Somos das elites, sim!

Publicado por João Mellão Neto Em 18 Jun 2010

Se você se formou em alguma faculdade; se você, por acaso, aprendeu mais de um idioma; se você é um profissional liberal bem-sucedido ou ocupa um cargo elevado na empresa em que trabalha, cuidado. Esconda os seus diplomas no armário, jamais torne a usar os seus ternos sob medida e trate de comprar um carro velho ou popular. Demonstrar mérito ou ostentar sinais de prosperidade, no Brasil, agora é pecado. Essas coisas significam que você faz parte das nossas pérfidas elites e, portanto, carrega consigo grande parte da culpa pela miséria em que vive razoável parcela da população.

É curioso. Eu nunca interpretei o termo elite por um ângulo pejorativo. Ao contrário. Elite, para mim, sempre significou os melhores dentre os melhores de cada área. Há a elite dos empresários, como existe a elite dos médicos, a dos políticos ou a dos advogados. Com exceção de parcela da elite econômica, cujo patrimônio veio por hereditariedade, ninguém vem a ser reconhecido como membro de alguma elite se não demonstrar mérito, talento e empenho pessoal. São todos pessoas de peso, merecedoras da admiração geral. Ou, pelo menos, era assim até a chegada da companheirada ao poder, há quase cinco anos.

Confesso que não me surpreendi com essa total inversão de valores. Quando cursava a faculdade, em meados dos anos 1970, um dos mitos mais caros do pensamento esquerdista era o que pregava que todas as mazelas do Brasil eram culpa exclusiva de suas execráveis elites. O povo em geral, os cidadãos humildes, era puro de alma, solidário por natureza e sempre pronto a empenhar o melhor de si em prol da coletividade. Mas ele não tinha chance de fazê-lo porque as elites, egoístas e gananciosas, não lhe davam oportunidade. É mais ou menos a forma como os marxistas tradicionais idealizavam a classe burguesa. Elimine-se a burguesia e os seus valores, e a sociedade, quase que naturalmente, se tornará justa, fraterna, cooperativa e voltada para o bem comum.

Quatro décadas depois, mesmo com a utopia comunista já devidamente sepultada, alguns cacoetes do pensamento esquerdista ainda remanescem. Um deles é este da dicotomia entre um povo bom e generoso e uma elite perversa e individualista.

Todo raciocínio simplista é eivado de contradições. Os companheiros ainda não se deram conta de que, uma vez no poder – e com amplo controle sobre o Congresso -, são eles, agora, a elite política do País. E elite não no sentido de mérito, como referido acima, mas, sim, pelo fato de que são eles a classe dominante da Nação.

Embora execre as elites, essa gente, paradoxalmente, faz parte delas há muito tempo. Desde o final dos anos 70, são eles, incontestavelmente, que compõe a elite sindical do proletariado deste país. Sempre ocupando cargos na diretoria dos sindicatos, boa parte desse pessoal nunca trabalhou, de fato, no chão das fábricas. Além disso, em função de seus postos na burocracia sindical, eles sempre perceberam vencimentos integrais e gozaram de estabilidade absoluta no emprego, algo que nem os mais renomados membros das demais elites jamais ousaram sonhar. Paladinos dos miseráveis, pobres, por sua vez, eles nunca foram. Com salários nunca menores que o equivalente a sete ou dez salários mínimos, todos eles sempre lograram possuir casa própria e automóvel, o que os classificaria, no mínimo, como classe média.

Por que, então, esse ódio às elites e a tudo o que elas representam? Note-se aqui que o designativo elite não vale apenas para o topo da pirâmide social, mas abrange, também, toda e qualquer pessoa que demonstre auferir rendimentos acima da média, tenha algum estudo e cultue hábitos minimamente refinados.

A contraditória “elite antielites” que nos governa não se dá conta de que, se Lula pode dar-se ao luxo de distribuir o Bolsa-Família a 11 milhões de famílias, isso só é possível graças aos escorchantes impostos que as nossas odiáveis “elites” recolhem ao Tesouro. A carga tributária que incide sobre a classe média é proporcionalmente muito maior do que a do resto da sociedade.

Os petistas que me perdoem, mas eu sempre tive e terei orgulho de fazer parte dessas elites que eles tanto condenam.

São essas elites que formam o sal da terra de toda e qualquer sociedade. São elas que produzem riquezas, criam valor e fazem a economia andar. Devemos a elas o fato de, graças a sua especialização, a sociedade poder oferecer serviços de qualidade em todas as áreas do conhecimento. São elas que, pelo hábito de ler livros e jornais, compõem a opinião pública de uma nação.

Se o presidente Lula não quis estudar (tempo ele teve para isso), é um problema exclusivamente dele. Mas que não venha a nós fazer proselitismo de sua insuficiência acadêmica. Que não tente, por seu exemplo pessoal, influenciar os nossos filhos no sentido de que a indigência cultural é uma virtude e que o pouco saber é uma ferramenta útil para preservar a pureza e as boas intenções das pessoas.

