Bandeirantes e Imigrantes

Publicado por João Mellão Neto Em 13 May 2010

Alguns anos atrás, ao conversar com um taxista em Roma, ele me confessou que, apesar de ter nascido na cidade, não podia dizer-se romano. “Só são consideradas romanas as famílias que estão no mínimo há sete gerações aqui”, explicou. Fiz as contas: sete gerações vezes 25 anos cada uma dá um total de 175 anos! Quando lhe disse que, para ser paulistano, basta apenas residir em São Paulo, ele não acreditou.

De certa forma, dá para entender. Roma é uma cidade com mais de 2.700 anos de história. São Paulo vai completar apenas 452 anos no próximo 25 de janeiro. As glórias de Roma repousam em seu passado. Os seus monumentos e ruínas estão todos ali, expostos, para admiração e êxtase dos visitantes que acorrem de todas as partes do mundo. Já em São Paulo não há turistas – a não ser os que vêm para cá a negócios – porque não há belos palácios ou monumentos majestosos para serem admirados. Na parte mais velha da cidade, o centro histórico, os prédios mais antigos datam das décadas de 1910 ou 1920. O Teatro Municipal, por exemplo, é de 1911. O primeiro dos edifícios, o Prédio Sampaio Moreira, com 13 andares, na Rua Líbero Badaró, foi erguido em 1924. O Martinelli, o primeiro arranha-céu, com 30 andares, foi inaugurado em 1929. Não há praticamente nada, nestes campos de Piratininga, que possua ao menos um século – o Viaduto do Chá, construído em 1892, não é o mesmo que existe hoje. Aqui se respira apenas o presente e o futuro. E são paulistanos todos aqueles que contribuem para construí-los.

Eu tenho profundo orgulho de ser paulista e paulistano. E não há nenhum resquício de soberba ou arrogância nisso. Quando viajo para outros Estados, percebo que há, da parte de muitos, uma certa má vontade com relação a São Paulo. Trata-se de um ressentimento análogo ao que muitos latino-americanos têm para com os Estados Unidos. O nosso Estado concentra um terço da riqueza do Brasil. É, mais ou menos, o que a economia americana representa para o mundo. Nasce daí, para muita gente, uma relação de amor e ódio que só mesmo a psicologia explica.

Já ouvi de alguém que nós, paulistas, somos todos “quatrocentões preconceituosos”. Na verdade, não somos nem uma coisa nem outra. A existência por aqui de famílias com quatro séculos de história é uma lenda. No início dos anos 1800, residiam, na cidade de São Paulo, apenas 11 mil pessoas. Éramos  um simples povoado, paupérrimo, com uma população de índios, mestiços e negros que era maioria diante dos brancos  descendentes de portugueses.

Com relação aos nossos supostos preconceitos, basta lembrar que nossos últimos prefeitos, legitimamente eleitos pela maioria do povo, foram:  um mato-grossense de aparência e hábitos invulgares; uma mulher, retirante nordestina; um filho  de imigrantes árabes; um carioca afrodescendente; e outra mulher, que exercia a pouco convencional profissão de sexóloga. Nada disso os impediu de governar São Paulo, nada disso lhes foi desvantajoso na conquista dos corações e das mentes  paulistanas.

São Paulo é uma cidade  aberta. Nossa maior riqueza são os imigrantes, de todo o Brasil e do mundo, que aqui aportaram em busca de um sonho. A elite econômica paulista é toda ela composta por seus filhos e descendentes. Temos a liderá-la um Skaf, um Szajman, um Afif, um Magliano e vários outros, quase todos com sobrenomes estrangeiros.

Foi essa gente que fez de São Paulo aquilo que São Paulo é. Somos a quarta maior metrópole do mundo. O Estado de São Paulo, com seu PIB equivalente a US$ 270 bilhões, se fosse um país, seria o segundo mais rico da América do Sul, à frente da Argentina. Mais ainda: se fizesse parte dos Estados Unidos, ocuparia o sexto lugar dentre os seus 50 Estados, atrás somente da Califórnia, Nova York, Texas, Flórida e Illinois.

Mas o aspecto que mais se destaca, em São Paulo, é o fato de que nos fizemos por nós mesmos.

