Prezada dona Dilma

Publicado por João Mellão Neto Em 23 Aug 2010

A pedidos, republico meu artigo de fevereiro de 2010.                                                                Tempos atrás, aqui mesmo, neste Espaço Aberto, comparei a senhora, com as ideias antiquadas que defende, a um DKW – aquele automóvel que foi fabricado no Brasil no início da década de 1960. Recebi numerosos e-mails reclamando que eu estava sendo injusto. Injusto com o DKW. Pois é. O carro deixou uma boa impressão, o que – perdoe-me o mau jeito – parece muito não ser o seu caso. Estive vasculhando as minhas memórias e constatei que o DKW é muito moderno para a senhora. A comparação adequada seria com um Ford 1929. E, ao afirmar isso, espero que ninguém reclame do fato de eu estar cometendo outra injustiça.
É Ford 1929, mesmo. Foi naquela época em que ele estava sendo fabricado que um sujeito chamado Benito Mussolini fazia sucesso com o lema: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.” Joseph Stalin e outros contemporâneos também não pensavam muito diferente disso. Poderíamos agraciar cada um deles com um Ford da época. Ou com uma Mercedes-Benz 770. A senhora sabia que esses personagens históricos já defendiam a ideia de um “Estado forte” – que é o cerne de sua plataforma política – naqueles tempos?
Li, se não me, engano, na revista Veja, que o bordão que o Duda Mendonça apresentou para a sua campanha eleitoral é baseado naquela música do Zeca Pagodinho: “Deixa a Dilma me levar; Dilma leva eu…” Com todo o respeito, dona Dilma, levar para onde? Dá calafrios só de pensar.
Por falar em Duda Mendonça, cabe a pergunta: vocês o reabilitaram? Vão pagar a campanha com dólares depositados nas Bahamas, como ele gosta? Isso é proibido, dona Dilma. A senhora sabia?
Li, creio que na mesma revista, que quem está articulando a sua campanha nos diversos Estados é ninguém menos que José Dirceu. É, ele mesmo. Ele já foi ministro-chefe da Casa Civil, o mesmo cargo que a senhora ocupa. Também foi reabilitado? E aquela história do “mensalão” como é que fica? Segundo a malvada da imprensa, ele era o grande articulador do esquema. Deixa pra lá. Isso também deve ser “intriga da oposição”, não é verdade?

Por falar nisso, por que será que a “mídia” implica tanto com a senhora? Está em seus planos criar um “órgão controlador do conteúdo da imprensa”? A federação dos jornalistas – à qual não sou filiado – já apresentou uma proposta nesse sentido. A senhora concorda?

A pergunta é pertinente. Um dia destes – quando o Hugo Chávez, da Venezuela, cassou a concessão de seis emissoras de televisão a cabo – questionaram se a senhora concordava com tal medida. E, dona Dilma, a senhora respondeu de forma evasiva. Disse algo como: “Quem sou eu para julgar…” A senhora não tem opinião formada sobre o assunto? Assim vai mal…
Mudando de assunto, esse negócio de “Estado forte” que a senhora defende me lembra os tempos do general Ernesto Geisel. Se a senhora não se lembra, foi aquele presidente do Brasil, na década de 1970, que tão somente fechou o Congresso por alguns dias e baixou várias medidas políticas arbitrárias que ficaram conhecidas como “pacote de abril”. Entre elas, vale destacar, foi criada a triste figura do “senador biônico”.
Pois bem, o presidente Geisel vivia dizendo que a economia brasileira estava apoiada em três pés: o Estado, o capital estrangeiro e a iniciativa privada nacional. Não era bem assim, na prática. Durante o governo do dito cujo foram criadas quase 400 empresas estatais. E a maioria esmagadora dava prejuízo, sangrando o Tesouro Nacional. Paciência. Segundo ele, o Estado deveria suprir, na economia, todas as lacunas deixadas pela iniciativa privada. Era melhor para a Nação que o estatismo prevalecesse do que entregar a área ao capital estrangeiro.

Quase tudo nos tempos de Geisel era propriedade do Estado. Surgiu até um neologismo para designar a nova elite que tomara o poder: tecnocracia, mistura de burocracia com conhecimento técnico. E os tecnocratas bem que abusavam. Conheci um sujeito, na época, que trabalhava na companhia telefônica estatal de São Paulo. Ele me contou, orgulhoso, que fora transferido para o “Departamento de Esportes” da empresa. Na prática, ele não precisava fazer mais nada… E o salário, que não era baixo, pingava, com certeza, todos os meses. É esse tipo de “Estado forte” que a senhora prega? Não é isso? O Estado musculoso que a senhora deseja seria, por acaso, de uma modalidade “diferente”?

