Pra frente, Brasil!

Publicado por João Mellão Neto Em 04 Jun 2010

Minha juventude transcorreu nos anos 70, durante a dita “ditadura militar”. Curiosamente, muita coisa na época era, de modo preocupante, semelhante ao que se vê hoje.

Estaríamos vivendo, agora, numa nova era autoritária? Creio que sim. E em plena vigência da democracia.

Vale ressaltar que a grande maioria dos regimes autoritários, para poderem durar, tem de ser, forçosamente, “popular”. O povo tem de ter simpatia pelo governo. E naquele tempo era isso o que ocorria.

Os “apelos nacionalistas” ou “nacionalisteiros” eram, em muito, parecidos com os que vemos hoje. E o “autoritarismo” implícito neles era o mesmo. O governo da época chegou a divulgar o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”. E o povo, com uma autoconfiança exacerbada, tratava de propagá-lo ao mundo. A mensagem era mais ou menos a seguinte: nós, por aqui, estamos satisfeitos, que não nos apareça nenhum derrotista com o intuito de nos estragar a festa!

Não existe mesmo nada de novo sob o céu. Tudo acaba se repetindo. Não foram os ditos governos militares que inventaram, no Brasil, o apelo fácil do nacionalismo triunfalista. Getúlio Vargas, no período de sua ditadura, usou e abusou dessa fórmula. A ideia-força é, mais ou menos, a seguinte: tudo vai indo bem no Brasil. Isso vale tanto para a economia como para a sociedade e, também, para a nossa imagem, no exterior.

Nos tempos da ditadura varguista dizia-se que o Brasil despertava inveja nas grandes nações porque aqui havia paz social. Enquanto aquelas enfrentavam uma guerra mundial, nós, por aqui, vivíamos em rara harmonia. Para que mudar? O nosso chefe estava “firme no timão” (expressão da época) e sabia como nos conduzir. O resto do mundo não podia dizer o mesmo. Até os Estados Unidos acabaram por ser levados a se envolver no conflito. O nosso país, não! Só entrou na guerra no final e, mesmo assim, sem grande entusiasmo.

O Brasil, segundo afirmava o governo de então, era uma ilha de paz e prosperidade cercada por nações que estavam constantemente sendo visitadas pelos quatro cavaleiros do Apocalipse: Fome, Guerra, Peste e Morte.

Nos tempos da ditadura militar os apelos não eram muito diferentes. Não havia uma guerra generalizada afligindo os povos, mas as evocações ao nosso patriotismo e à propalada soberania nacional eram constantes e de grande intensidade.

Soberania nacional, aliás, era um conceito que, como atualmente, valia para tudo. Tanto para justificar a necessidade de um “Estado forte” e onipresente (nos tempos de Vargas também era assim…) como para explicar as atitudes firmes e enérgicas dos nossos governantes. E também para decifrar, para o povo, a suposta independência de nossa política externa.

Nesse campo, cabe lembrar que tanto a ditadura de Vargas se proclamava livre como também os governos militares se diziam imunes às tendências políticas de então. Chegamos até a romper o acordo de auxílio militar que tínhamos com os Estados Unidos. E agora estamos praticando uma política diplomática que afirma ser independente.

Vale recordar, a propósito, que durante o “regime militar” o Brasil proclamou que o nosso mar territorial se estenderia por nada menos que 200 milhas marítimas. Até então, como nos demais países do mundo, os nossos limites no oceano eram de 12 milhas.

Para simbolizar a nossa afirmação de soberania nacional foi erguido, na época, um gigantesco mastro no centro da Praça dos Três Poderes, em Brasília. Permanece lá até hoje. E o gritante contraste entre ele e as obras arquitetônicas originais que o circundam é evidente. De tempos em tempos, cada um dos Estados da Federação arca com os custos de providenciar uma nova Bandeira Nacional para nele ser hasteada.

Mas, passadas quase quatro décadas, ninguém mais ousa discutir a importância daquele “monumento”. Sua arquitetura, dizia-se então, é de gosto duvidoso. E quem ainda se recorda sabe que ele está lá como estandarte das “nossas 200 milhas marítimas”.

Um dos principais argumentos de nossos atuais governantes se refere ao fato de que “nunca antes” a nossa economia se mostrou tão pujante e cresceu tanto. Errado. Mesmo na gestão de José Sarney como presidente da República foram registrados crescimentos anuais do produto interno bruto (PIB) superiores a 6%. Nos governos do “regime militar”, então, já é covardia. De 1968 a 1973, o crescimento anual do PIB brasileiro superou até as atuais taxas chinesas: mais de 10%.