Se a incomparável beleza do Rio de Janeiro é um tributo à natureza; se a imponência de Brasília é uma ode ao Estado, a pujança de São Paulo é um monumento à livre iniciativa. Nunca fomos capital da Nação, nunca um rei viveu por aqui. Esse gigantesco agulheiro de aço e concreto, que sobe e desce colinas até se perder de vista, foi todo ele erguido por empreendedores particulares.

Até mesmo nossos palácios, nós os devemos à livre iniciativa. A antiga sede do governo do Estado, o Palácio Campos Elísios, era a residência do empresário Elias Chaves. O Palácio dos Bandeirantes foi erguido, originalmente, para abrigar faculdades privadas. O Palácio do Anhangabaú, onde está a Prefeitura, era sede das Indústrias Matarazzo.

Nós vasculhamos o passado e percebemos que desde sempre foi assim. Sobre os primeiros tempos, há um livro, de Roberto Pompeu de Toledo, que nos retrata como “a capital da solidão”. Longe do litoral, distante dos centros econômicos da colônia, sem riquezas naturais ou qualquer outro atrativo, nós vivemos isolados e esquecidos através dos séculos. Isso não impediu que nossos bandeirantes, movidos apenas pela sua coragem e por seu espírito de iniciativa, se embrenhassem pelos sertões afora e fizessem do Brasil o gigante que ele é hoje. Nossa cidade, até o final do Império, ainda disputava com Santos e Campinas a condição de maior cidade da província.

Vencemos. Somos o que somos porque tivemos a ousadia de ser o que fomos. Construímos, sozinhos, cada palmo desse abençoado chão. Se somos  grandes é porque, através da História, nosso povo também o foi. Sozinho, sem ajuda de ninguém.

Obrigado, São Paulo. Obrigado por poder me dizer um dos teus.

Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em janeiro de 2006.

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6 Comentários em “Bandeirantes e Imigrantes”

  1. Ceci Cardoso says:

    Como paulistana e orgulhosa de minhas origens, digo que o seu artigo está excelente, parabéns!
    Durante todo o ano de 1972 morei em Porto Alegre, para onde meu pai se mudou levando toda a família, devido a transferência de local de trabalho. Foi especialmente inesquecível o que pude observar naquele ano em relação ao sentimento de hostilidade dos colegas de escola gaúchos, para comigo e meus irmãos, simplesmente por sermos paulistanos. Eu tinha doze anos na época e procurava entender porque os coleguinhas do sul se comportavam assim, principalmente porque não ostentávamos soberba nem arrogância, tal como é citado no seu texto.
    Esse preconceito contra os paulistanos é, de maneira geral, mais ou menos, sentido também em outros Estados brasileiros. Na minha opinião, a única explicação para isso é uma falta de amadurecimento intelectual, o que considero lamentável.

  2. Francisco says:

    Bom dia, Sr. Mellão. Como carioca, concordo com seu ponto de vista. Eu trabalhei como músico profissional durante muitos anos. Viajei muito, e muito dessas viajens tinha como destino São Paulo. Uma coisa que eu não podia comentar com meus amigos músicos cariocas era o título de melhores e mais profissionais do Brasil merecidamente cedido aos músicos paulistanos, pois gerava ciúme. Mas eles são, definitivamente: esforço, dedicação, humildade, profissionalismo, entre outras qualidades, não são raras entre os músicos paulistanos, o que aqui, são sim. Se o Sr. por curiosidade for em uma feira de música em São Paulo, que acontece mais ou menos todo mês de setembro, ficará impressionado com o que verá. Todos são bons, desde os eruditos, passando pelos jazzistas e rockeiros. As melhores escolas de música, concebidas com muito suor e dedicação, são de lá ou, se existem em outros estados hoje em dia, o ponto de partida e o exemplo tem a origem neste estado. As melhores distribuidoras de instrumentos, marcas brasileiras, enfim, a melhor estrutura possível também. E estou falando apenas da minha ex-carreira. Esse povo, ao invés de ser visto e interpretado por alguns com pontos negativos injustificáveis, deveria ser admirado por todos, porque há muito o que aprender com ele. Pelo menos para quem quer ter uma carreira e uma postura séria. Abs!

