tema jamais, meu filho, o veredicto das urnas. A vitória, quando conseguida, fala por si. Já as derrotas, por mais amargas que sejam, trazem consigo importantes e imprescindíveis lições. Elas nos impõem, sobretudo, a humildade. Nunca fuja do bom combate. Ele sempre engrandece a todos, vencedores e vencidos.
Tenha sempre em mente, Ricardo, que política não é profissão. Dedique-se aos estudos com afinco. Não se contente, apenas, em ser um bom advogado. Busque ser o melhor, dentro das suas circunstâncias, aptidões e limitações. Somente assim você conquistará o apreço e o respeito de seus pares. E isso, por si só, já representa meio caminho andado. A fortuna abençoa e protege os bravos. Seja um deles e o universo, com certeza, conspirará a seu favor. Ninguém, é certo, confiará em você e em suas idéias, se você mesmo não demonstrar, de forma cabal, que também acredita.
Mais do que dinheiro, renome ou simpatizantes, o meu legado a você é a minha sagrada e sincera bênção e a virtude, duramente conquistada em mais de duas décadas de vida pública, de nunca, jamais, ter o meu nome conspurcado por qualquer suspeita de envolvimento em negócios escusos. Escrevi isto num artigo em honra a meu pai, falecido há quase 20 anos: “Ele era justo e bom; digno e honrado. Abençoado é aquele a quem Deus permite apor esses quatro adjetivos ao seu epitáfio.”
Seja assim, meu filho. Seu caráter, na vida pública, será, sem dúvida, o seu maior patrimônio. Será o único bem que, em qualquer circunstância, ninguém logrará tirar de você. Seja correto, meu filho, e, ganhando ou perdendo, eu sempre terei orgulho de você.
Quando, em palestra numa Faculdade de Direito, perguntaram a Abraham Lincoln se era possível, como advogados, serem políticos honestos, ele, sem pensar, respondeu: “Se vocês acham que não, tratem de ser honestos sem se atreverem a ser políticos…”
O que tenho a lhe dizer, meu filho, no fundo, é isso.
Seus ideais, Ricardo, serão para você como as estrelas. Você nunca poderá alcançá-las. Mas é orientando-se por elas que você, mais cedo ou mais tarde, haverá de chegar ao seu destino. Continue Lendo..
A revanche
Lá por meados da década de 1970 eu era universitário e nós, estudantes, tínhamos certeza que o governo militar estava caindo, de modo que nossos debates se davam a respeito de que governo viria a suceder àquele. Havia várias correntes de pensamento, todas elas marxistas, que pregavam desde o socialismo light até o comunismo da linha dura maoista. Por que não a social-democracia? Porque, segundo se dizia, esse tipo de sistema de governo era um embuste criado como forma de adiar o advento da Grande Revolução. A burguesia era culpada de tudo. E não nos dávamos conta é de que nós éramos todos burgueses também. Pequenos burgueses, o que era pior.
Ernesto Geisel, no colégio eleitoral, havia vencido Ulysses Guimarães, que se declarara “anticandidato”.
O que nós achávamos de tudo isso? Nada. Tratava-se de algo que não nos dizia respeito. Geisel ou Ulysses, ambos nos pareciam ser farinha do mesmo saco. O jogo político, no nosso pensamento, era outro. Ele não se travava nas urnas, mas sim nas ruas, onde se digladiavam, ferozmente, as diversas facções do pensamento de esquerda. Extrema esquerda, diga-se.
É de conveniência relembrar tudo isso para destacar que, curiosamente, não existia nenhuma corrente de pensamento, ao menos nos meios acadêmicos, que tivesse como bandeira a redemocratização.
Cada uma das alas do movimento estudantil, por sua vez, estava conectada a uma congênere, no mundo lá fora. Todos sabiam que o grupo x respondia ao MR-8, que o grupo y tinha laços estreitos com o PC do B, e assim por diante. No frigir dos ovos, diga-se a verdade, a situação era intelectualmente cômoda para os dois lados. Nos quartéis tinha-se como verdade o fato de que a sociedade brasileira era como um imenso caldeirão fervente: se fosse destampado, explodiria. As esquerdas, por sua vez, acreditavam no mesmo: a caldeira estava prestes a explodir. E, convictos todos disso, nada, na verdade, acontecia.
Na área sindical, sempre tomada pelos pelegos, começava a surgir algo de novo e inédito. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, tido como a elite do proletariado brasileiro, elegeu uma nova diretoria e a impressão que dava era de que essa era autêntica: não faria, como sempre, o jogo dos patrões. O novo presidente do sindicato era um nordestino agitado e falante. O Brasil ainda ouviria muito falar dele: seu nome era Luiz Inácio da Silva, mais conhecido como Lula.
Uma de suas primeiras providências, para desapontamento geral, foi comunicar aos ideólogos que a presença deles não era bem-vinda. Segundo afirmou, intelectual e estudante “só serviam para atrapalhar”. Alguns poucos anos depois, quando foi fundado o Partido dos Trabalhadores, ele viria a descobrir uma utilidade para “aquele tipo esquisito de gente”: eles eram excelentes para organizar protestos e manifestações públicas e estavam sempre dispostos a tomar a frente dos movimentos. Eram os primeiros a tomar cacetada da polícia.
Alguns anos antes, todos nós sabíamos, os intelectuais e estudantes haviam tomado outro rumo, bem mais perigoso: organizaram-se em células e partiram para o confronto armado com as forças da situação.
Muitos dos que adotaram essa opção viriam mais tarde, recentemente, a posar de mártires da luta pela volta da democracia no Brasil. Eis um dado controverso: até onde se sabe, eles não lutavam pela redemocratização. Essa hipótese nem lhes passava pela cabeça. O que pregavam, de fato, era a troca de uma “ditadura de direita” por uma “ditadura de esquerda”, que se prenunciava tão ou mais feroz do que a então existente.
Tenho reparado que essa brava gente está de volta, cerrando fileiras em torno de um canhestro “Programa Nacional de Direitos Humanos – versão 3″. Estão brincando com pólvora: entre numerosas outras propostas, eles defendem a revogação unilateral da Lei da Anistia. Continue Lendo..
Decifrando Lula
O presidente Lula, segundo as últimas pesquisas, conta com a aprovação de mais de 60% do eleitorado brasileiro. Esse extraordinário apoio popular, somado à folgada maioria que o governo tem no Congresso, faz muitos alcoviteiros, no Palácio do Planalto, começarem a cogitar da hipótese de sua reeleição. Para tanto basta enviar uma proposta de emenda constitucional ao Parlamento – que não tenho dúvidas de que seria aprovada – e deixar que as urnas façam o resto. Isso é péssimo para a democracia. Até mesmo no período autoritário, os militares cuidaram religiosamente de manter o rodízio no poder.
Por ocasião do 1º de Maio, quando as duas maiores centrais sindicais promoveram atos de apoio ao governo, eu escrevi aqui que, entre outras coisas, o fenômeno representava o início do fim da democracia liberal em nosso país. Democracias fortes não podem prescindir de oposições fortes. Quando estas deixam de existir, está aberto o caminho para governos autoritários. Continue Lendo..