A ideia de que o Brasil se está destacando como “potência emergente” no mundo, infelizmente, também não é nova. Os governos do período militar eram muito ciosos desse conceito. Prestei, em meados da década de 70, um vestibular cujo tema de redação era: “Os desafios do Brasil potência.” Nenhuma novidade, portanto…

É muito arriscado afirmar que estamos no limiar de uma ditadura. Mas dá para fazer a assertiva de que estamos entrando numa era autoritária. Os prenúncios são claros. Só não enxerga quem não quiser.

Uma das candidaturas à Presidência da República nas próximas eleições se regozija em reiterar que a sua titular “pegou em armas” e lutou bravamente contra a ditadura militar. Por acaso isso quer dizer que a ideia predominante, então, era a de “restaurar o regime democrático”?

Antes fosse. O que se desejava à época, na verdade, era descartar a ditadura militar e substituí-la por outra, a “ditadura do proletariado”.

O Brasil está próximo de entrar, como muitos dos nossos vizinhos, num regime “populista”. E, cabe reafirmar, todos os “populismos” são autoritários.

E tudo em nome do povo…

Artigo publicado em 04/06/2010 no jornal “O Estado de São Paulo”

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10 Comentários em “Pra frente, Brasil!”

  1. ana amelia mello franco says:

    Muito bom João parabéns ,estamos mesmo se deixarmos correndo o risco de retroceder no tempo e nos tornarmos a traves do populismo em uma ditadura mirim …

  2. Leda Muradas says:

    Pois é, a verdade está aí, basta prestar mais atenção.
    Obrigada por esclarecer aos incautos, o que está acontecendo diante dos nossos olhos desatentos.

  3. O Confrontador says:

    Prezado Deputado, falam tanto em Ditadura Militar, meus pais trabalharam honestamente naquela época, não se meteram em confusão, contruíram um patrimônio. Não estou aqui defendendo o Regime, mas aqueles ou aquelas que que lutaram contra o Regime de alguma forma, tem o seu devido valor, mas os que não lutaram também tem seu valor, pois às vezes é melhor não se meter no que não é chamado. Uma coisa é certa, ainda bem que os homens de verde daquela época salvaram o País dessa gente que está no poder atualmente, espero que a tal Ditatura do Proletariado, conforme o senhor falou, não aconteça, e o Brasil continue Brasil.

    Abs.

    @oconfrontador

  4. Avellar says:

    No Brasil que vivemos, hoje, não existe mais lugar para o radicalismo, seja ele de esquerda, seja de direita. No Brasil que vivemos, hoje, sobram lugares para os que somam.
    O nobre deputado Mellão continua confundindo popularidade com populismo, portanto, em sua visão pragmática, perigoso para propriedade privada, nefasto aos interesses do Estado, ao cidadão de bem.
    Tal como seu público teme o comunismo ou socialismo moreno, mas esquece que os regimes viraram peça de museu.
    Acha que a sociedade está anestesiada por medos e sentimentos de culpas inculcadas.
    Reduz o homem à condição anônima de grande máquina a espera de um Estado-mínimo.
    Para o liberal o pobre tem que morrer de fome.
    Não são capazes do ato de solidariedade, amor ao próximo ou socorro aos que andam pelos caminhos de pés descalços. Não sabem o valor da filantropia e da benemerência, os esforços constantes para alavancar uma melhor sorte aos que sofreram de uma desgraça imerecida. São insensíveis aos sacrifícios necessários para assegurar às classes menos favorecidas a participação no que representa o prazer e a dignidade humana.
    E o pior: detestam urnas, eleições, o sufrágio. Se possível se resolve tudo em linguagem do futebol: no “tapetão”.

  5. O Confrontador says:

    Muito bom o texto, foi devidamente retwitado. Importante destacar, que devido ao conteúdo e ao motivo do twitter O Confrontador, o sigilo quanto a identidade das pessoas que o fazem é imprescindível, sendo que nos comentários em blogs e neste, é usado e-mail’s fictícios, colhidos em listagem de usuários que nada tem haver com O Confrontador, não refletindo qq. integrante que compõe a equipe de O Confrontador.