  3. Rogério Gandra Martins says:

    Caríssimo Professor Dr. João Mellão,
    Nestas fantásticas linhas, como é de costume, o senhor disse tudo aquilo que sinto, como paulista e paulistano tenho orgulho de dizer.Amo São Paulo e São Paulo foi feita à base da sociedade privade, da livre iniciativa. do mercado pujante que nos tornou a maior potência do Brasil.Não existe arrogância em São Paulo, pois nossas portas sempre estão abertas a todos.Que diga algum brasileiro ou estrangeiro que aqui chegou se foi “marginalizado” ou desprezado por suas origens.Não, não temos isto.Vivemos do trabalho e do acolhimento a todos.Caso contrário não seríamos estaa capital e este Estado cosmopolita que somos.
    Com a clareza e com a cultura do senhor soube desmitificar a falsa simbologia do “quatrocentismo” que ainda permancece no inconsciente coletivo de pessoas que não conseguem entender este gigante que cresce a cada dia chamado São Paulo.
    A comparação com Roma foi perfeita.Roma é um sonho de história eo quanto se respira a cada rua, fonte, monumento seus mais de 2000 anos? Não temos isto e nosso crescimento foi a base de abrir as portas a todos que queriam uma sociedade livre, onde se pudesse trabalhar e ter uma vida digna.Crescer os negócios, família, criar industrias, trazer emprego, renda…São Paulo é tudo isto.
    Como descendente de português li nos escritos sobre meu avô, que na década de 20 chegou a cidade de São Paulo.Não se tratava de uma iigração aristrocrática mas de um jovem português da região de Braga, da cidade de Vila Verde e que chegava aqui com o ânimo de trabalhar e fazer sua vida.Não tinha fortuna.Uma passagem de navio e alguns trocados para iniciar seu ofício.E São Paulo o recebeu, assim como inúmeros, das mais diversas regiões, dentro e fora do País.Meu avô, que desta vida já partiu, constituiu uma empresa de perfumes, nada grandioso, mas a força de seu trabalho incansável, casou e teve quatro filhos.A cidade lhe encantou, pela oportunidade que dava para aqueles que aqui vinham e sem preconceitos de qq. gênero.Para simbolizar seu amor pela cidade fez-se sócio do time que levava o nome da cidade, daí nascendo o amor da família pelo São Paulo Futebol Clube.
    Sei que o espaço deste blog não visa comentários futebolísticos, mas a passagem foi para ilustrar seu amor pela cidade.Meu avô se foi há uma década por uma fatalidade e em plena lucidez aos 102 anos.
    Ao chegar ao hospital após um acidente e antes de ser submetido a uma cirurgia de urgência tiraram-lhe as vestes, o terno que fazia sempre questão de usar, para sempre manter a sobridade, e por baixo de toda vestimenta lá estava a camisa do clube que escolhera na década de 30 e que trazia o nome da cidade!
    Fomos todos, filhos e netos educados a amar nossa terra.Meu querido pai, nasceu em São Paulo e incutiu-nos o mesmo espírito!
    Minha esposa foi sócia de um Café situado bem no lugar onde São Paulo foi fundada, no Pátio do Colégio.Durante os anos que permanceu lá, constantemente olhava para o jardim onde Anchieta celbrou a primeira missa, assim como o muro de taipa, talvez a recordação mais antiga da fundação da cidade, mas este mesmo já tinha siso não só restaurado mas em parte reconstruído.Quantas vezes pensei.Que orgulho estar aqui onde São Paulo foi fundada.Mas São Paulo parece ser avessa a tradições.O lugar era frequentado por turistas que vem a trabalho, como o senhor bem falou.E aproveitavam o domingo para visitar alguns de nossos pontos turísticos.
    Mas São Paulo não vive e se estanca no passado.Temos nosso legado cultural mas acima de tudo olhamos para a frente e acreditamos na nossa sociedade acima das benesses do Estado.Acreditamos que podemos, assim como meu querido avô na década de 20 e com poucos tostões no bolso acreditou.Acreditamos no mercado, na sociedade privada, e nos valores do ser humano.Por mais fria que nossa cidade possa parecer ser, temos muito a ofertar.”Exportamos” PIB para o Brasil ao mesmo tempo que acolhemos aqueles que aqui quiserem chegar.
    São Paulo é uma cidade cheia de defeitos, como toda grande capital do mundo.Mas para ser uam das grandes capitais do mundo não só em tamanho mas também em desenvolvimento, temos que ter nossas virtudes.E como temos!E como isto nos orgulha!
    E para sermos a maior capital do Brasil e da América do Sul, tinha que ser imprescindível qie o estado não interferisse em nossa sociedade privada, que acreditássemos na livre iniciativa e a colocássemos em pratica.SE ficássemos a esperar auxílio do Estado talvez fossemos hoje uma modesta capita de um modesto estado do Brasil!Acreditamos e enquanto São Paulo continuar acreditando que o crescimento se faz pela sociedade não pelo Estado, que a livre iniciativa é para todos e que este é o caminho para o crescimento, continuaremos crescendo e acima de tudo, desenvolvendo-se.
    São Paulo está de parabéns.Tem problemas?Sim.Que cidade não tem.Mas problemas existem sempre e se existem são para ser superados.
    E São Paulo tarimbou-se em superar problemas!
    Belíssimo artigo Professor Mellão!
    Mais uma ala!
    E que aula!
    Saudações liberais do eterno discípulo,
    Rogério Gandra Martins