Deu um trabalho enorme desmontar toda a estrutura estatal criada no País. E foi muito bom. Como lembra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em artigo publicado nesta página do Estadão no último domingo, a Companhia Vale do Rio Doce, depois de privatizada, contribui com impostos muito mais do que rendia em dividendos quando era estatal. Não é o único caso. E tampouco há de ser o último…
Pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desde que assumiu o poder, não mais privatizou nenhuma empresa. Ao contrário, ele prega um Estado maior e para tanto tratou de capitalizar o Banco do Brasil, o BNDES e tudo mais que é estatal.
Segundo ele, a crise internacional aqui, no Brasil, só se configurou como uma “marolinha” porque o seu governo salvou o sistema financeiro nacional da quebradeira geral. Não é bem verdade. As finanças nacionais não se envolveram na especulação geral porque aqui, depois das quebras monumentais de bancos brasileiros na década de 1990, o sistema se tornou bastante regulamentado e os bancos, capitalizados. Isso se deve, em boa parte, ao seu antecessor, Fernando Henrique…
Tenha santa paciência, dona Dilma, Estado agigantado existe um só: é do tipo que reinou por aqui na década de 1970. A senhora sonha com um Estado sarado. Pois o máximo que conseguirá será um Estado obeso.

Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 12 de fevereiro de 2010.

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8 Comentários em “Prezada dona Dilma”

  1. Senhor Jornalista João Mellão Neto:

    Conheci somente agora seu interessante artigo de fevereiro, traçando o perfil da candidata DILMA ROUSSEF à Presidência da República. Embora concorde em linhas gerais com a crítica, chamou minha atenção a parte em que o Senhor destaca:

    “Deu um trabalho enorme desmontar toda a estrutura estatal criada no País. E foi muito bom. Como lembra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em artigo publicado nesta página do Estadão no último domingo, a Companhia Vale do Rio Doce, depois de privatizada, contribui com impostos muito mais do que rendia em dividendos quando era estatal. Não é o único caso. E tampouco há de ser o último…”.

    Desculpe, mas, certamente por inadvertência, o Senhor está divulgando uma inverdade! Não conheço os outros casos a que se refere, mas esse da CVRD (hoje transnacionalizada injuridicamente com o “nick name” “Vale S/A”) é uma falácia grosseira e grotesca do ex-presidente. Pergunto: O Senhor sabia que ele, o ex-presidente, responde à Ação Popular nº. 200251010187644, ajuizada na 12ª Vara Federal do Rio de Janeiro e que, embora julgada improcedente em primeira instância, o feito está sendo reexaminado, em segundo grau obrigatório de jurisdição, pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região? Nessa ação constitucional, FHC é um dos réus e os autores reclamam o cumprimento do Decreto-Lei 4.352, que, ao criar a CVRD em 01/06/1942, destinou 85% dos seus lucros líquidos para formação de um fundo público! A valores de hoje e considerando o que se auferiu nos últimos 13 anos, as parcelas sonegadas ao Tesouro Nacional ultrapassam o montante de R$ 100 bilhões de reais, inexplicavelmente deixados à má troca pelo BNDES, quando do açodado leilão do controle acionário na terça-feira 06/05/1997, que os arrematantes passaram a dizer ter acontecido na quarta-feira 07/05/1997, para fugir aos efeitos do art. 182 do Código Civil em vigor (no Brasil). E cabe indagar: Se a CVRD não dava lucro em 1997, como se explica a formação do monumental complexo logístico cobiçado pelos “empreendedores” do mundo inteiro? O TCU informou ao juízo que, entre 1970 e 1997, mais de R$ 26 bilhões de reais deixaram de ser aplicados no mencionado fundo público: Então, por que o Governo Federal alegou não ter recursos públicos para investir nos novos projetos da mineradora estatal, se, por outro lado, há dois anos o BNDES (principal agente da política de investimentos do Governo Federal, segundo o art. 23 da Lei 4.595/1964) abriu uma linha de crédito inédita de R$ 7,3 bilhões de reais a favor dos atuais administradores daquela cuja personalidade jurídica permanece sub judice?