    Atenciosamente,

    O Confrontador

  6. Danilo Hardman says:

    Prezado Ministro.
    De há muito lhe dedicamos atenção e confiança nos seus trabalhos; e cremos que isso será uma constante até terminarmos nossas tarefas por aqui. O mote: “… e a história se repete”, é muito antigo. Veja que outro dia mesmo, uma cavalaria voltou a operar da mesma forma que durante o “regime autoritário”. Aliás, essa identificação, de tão sem nexo, chega a ser hilária. Explico: todo governo,em qualquer plaga, é e deve ser formado por AUTORIdades. (as mesmas que não podemos desacatar). Portanto, são, pelo mesmo motivo AUTORItários. O que incomoda, seja qual for o apelido do chamado regime, é o desconforto causado pelas ações que causam contrariedades aos nossos interesses, aso nossos anseios, às nossas vontades. Todos querem liberdade, que, conseguida, normalmente pela proteção da chamada democracia, que seria um apelido para liberdade de expressão e comportamento, para sairem por aí a fazer o que bem entendem, e repudiar qualquer manifestação contrária das autoridades. Pois bem, acreditamos que a tão badalada DEMOCRACIA é a pior das DITADURAS. Epa! O que é isso, agora. Que absurdo é esse? Simples: a liberdade agregada ao regime democrátco, exige um autocontrole apuradíssimo, ao qual poderíamos chamar, evidete e naturalmente, de AUTODITADURA. Isso mesmo, a ditadura de si próprio. Complicado, hein? E por quê? Continua simples: basta reparar que invariavelmente, cada um de nós, para sobreviver, precisamos, ou melhor, NECESSITAMOS, de forma indispensável de um “CHEFE”, um superior hirárquico, como referência de desculpa de todas as nossas mazelas, pequenas ou enormes. Nós não queremos nos controlar. Tanto é que vivemos a nos safar exigindo exemplo de conduta do superior hieráquico: “Exemplo tem que vir de cima”. Pura baleal, o exemplo, se tiver que vir de algum lugar, não é outro, senão de DENTRO. Huuummmm… pegou essa, hein? O ideal seria, então, o que se chama de ANARQUIA, que é coisa terminantemente PROIBIDA, porque não existe o mínimo de interesse dos grupos chamados dominantes que essa moda pegue. Tanto que tem um significado pejorativo que significa BAGUNÇA, DESORDEM ou coisa semelhante. A hierarquia (do grego, hieros = sagrado, por isso rigorosa nas religiões) é algo imprescindível porque é o sustentáculo na obtenção do fator primordial na manutenção da DISCIPLINA. Não se realiza, absolutamente, coisa alguma sem uma rigorosa disciplina. Pense, por exemplo, num soldado que, ao puchar o gatilho da sua arma, frente ao inimigo, descobre que ela está descarregada. Vai se safar, pedindo ao inimigo um minutinho para voltar e, finalmente, executá-lo, para não ser punido pelo sargento. (rsrsrs). A propósito, veja bem, aproveitando a deixa: uma situação dessa seria, dentro do regime militar, dito formado por pessoas totalmente bitoladas, simplesmente um absurdo; enquanto que na sociedade civil, dita organizada (!?!?), seria, com certeza, normalíssimo, porque envolvendo pessoas inteligentes e de visão ampla. Assim: “Seu guarda, vou deixar o carro aqui, só por um minutinho”. Ou: “Lá para terça ou quarta feira…”. (rsrsrs). Este comentário poderia ser um trecho de nosso livro “PIOR QUE É… VERDADE”, que está no prelo e esperamos em breve disponível na praça. Tomamos a liberdade do texto acima, por entender que possue o mesmo tipo de DNA do artigo do amigo. Cordiais saudações literárias. Um abraço.

  7. sheila gomes ribeiro says:

    …. está muito claro para onde estamos caminhando …. só não enxerga quem não quer ver …o Brasil tem uma tendência a esse tipo de autoritarismo populista …é lamentável ver o retrocesso que se afigura e validado pelos 78% de aprovação popular !!!!!

  8. Alguém tem de pensar . E fazer pensar. Muito bom.

  9. gilda maria says:

    MUITO BOM,TEMOS QUE DESMITIFICAR ESSA ESTÓRIA Q/ DILMA E SEUS ASSASSINOS,TORTURADORES E SEQUESTRADORES LUTAVAM PELA DEMOCRACIA.ELES QUERIA IMPLANTAR UMA DITADURA COMO A DE CUBA.
    A PROPÓSITO UMA PERGUNTA PERTINENTE:”A LEI DE FICHA LIMPA” VAI SERVIR TAMBEM PARA ELA? PORQUE SE SERVIR A “DONA TERRORISTA VAI PARAR NA CADEIA QUE É O LUGAR DELA!”
    OBS: ME ESQUECI, AQUI NO BRASIL AS LEIS SÓ SERVEM PARA PÉ-DE-CHINELO,O CASO DELA VAI PASSAR “BATIDO COMO SEMPRE!!!” LADYCAT.
    AMO OS ANIMAIS PQ ELES NÃO SÃO HIPÓCRITAS!!!!

  10. Fabiano Mochiuti Coim Gomez says:

    Puxa vida, sei da minha ignorância em vários assuntos inclusive no que se diz à política. E engraçado como as coisas estão acontecendo e as pessoas não se dão conta. Como minha avó dizia na sua ignorância de semi-analfabeta; o mundo dá voltas. E acredito é por isso que quando vem algo que já foi repudiado no passado devemos agir para que não ocorra novamente.

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