Há pouco mais de dois anos, um renomado autor de novelas globais declarou em uma entrevista à revista Veja que, segundo as diversas pesquisas que tinha em mãos, podia afirmar que estava ocorrendo certo relaxamento moral na consciência do brasileiro médio. As pessoas, dizia ele, já não condenavam certas atitudes totalmente antiéticas, por parte dos personagens das suas tramas, desde que agir dessa forma fosse essencial para que atingissem os seus objetivos. Na época ninguém deu a atenção devida a esse abalizado sinal de alerta dado pelo noveleiro. Eu, pessoalmente, confesso que fiquei bastante preocupado. Continue Lendo..
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Sou, mesmo, um pequeno burguês
A nossa gloriosa insignificância
O Brasil é um país quase perfeito. Temos um território continental, grande parte dele de terras agricultáveis, estamos isentos de desastres naturais de grande monta (terremotos, furacões, neve), nosso clima, em geral, é ameno e nosso povo, segundo pesquisas, é o mais otimista do mundo. Não há nada, enfim, que justifique a baixa auto-estima dos brasileiros. Talvez seja por isso mesmo. A têmpera do nosso povo nunca foi testada, nem por guerras, nem por privações. Não tivemos ainda a oportunidade de provar ao mundo a nossa tenacidade. Em países de clima frio, não se brinca em serviço. Há que produzir de sol a sol, no verão, sob pena de se passar fome no inverno. Mesmo o nosso sentimento de Pátria – pelo qual outros povos oferecem a vida – é tênue e moderado. Nós nos unimos para torcer pela seleção brasileira e é praticamente só isso. Terminado o jogo, cada um enrola a sua bandeira e adeus ao sentimento de unidade nacional.
Um velho político norte-americano disse certa vez que os aços de melhor têmpera são forjados sob o fogo mais forte. Se é assim, vai ver que o nosso fogo é morno. Ninguém, na verdade, está disposto a oferecer a própria vida no altar da Pátria; ninguém, na verdade, está disposto a abrir mão de nada, quando a Nação corre perigo.
Alexis de Tocqueville, um membro da pequena nobreza da França, viajou à América logo nos primórdios daquela civilização. Dotado de um agudo senso de observação, ele notou nos norte-americanos um sentimento quase paradoxal no que diz respeito a civismo: “Os americanos são o povo mais egoísta e individualista do mundo. Cada um cuida de si e a solidariedade praticamente inexiste. Mas bastou que a comunidade corresse algum perigo, que todos se uniram, e cada um não se furta a cumprir a sua parte, por mais sacrifício que isso implique.” Individualismo mais comunitarismo: esse inédito arranjo social norte-americano, segundo Tocqueville, era responsável pela grandeza e pela força da América. “Nós, latinos, nos derramamos em palavras bem-intencionadas, mas, na verdade, não estamos dispostos a ceder em nada”, concluiu.
As diferenças ente os povos latinos e os de origem anglo-saxônica não param por aí. Um amigo meu, levado pela profissão a freqüentar com assiduidade os Estados Unidos, observa que não há nada mais diferente, culturalmente, que um norte-americano e um brasileiro. E quem não atentar para isso está fadado a se dar mal na América. O sistema de crenças e convicções dos americanos é substancialmente diferente do nosso, bem como os seus valores. O primeiro contraste já se mostra na atitude de ambos perante a lei. Os americanos acreditam que suas leis têm uma origem transcendental, emanadas que são dos founding fathers – um congresso de iluminados que redigiu a Constituição. No Brasil a lei… Ora, a lei… Ninguém sabe quem escreveu, para que e com qual objetivo.
Na América é comum grandes astros do show business, quando cometem infrações, serem condenados a penas severas, mais do que seriam caso se tratasse de cidadãos comuns. É o contrário do Brasil, onde os ricos e famosos gozam de um sem-número de privilégios legais. Quem explica esse paradoxo é um juiz norte-americano, em entrevista a uma revista: “As celebridades devem pagar mais caro justamente porque são celebridades. Elas servem de exemplo para os cidadãos comuns. Devem ser punidas com rigor para demonstrar que aqui, na Pátria da Liberdade, a lei paira acima de todos.”
Outra característica marcante dos americanos é a de que o povo, lá, não mente. Ou, pelo menos, mente muitos menos do que nós, os latinos. Muito brasileiro se dá mal na América porque teima em transplantar os seus hábitos e costumes para lá.
Para se concluir um negócio nos Estados Unidos quase não são necessários papéis e documentos. Isso induz muitos espertalhões brasileiros a tentarem forjar títulos e falsificar atestados. Não raro acabam na cadeia. A cultura vigente nos Estados Unidos é a da “presunção da boa-fé”, ou seja, todo mundo é inocente até que se prove a culpa. Mas, uma vez provada esta, a lei não tem a menor clemência.