    Finalmente, sem esgotar o rol das minhas objeções, transcrevo para seu conhecimento o texto que postei ontem na página de Internet da Candidata MARINA DA SILVA, ao complementar a mensagem de outro eleitor intitulada “ MARINA E DILMA NO SEGUNDO TURNO”. Justifiquei minha posição informando um encontro casual com a candidata DILMA ROUSSEF, no dia 02/02/2006, quando, levado pela Deputada Federal DRA. CLAIR (PV/Paraná, novamente candidata pelo seu Estado com o número 4399), entreguei pessoalmente uma carta, solicitando a intervenção da então ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República, a fim de orientar o ainda hoje presidente LULA DA SILVA. Minha carta fechava assim:
    ” Ora, com todas as injunções políticas que possam ter constrangido o atual Presidente da Republica a prestigiar atos do último Governo, com o elevado propósito de preservar a governabilidade, se o Exmo. Sr. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinar à UNIÃO FEDERAL que atue no pólo ativo nesta nova fase dos processos populares, estará reassumindo a defesa dos verdadeiros interesses nacionais (representados pela decretação de nulidade da teratológica alienação da Vale), numa demonstração pública da sua fidelidade à própria biografia, que sempre apontou para a intransigente defesa desses verdadeiros interesses do Estado Brasileiro. A falta desse discernimento poderia suscitar, ao revés, a idéia de cumplicidade com as forças econômicas que se empenharam e persistem em dilapidar o patrimônio publico.”

    O meu desencanto ficou por conta do solene desprezo demonstrado pela atual candidata DILMA ROUSSEF ao meu apelo de simples cidadão, pois descobri, logo depois, ser ela a presidente do Conselho de Administração da PETROBRÁS, onde tinha assento como conselheiro, nomeado pelo presidente LULA, o Sr. Roger Agnelli, presidente da CVRD transnacionalizada, representando na mineradora os interesses do Grupo Financeiro BRADESCO e de olho naquela que continua sendo estatal do petróleo para transferí-la ao domínio dos especuladores financeiros do mercado mobiliário transnacionalizado.
    Portanto, seguindo o velho ditado “quem não te conhece que te compre”, como poderia votar em sã consciência nessa candidata continuista de grupos entreguistas do nosso Patrimônio Público?”
    Atenciosa e respeitosamente.
    a) Eloá dos Santos Cruz
    Advogado OAB 12.45 RJ

  2. Ana says:

    Grande Mellão!!!!!
    Melhor definição impossível

  3. Waldir says:

    Caro Deputado João Mellão Neto: Bom dia. Como tem passado? Tudo bem? Fui um de seus eleitores. Após as eleições, recebi uma ou duas mensagens suas.
    Faz algum tenho notícias suas, de sua atuação na Assembléia Legislativa de São Paulo. O que tem feito pela nossa educação e saúde? O Alkimin, pelo jeito, irá ganhar novamente. Mas quando penso na educação e saúde em nosso Estado, penso também no Skaf. Oque acha dele? E quanto a voce, sempre um notório liberal, o que pensa a respeito da muito provável eleição da Dilma? Sim, pois cada dia que passa fica mais latente a incompetência de nossa oposição, infelizmente. Mostre a sua visao sobre os motivos da queda do Serra. Abraços.

    Waldir dos Santos Oliveira. R. São Miguel, 55. Juqueí. Cep 11600 000. São Sebastiao. SP. (12) 9700 8402/ 38631820

  4. Cristiano Castro says:

    Prezado João,
    Conte com meu voto, recebo periodicamente seus livros e acredito que você é a pessoa certa para nos representar.
    Quando tiver um tempinho gostaria de conversar contigo a respeito da alta tributação dos games hoje em dia praticados em nosso país.

    Grande abraço,

    Cristiano Castro

  5. Coletto says:

    “Com todo o respeito, dona Dilma, levar para onde?”
    É melhor começar a tirar o dinheiro da poupança, por via das dúvidas…

  6. Avellar says:

    A vitória eleitoral no pleito de 2010 da ex-ministra, Dilma, representará a consagração dos nacionalistas e dos progressistas, a vanguarda do campo popular, da simples gente, dos enormes sacrifícios necessários para assegurar às classes menos favorecidas a participação no que representa o prazer e a dignidade humana, a solidariedade, o amor ao próximo ou o socorro aos que andam pelos caminhos de pés descalços. O valor da filantropia e da benemerência, somente poderá ser sentido por quem a pratica de corações abertos e mentes contemplativas, pois reflete o esforço constante para alavancar uma melhor sorte aos que sofreram de uma desgraça imerecida.
    Enfim um Brasil soberano, da construção de uma sociedade justa, solidária e próspera.
    Representa, ainda, a superação do neoliberalismo, do rompimento com o Estado-mínimo, aquele estado centralizado, longe dos problemas da cidadania, lento, que mais atrapalha do que resolve a vida do trabalhador comum.
    O governo de FHC deu errado como o neoliberalismo representou um equívoco. Sua derrota e a crise final dos neoliberais representam isso.
    Por isso, significa também a derrota dos insensíveis com a causa social.

