Opção preferencial pela pobreza

Publicado por João Mellão Neto Em 02 Aug 2010

“Ao deparar com uma jovem chorando à beira da estrada, Confúcio aproximou-se para saber a razão de tamanha tristeza.
- É o tigre, meu Sábio. Ele já destruiu nossa colheita, nosso rebanho, matou meu avô, meu pai e, mais cedo ou mais tarde, virá devorar-me!
- E por que não te mudas para a cidade?
- Aqui nós temos apenas o tigre, lá vós tendes o governo…”
( Parábola chinesa atribuída a Confúcio)

Guy Sorman, produto do santuário da tecnocracia francesa, a empertigada Ecole Nationale d’ Administration, ao invés de acomodar-se em algum dos alto cargos estatais que o diploma da E.N.A. lhe garante, realizou pelo mundo a viagem que a qualquer um de nós, protensos pensadores políticos, almejaria fazer; visitar cada uma das nações desse multifacetado universo intitulado de preconceitos, quais são, realmente, as causas da miséria e do subdesenvolvimento. O resultado é previsível. O tigre implacável não fala inglês ou francês, não mora em Nova York ou Londres, não usa terno e gravata nem greve as finanças de alguma multinacional. Cada povo tem seu próprio tigre, nacionalista, bravateiro, eivado de dogmas e preconceitos. Alguns se dizem liberais, outros marxistas, mas todos, quase sem exceção, têm na ideologia apenas um pretexto para justificar sua fome insaciável.

Destroem colheitas e rebanhos sob o argumento de aperfeiçoá-los, devoram homens e vocações alegando estar salvando-os. Em nome da liberdade acabam por escravizar seu povo com os grilhões da injustiça social. Quando defendem a igualdade, nivelam a todos na miséria e na falta de perspectivas econômicas.

Em “A Nova Riqueza das Nações” Sorman destrói, uma a uma, todas as miraculosas soluções que a pouco criativa mitologia esquerdista apresenta para o mundo. A reforma agrária , enquanto imbuída de colorações igualitaristas, falhou em todas as partes, que no México, quer no Egito, quer na Tanzânia, ou mesmo na China comunista. Curiosamente, no único país em que deu certo, Formosa, não por coincidência, foram respeitados os princípios capitalistas. Não houve expropriação de terras, elas foram compradas e seus proprietários indenizados pelo preço de mercado. Ninguém ganhou terras de graça, elas foram vendidas, com preços realistas, tendo como base o potencial das colheitas. Com que recursos o governo as pagou? Simples. Com ações de empresas estatais lucrativas. Ninguém saiu lesado. Dessa forma não houve resistências. Ninguém foi privilegiado. Quem não teve competência simplesmente não se estabeleceu.

A pobreza, nos ensina Sorman lastreado em sua experiência, não pode ser creditada à cultura, aos costumas, à terra, ao clima, à reglião ou mesmo, como é moda afirmar, à sanha do imperialismo estrangeiro. Muito ao contrário, no que tange a esse último item, foram justamente os países que fizeram o jogo do “perverso  capital internacional” os únicos que lograram escapar do ciclo vicioso da miséria. Cingapura, uma frágil e miserável casca de noz flutuando no Mar da China; Hongcong uma ilha minúscula e superpovoada encravada no continente Asiático; Formosa e Coréia e duas pequenas e despojadas nações perdidas na periferia do Oriente, provaram ao mundo, de forma cabal e inquestionável que, no momento em que se desperta no homem, por mais miserável que seja, a sua índole empreendedora, não há obstáculo que não possa ser transposto. Não cabe aos governos a divina missão de doutrinar seus povos. Basta apenas que não os atrapalhe, coibindo sua criatividade e tolhendo as suas iniciativas.

Trazem mais luz os exemplos históricos que as ideologias histéricas. Não por coincidência, em toda a parte em que persiste o subdesenvolvimento ou a estagnação econômica, seja no Egito, na Índia, no Senegal ou na Bolívia, encontram-se também governos arrogantes, prepotentes, burocratizados e ineficientes. Marxistas ou liberais, pouca diferença faz. Não praticam ideologias mas sim marketing ideológico. Todos os seus esforços são enviados para a promoção do Estado, jamais do cidadão. A sombra da imensa árvores estatal, nada mais floresce, a não ser alguns parasitas.

O estancieiro argentino, cujos bois caminham sobre o solo mais fértil do mundo, está diminuindo sua produção. A culpa não é o do estancieiro, da terra, do boi ou mesmo do mercado internacional. A grande praga da pecuária argentina é o governo que taxa, tabela e confisca, inviabilizando assim qualquer esforço produtivo.

O mesmo mexicano que, enquanto agricultor em sua pátria “salva pela gloriosa reforma agrária”, é indolente, retrógado e preguiçoso, tão logo atravessa o Rio Grande torna-se laborioso, empreendedor e ambicioso. Quem é o culpado pelo subdesenvolvimento? As origens étnicas dos mexicanos ou o governo incompetente do México?

O livro implacável de Sorman chega ao Brasil em momento muito oportuno. Enquanto “liberais” e “progressistas” se digladiam em Brasília na redação da Carta Magna, “ A Nova Riqueza das Nações” nos alerta quanto à falsidade dessas dominações. Que liberais são esses cujas biografias, na maioria dos casos, foram redigidas sob o manto do Estado? Que progressismo existe na pregação de dogmas populistas retrógados e inviáveis?

Nossa opção preferencial não é pelos pobres e sim pela pobreza. O tigre, cada vez maior e mais faminto, passará incólume por toda essa discussão. E, todos os dias, como de hábito, descerá da montanha para nos devorar.

Artigo extraído do livro : Nu com a mão no Bolso

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