Enfim, estas são as diferenças básicas entre brasileiros e americanos. São eles os certos ou, então, seremos nós?
No Brasil, herança ibérica, talvez, sempre imperou a cultura do privilégio em detrimento da do mérito. Ninguém respeita sequer as filas de cinema. E autoridade é alguém fardado destinado a ser subornado.
A cultura americana tem, mais ou menos, a idade da brasileira. Nesses poucos séculos, eles lograram fazer da América uma nação. Nós outros a única coisa que soubemos fazer bem foi amaldiçoar os gringos, atribuindo-lhes todas as agruras por que passamos. Eles são os grandes culpados pela nossa pobreza, pela nossa estagnação e pela nossa falta de progresso. Esse fenômeno, aliás, não é típico do Brasil. A América Latina inteira, com raras exceções, tem como esporte favorito falar mal dos americanos. Enquanto desopilamos nosso fígado crucificando a América, o fato é que eles, os gringos, estão cada vez mais ricos e nós, cada vez mais pobres.
Que ninguém se iluda quanto à suposta importância que nós temos para eles. Dia destes, foi perguntado ao candidato democrata a presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, numa entrevista, o que ele achava do Brasil. Silêncio sepulcral. Ele não achava nada. Talvez nem soubesse a localização do País. Foi salvo por um providencial assessor que tratou logo de mudar de assunto. Nada mais normal. Se nós, brasileiros, não sabemos a localização da Zâmbia, por que Obama saberia algo do Brasil? A América Latina só é importante nos discursos de Hugo Chávez. Continue Lendo..
Corrupção é só conversa de burguês?
É mais útil ter uma visão histórica de que uma visão histérica dos problemas. E o problema que mais tem afligido a opinião pública é a onda de corrupção que tomou conta da nossa política. Continue Lendo..
Não é fácil ser Obama
Meio século atrás, em certa cidadezinha do sertão de Minas, surgiu um sujeito bem apessoado, de barbas e cabelos longos, que afirmava ser ninguém menos do que Jesus Cristo. Tanto e com tal veemência ele insistiu que o povo da cidade começou a se amoldar à circunstância de ter, entre si, o Filho de Deus. Logo surgiram um Pôncio Pilatos, uma Madalena arrependida, 12 apóstolos, centuriões romanos e todos os personagens necessários para levar à frente a Paixão de Cristo. O sujeito foi preso e julgado. Foi devidamente condenado a morrer na cruz. Iniciou-se, então, a via crúcis. Tudo corria de modo impecável até que o tal do messias sertanejo, no momento de ser pregado na cruz, cochichou no ouvido de um dos soldados que iria até a moita mais próxima se aliviar. Foi, sumiu e nunca mais deu as caras por ali. Escafedeu-se. Tratou de dar no pé e, assim, salvar a própria pele. Continue Lendo..
A Velhinha e o Escoteiro
“Burocratas, no serviço público, são como livros em estantes: quanto mais alto estão, menor serventia têm.” Continue Lendo..
Peru à Brasileira
Não consta das Sagradas Escrituras, mas é verossímil. Após ter criado o céu, a terra, os mares e os animais, no sétimo dia o Senhor descansou. Sua criação não. Alguns seres, provavelmente arquétipos dos modernos sociólogos ficaram profundamente insatisfeitos com a obra. Continue Lendo..
O que direi aos meus filhos?
Meus filhos ainda são pequenos. O João tem cinco anos, o Ricardo três e a Anninha um. Já estão na idade de fazer perguntas indiscretas sobre assuntos inconvenientes. Enquanto as indagações giram sobre temas domésticos, ainda é possível dar-lhes respostas convincentes. Temo pelo dia em que terei de falar-lhes sobre temas políticos e econômicos, explicar-lhes as mazelas do País que lhes legaremos, o fracasso de nossas gerações na construção de um projeto nacional. Continue Lendo..
O bom cidadão
Maio, auge da primavera, é o mês mais indicado para visitar Paris. Os pássaros voltam às praças e a temperatura amena convida as pessoas a freqüentar os cafés ao ar livre. A cidade é uma festa. Sob o céu de Paris, o som do acordeão embala os namorados, de todas as idades, cujo amor ornamentado pelas flores, é uma prova de que a vida realmente vale à pena. Continue Lendo..
A VISÃO LIBERAL – O rio e a planície
Não são os heróis quem escreve a história. Continue Lendo..
A VISÃO LIBERAL – Por que me tornei um liberal
Porque passei uma noite na cadeia. Continue Lendo..