  7. Medeiros says:

    Boa noite Dr. João Melão
    Sempre que posso tenho lido sua coluna no Estadão e acompanho seu blog.
    Obrigado pelas orientações. O Brasileiro vai pagar um preço alto com a Dª Dilma, durante esses período que ela vai ficar na Presidência.
    Medeiros/SP

  8. Maria Luísa Duarte Simões Credidio says:

    João:

    Sinto-me de alma lavada ao ler uma resposta como a do artigo “Prezada sra. Dilma”. Nossa geração lutou tanto para darmos alguns passos, que na minha cabeça torna-se inconcebível voltar atrás, aceitar a ditadura(agora disfarçada), a censura, um estado totalitarista e sem visão de futuro.
    Corre pela internet um e-mail onde o autor diz procurar uma( só uma!) foto da Dilma nas Diretas Já, do impeachment do Collor, nas passeatas pela redemocratização do país, enfim, em qualquer coisa que pudesse provar que um dia ela lutou por uma nação livre e democrática.
    Eu sei o que é o PT. Quando nos mudamos de Piraju, fomos morar em São Bernardo do Campo, uma cidade industrial pujante, onde as fábricas, muitas à beira da Via Anchieta, colocavam placas solicitando trabalhadores das mais diversas espécies.Uma cidade onde havia empregos e que tinha a 2ª maior arrecadação municipal do país.Eram tempos de prosperidade e paz. Mas aí surgiu o Lula. E o que passamos a ver foi horripilante! As placas foram sumindo, as vagas diminuindo, pois metalúrgico passou a ser sinal de encrenca. Meu marido tinha um posto de gasolina bem perto da Villares. E quando o Lula liderava uma passeata, eles invadiam e saqueavam os estabelecimentos comerciais que estavam no caminho, quebravam tudo que viam pela frente, numa evidente demonstração de força e mau caráter.
    Assisti aos poucos, ele, que morava numa simples casinha geminada no Bairro Assunção, se mudar para uma mansão, com antena parabólica e tudo mais. Mas “era do seu compadre”…, segundo dizia aos quatro ventos.Depois ,vi novamente ele se mudar para a cobertura de um lindo prédio, numa trasação mal esclarecida até hoje. À par de tudo isso, com suas passeatas e comícios na porta das fábricas, espantou-as da cidade: a Volkswagen abriu a nova unidade em Taubaté, a Brastemp saiu de São Bernardo do Campo, sumiram, assim como a Dulcora, a Case, a Otto Baumgart, a Shellmar e tantas outras. Mudaram-se assustadas com o incitamento dos operários mais bem pagos do país: os metalúrgicos. Lula os usou. Usou de escada para fundar um partido e subir(sempre orientado por seu compadre, que é um excelente advogado)na carreira política. Tentou, tentou e tentou, até que conseguiu chegar lá. Não sei se pelo desejo de mudança do povo, ou pelo cansaço de ver sempre o mesmo candidato. Instaurou um governo duvidoso, no qual eclode um escândalo após o outro. E agora quer fazer a sucessora, aquela que vai encobrir os “buracos” deixados.
    Fala-se do mensalão. Mas ninguém fala do esquema criado com uma agência de publicidade do Rio Grande do Sul, para a construção do Shopping de Mauá. Se puxarem o fio a coisa fica tão preta quanto o envolvimento do Marcos Valério…
    Fico triste ao constatar que a Dilma tem possibilidade de se eleger. Continuaremos tendo que engolir mensalões, erenices, dólares da cueca, na meia, quebras de sigilo de todas as espécies. Por isso levanto minha voz.E peço a Deus que o povo brasileiro tenha discernimento para saber o câncer que teremos no poder e nos livre disso através das urnas.Não é hora de nos calarmos!É hora de gritarmos, para que o maior numero de pessoas possível tenha consciência do que é o “lulismo” e nos ajude a cauterizar essa ferida aberta na história do Brasil.

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