Os patrioteiros

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Aug 2010

Exemplo de países e estados explorados por multinacionais: EUA, Alemanha, Japão, Taiwan, Singapura, São Paulo. Exemplo de países e estados não explorados por multinacionais: Albânia, Tanzânia, Moçambique, Bangladesh, Piauí. No início da década de 60, o sociólogo Paulo Martins, nacionalista convicto, redigiu um livreto de grande sucesso: Um Dia na vida de Brasilino.  Nele contava a história de um cidadão brasileiro que acordava pela manhã ao som de um despertador suíço, escovava os dentes com uma pasta Kolynos, fazia seu desjejum com cereais de kellogs, ligava seu automóvel  Volkswagen e partia rumo ao seu emprego na Philips, não sem antes cruzar com inúmeros out-doors de produtos de consumo produzidos por empresas também estrangeiras.

“O Brasil esta tomado pelas multinacionais”, bradava Martins, imbuído de sua sagrada ira nacionalista. O livrinho  causou grande furor. Joguemos os gringos ao mar!

Imagina-se como seria o dia ideal do Brasilino, caso esta fosse uma nação “livre”, “soberana”, “independente”, como queria o sociólogo: Brasilino acorda pela manhã ao canto do galo. Após observar o sol, ele avalia que sejam mais ou menos, 8horas da manhã. Procura o interruptor de luz mas não o encontra. Afinal, em boa hora, os guardiões da Pátria impediram a entrada da Light no Brasil. Acende uma vela para melhor barbear-se com o seu legítimo facão made in Brazil. Após escovar os dentes com sabão de banha, dirige-se à garagem onde o espera sua charrete, puxada por dois jegues, brasileiros natos. Apos ultrapassar o portão, Brasilino reflete; afinal por que essa pressa, já que eu não tenho mesmo emprego nenhum? Volta para a cama e dorme, não sem antes recitar alguns versos do hino nacional. Nada como viver em uma nação livre e independente!

As multinacionais, cruéis, ambiciosas, são realmente um grande mal ao País. Se Juscelino, em sua imprudência, não tivesse aberto as portas do Brasil à sua senha, viveríamos, sem duvida muito melhor. O ABC, por exemplo, ao invés de toda a sua poluição, seria uma aprazível reserva ecológica, regalando os olhos daqueles que, em seus tilburis, estariam dirigindo-se ao balneário de Santos. Como era a boa a vida naqueles tempos, quando não havia televisão e a família se reunia à luz do lampião para os serões literários! Teríamos ao menos o direito de morrer como brasileiros, infectados por vírus brasileiros, como o ipê roxo, o xarope São João e o licor de jurubeba.

São Paulo seria uma cidade, sem dúvida, muito menor e mais tranqüila, já que os Lulas da vida teriam permanecido famintos em seus Garanhuns pernambucanos. O progresso, sem as mãos e o know-how estrangeiro, tardaria, mas acabaria chegando. A essa altura, por exemplo, poderíamos estar construindo a Santos – Jundiaí com tecnologia autóctone, cujas locomotivas, a vapor, apitariam, orgulhosamente, em homenagem ao espírito empreendedor da brasilidade.

Estrangeiro, aqui, só entraria com visto de turista, atraído pelo exotismo de nosso povo, a exuberância de nossas selvas e a graça de nosso artesanato.

Intercâmbio cultural ou científico só poderia ser feito com as nações que também fossem livres e independentes como nós. Aprenderíamos novas técnicas agrícolas com a Tanzânia, mandaríamos nossos estudantes adquirir noções de urbanismo em Moçambique e ciências sociais na Albânia. Fidel Castro, quem sabe, poderia nos exportar indústrias de tabaco, além de arejar nossas mentes com o exemplo de regime democrático implantado em sua avançada ilha.

O Brasil, imenso e livre, seria uma nação feliz. Nada de indústrias poluentes, bens de consumo supérfluos, congestionamentos de tráfego, inchamento das cidades, filas nos pontos de ônibus, nos guichês do crediário, na bilheteria dos cinemas ou na porta das fábricas. O povo despojado das neuroses e angústias típicas do desumano sistema capitalista que nos foi imposto, não sofreria mais de stress, gastrite ou infarto.

Graças a Deus se convocou a Assembléia Constituinte. Foi através dela e de seus briosos deputados nacionalistas que nós podemos repensar o nosso modelo econômico. Ao definirmos, em lei, o conceito de empresa nacional, estaremos dizendo ao resto do mundo que rechaçamos com vemência o seu capital imundo, sua tecnologia supérflua e seus falsos conceitos de progresso e padrão de vida. Eles que tratem de aplicar seus dólares em nações menos altivas.

Depois de tantos anos, a história finalmente faz justiça ao Jeca Tatu, talvez o nosso maior estadista. Ainda é tempo. Se todos lutarmos e nos esforçarmos, ainda poderemos fazer deste país um imenso e soberano Piauí.

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2 Comentários em “Os patrioteiros”

  1. Antônio says:

    Sempre leio seus artigos e embora não concorde com tudo, adoro seu ponto de vista. Sou Cientista Político e meu tema é Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral. Gostaria que você comentasse o primeiro dia do horário político, o HGPE. Fiquei horrorizado a temática e com os apelos dos candidatos, o tom emotivo do presidente Lula, de Pai responsável que deixa os filhos nas mãos de uma mãe-mulher extremamente cuidadosa e responsável foi apelativo demais. O nível dos candidatos é um pesadelo, “vote tiririca, pior do que tá não fica”, candidatos sem nenhum passado político, sem propostas. Os partidos continuam apostando em “ícones” da televisão, o povo sabe que política é coisa séria e nessa eleição o povo está mais maduro, vai exigir propostas e seriedade.
    Por favor faça mais um dos seus comentários enriquecedores e profundos.
    Um Abraço,
    do amigo,
    Toni.

  2. Bruno says:

    Brasil a opçáo pelo atraso.

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