Paralelos de obscurantismo na História, nós só encontramos na Revolução Cultural chinesa, quando, a partir de 1964, Mao, em seus delírios, decidiu humilhar e “reeducar” todos os chineses que tinham um grau mínimo de instrução. O resultado, como era de esperar, foi desastroso. Após 14 anos, os mentores de tal “revolução” foram todos para a cadeia, Deng Xiao ping, com a inestimável ajuda dos antigos intelectuais, logrou reerguer a nação e a China, hoje, é o país que mais leva o ensino a sério e envia estudantes para aperfeiçoamento no exterior.

Somos elite, sim, sr. Lula com muito orgulho. Nós lutamos para chegar lá. Somos esforçados, esclarecidos e sobretudo, independentes. É por isso que nós sempre relutamos sufragar o seu nome. A nós nos repugna a ideia de alienar nossos votos a troco de uma mesada de alguns poucos reais.

Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em setembro de 2007.

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8 Comentários em “Somos das elites, sim!”

  1. Olá João,
    Em primeiro lugar é bom ter notícias suas depois de tantos anos. Fico feliz em te encontrar gozando de muito sucesso, prosperidade e sabedoria.
    Parabéns pelo excelente artigo, pela clareza e coerência. Não há o que acrescentar (ou tirar): perfeito. É deste tipo de verdades que o nosso país precisa – entramos em um ciclo vicioso onde os medíocres dominam. Temos que ter ídolos e pessoas a quem possamos nos espelhar e criar uma sociedade melhor, um ciclo virtuoso.
    Parabéns e Sucesso!
    Clebert D. Mattos

  2. elias valmor says:

    Dentro domesmo contexto
    Resposta à Tanaka assunto: ”legalizando o desmatamento”

    Cara Tanaka, e sua equipe

    Foi de muito bom entendimento sua preocupação com a corrupção de nossas autoridades e valioso para o Brasil seu trabalho em prol da” Ficha Limpa”.
    Agora referir-se aos ruralistas como irresponsáveis criminosos você demonstra muito pouco conhecimento da realidade rural brasileira. Não são os párias das cestas básicas que sustentam a geladeira farta e barata das multidões brasileiras que se multiplicam no estímulo do ócio e da falsa publicidade paga a preço de ouro pelos cofres públicos. Nem sustentam eles a saudável desempenho da Balança de pagamentos que, aliás, tem seus superávits na manipulação do câmbio na mesma proporção que geram o déficit na conta bancária das dívidas dos produtores rurais.
    Nenhum ruralista tem interesse na destruição da terra que lhe dá trabalho e produção, e prazer no trabalho. Todos os ruralistas podem e devem sim reorientar suas atividades para melhor conduzir a vida do planeta, mas isto não será alcançado pela estupidez insana e analfabeta de opiniões alheias à realidade. Deveriam as populações urbanas sim cuidar dos rios e lagos, talvez com uma ração menos gordurosa e menos farta com que diariamente conspurcam o lago Paranoá o Rio Tietê e os mares, além de outros, como o Rio Iguaçu que sai fedendo da cidade de Curitiba
    Se ambientalistas de fato têm interesse em produzir algo de útil para a humanidade, deveriam colocar seu tempo a serviço da busca de ações positivas em prol da natureza,. Entre outras citamos, prender de fato os responsáveis pelos lixões das grandes cidades tanto quanto os derrubadores de matas à sombra da propina das autoridades, na Amazônia, Coibir aquela gente toda que joga sacolas nos bueiros em qualquer lugar para se livrar das sobras de comida que jogam no lixo com o mesmo desprezo com que compram muitos com dinheiro fácil dos cofres públicos.
    Exigir meia dúzia de papelórios, gastando papel à toa e ocupando funcionários em serviços inúteis, sem critério sem conceito de tamanho sem noção de custo e benefício, isto sim é criar condições para que o meio ambiente seja o principal prejudicado.
    Os ruralistas brasileiros, com cerca de 20% da população permitem mais de 45% da riqueza deste país. As melhorias que se buscam neste setor deveriam partir de consciências verdadeiramente integradas a objetivos práticos e sadios. Talvez nesta categoria ainda é onde resta algo digno de respeito, em nosso país.
    Se você pretende levantar esta bandeira, e você tem capacidade de trabalho, e lhe sugiro procure conhecer melhor a classe rural e seus diversos ambientes de produção como já fez até um comunista como o Rabelo, (naõ aquela formada pelos parasitas do erário que nada produzem apesar das estatísticas forjadas e oficiais) e tenho certeza você encontrará respaldo com o objetivo de produzir serviços de utilidade para a pátria e para o planeta e para a humanidade.
    Evalmor

    —– Original Message —– resposta a
    From: Graziela Tanaka – Avaaz.org
    To: evalmor@ig.com.br
    Sent: Monday, June 14, 2010 1:55 PM
    Subject: Legalizando o desmatamento

    Caros amigos,
    !
    É chocante, mas o congresso brasileiro poderá abrir oficialmente uma “temporada de desmatamento”, nas 5 regiões do Brasil, significando um retrocesso de décadas em proteção ambiental!