  4. carlos says:

    Ola Melão. Acabei de ler que o ator que protagonizou o lula no filme morreu.
    A tempos tenho notado que a grande sorte que acompanha o lula, traduz-se no azar das pessosa que se relacionam com ele. A historia de lula possui muitas tragédias alheias.
    Se cuida dilma.

  5. Arias Roberto says:

    Apesar de Brasília ter apenas 50 anos, goza de uma rica história, mas, infelizmente, não dispomos de pessoas com essa disposição para enaltecer as virtudes de uma grande cidade. Nós brasilienses não aprendemos a valorizar o nosso produto e, apesar de fornecermos para o mundo Kakás, Lúcios, Piquets, Renatos Russos, dentre outros, somos axincalhados por causa de Rorizes, ACMs, Arrudas e congêneres, que para cá vêm e disseminam uma politicagem pérfida, borrando a imagem de nossa Terra. Minha decepção com o meu povo advém, principalmente, do fato de não saber valorizar a prata da casa, tendo-a como sem valor. Admiro muito as grandes personalidades de outros Estados e Países, mas a lição que transmitem e que mais me acicata o espírito é justamente o orgulho que têm pelo seu torrão e o fato de o agigantarem e não aceitarem, como é exemplo Vossa Senhoria, que mentes medíocres rasurem a história de tão valoroso berço.
    Novamente, agradeço a aula.

  6. Robert says:

    A cidade de São Paulo passou 350 anos como uma das mais miseráveis capitais do Brasil. Na própria região era suplantada por Itu, Santana do Parnaiba. No Vale do Paraiba, Taubaté lhe fazia sombra com sua fundição de ouro e inúmeras bandeiras explorando o “sertão de Taubaté” (hoje Minas Gerais). Somente no século passado ocorreu essa virada fantástica, talvez única no mundo, que transformou São Paulo no que ela é hoje.

    Pois bem. Nesses séculos que São Paulo viveu na pobreza, com seus habitantes mal vestidos, mal alimentados (sequer tinham sal), dizimados constantemente por doenças terriveis, sem qualquer expressão cultural (na literatura, música, etc), o Nordeste, e depois o Rio de Janeiro, viviam muitissimo bem, se permitindo luxos próprios da corte de Portugal, desfrutando ainda de agitada vida cultural, com escritores e músicos brilhantes, enfim uma vida “civilizada”.

    É de estranhar que não seja contestada a imagem que hoje se vende do Nordeste de uma região preterida, que sempre foi maltratada, sem recursos, vitima de preconceito do Sul. Enquanto isso, São Paulo é percebido como o vilão nesse jogo politico, ainda que tenha obtido seu desenvolvimento exclusivamente à custa do esforço de seus habitantes, após 350 anos de penúria, sem qualquer ajuda dos primos ricos do Nordeste ou do Rio de Janeiro, e inexistindo qualquer hostilidade dos paulistanos e paulistas contra qualquer daqueles estados, muito pelo contrário, todos sempre foram muito bem recebidos e acolhidos em São Paulo.

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