    Mais de 70 deputados da bancada ruralista, representando os intersses do agronegócio, estão tentando enfraquecer o Código Florestal brasileiro. Se eles conseguirem, milhões de hectares deixarão de ser protegidos por lei!

    O Congresso está dividido – há uma forte oposição dos parlamentares ambientalistas mas os dois maiores partidos, o PT e o PMDB, ainda não assumiram uma posição. Porém, a não ser que haja uma grande pressão popular, é provável que eles se alinhem com os ruralistas para ganhar apoio político nas eleições de outubro. Chegou a hora de mostrar o que o Brasil quer! Vamos enviar milhares de mensagens direto para os emails dos líderes partidários, eles estão negociando o posicionamento dos seus pertidos agora mesmo! Clique abaixo e envie a sua:

  3. Rose FL says:

    Se a DILMENTIRA ganhar todos faremos parte do Brasil do Governo Lula http://www.joaoboscoleal.com.br/2010/06/17/o-brasil-do-governo-lula/

    É revoltante como nós, os pagadores de impostos, somos vilependiados por esse desgoverno.

  4. Lolita Eva says:

    Seu artigo nos faz lembrar a campanha presidencial de 1945. A velha UDN, a elite, que havia organizado um grande comício no estádio do Pacaembu, em São Paulo, para a arrancada da candidatura ultra-conservadora do brigadeiro Eduardo Gomes.
    Todas as estrelas udenistas já estavam no local, incluindo o brigadeiro, mas povo, que é bom, nada.
    - O que está havendo? Perguntou o mineiro Magalhães Pinto a Waldemar Ferreira, presidente da UDN paulista.
    - Não sei. O povo deveria estar aqui. Será que o povo não veio porque resolvemos cobrar ingresso para fazer fundos para a campanha?…
    A elite até ingresso cobrava para comícios…
    E o povo?
    Hoje, no Brasil, temos o presidente Lula com 76% de aprovação de seu governo pelo povo.
    Lolita Eva, professora.

  5. carlos says:

    Melão, o Sr. Elias Valmor matou a cobra e mostrou o pau.
    Existem as ditas “conversas fáceis”, tipo, vamos acabar com a fome, ou vamos preservar a natureza etc…e existem pessoas que acreditam que tudo é fácil como falar. Acreditam na multiplicação mágica do pão. Viram os fanáticos que por falta do que fazer, teimam em salvar o mundo.
    Quem esta acorrentando o desenvolvimento desse pais é o estado caro e ineficiente. Os ruralistas, principalmente os pequenos e médios, por pura falta de estado regulador, estão enfrentando todo tipo de cartél, que os agentes do estado não conseguem evitar. O melhor negócio hoje é ser funcinário público.

  6. renato batisteli pinto says:

    Vim parar aqui por mero acaso. E me deparo com esta argumentação que se contradiz o tempo todo e mostra o quão esta “elite” é estúpida. Como em todos o estratos sociais também existe elites e “elites”. A nossa critica é contra a elite estúpida, gananciosa, raivosa e mal carater. A elite que se acha no direito de estacionar em fila dupla, de parar sobre a faixa de pedestres, que só consegue olhar para o próprio umbigo e não enxerga no outro senão um utilitário para os seus desejos. E contra esta elite que se acha ungida de um certo direito divino a tudo quando há à sua volta. Esta elite, digo mais uma vez estúpida, que não percebe que que um país mais justo é melhor sobretudo para para ela. Uma elite que vem aqui para Europa e volta tecendo loas a civilidade dos cidadãos europeus e de volta ao Brasil atiram lixo para a rua das janelas do seus carros importados. Elites que não se pejam de humilhar o outro porque se julgam acima “arianas” e confundem sabedoria com esperteza e acham que a sua rua, o município, o estado e o país e tão somente uma extensão das suas recheadas porém pobres casas. Enfim um bando de gente rica matéria e e miserável de espírito.

  7. Ótimo artigo. Apesar de ter lido somente agora, alguns anos depois de escrito, me caiu como a mais pura descrição da realidade.
    Grande abraço!

  8. Giselle says:

    Fico muito honrada em fazer parte dos privilegiados que estudaram, batalharam, e que pagam seus impostos para serem parte de um processo de justa distribuição de renda. Quem sabe um dia terei dificuldades em encontrar uma empregada negra e nordestina semi-analfabeta que aceite um salário de fome para lavar minha privada aqui em SP.
    Eu ainda não, mas meu neto sim, viverá em um país onde a neta desta minha empregada estudará na mesma universidade pública que ele, e não lavará sua privada.
    País sem valores…….

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