Domingo pela manhã, eu lia os jornais quando meu filho Ricardo, de 17 anos, em silêncio, se sentou ao meu lado. Ele sempre faz isso quando quer esclarecer alguma dúvida. Fechei o “Estadão” e me prontifiquei a ouvi-lo.
_Pai, você acredita, realmente, que Cristo existiu?
O Ricardo esperava de mim respostas consistentes. Quando somos crianças nos ensinam o catecismo através de conceitos muito infantis. Quando nós crescemos e as dúvidas surgem não há mais ninguém ali para dirimi-las.
Eu não poderia me furtar ao desafio. Preparei-me mentalmente para uma conversa longa e difícil. A missão era nobre. Faria pelo meu filho algo que não fizeram por mim: falar sobre Cristo de uma forma adulta.
_ Meu filho, na sua idade, eu era quase ateu. Mas chegou o dia em que, sem perceber, eu percorri a estrada de Damasco… Cedo ou tarde, todos nós temos que percorrê-la…
_ Que estrada é essa, pai?
_ Damasco é uma cidade, hoje, capital da Síria. Foi a caminho dela, lá pelo ano 35, que Saulo, um cidadão romano, viu-se, frente a frente com Jesus. Através de uma luz que desceu do céu, Cristo o convocou para o seu serviço. Saulo, até então um perseguidor de cristãos, caiu por terra e ficou cego por dias.
_ Saulo converteu-se ao cristianismo?
_ Mais do que isso, meu filho. Ele foi incumbido de uma grande missão, algo que mudaria o curso da História.
Jesus estava morto. Seus apóstolos e seguidores haviam presenciado os fatos mais impressionantes de toda a história humana, mas atônitos, estupefatos, não ousavam interpretá-lo. Não havia ainda uma doutrina cristã e o Grande Milagre não repercutira além das fronteiras da Palestina. O cristianismo poderia se extinguir por ali. Cabia a Saulo, a missão de salvá-lo. Ele haveria de interpretá-lo, sistematizá-lo e propagá-lo por toda a Humanidade.
Saulo foi batizado como Paulo e é hoje o nosso São Paulo. Ele, então, tinha as mesmas preocupações que você. Como fazer para que todos os povos, das mais diferentes culturas, acreditassem em Cristo?
Ele tentou, de início, persuadi-los com argumentos racionais. Pregou aos atenienses, no Areópago, e tudo o que conseguiu foi ser zombado e ridicularizado.
Retirou-se de Atenas humilhado. Como era possível? Se ele tinha tanta fé em Jesus Cristo, porque não conseguia levá-la aos outros?
Fé… Era esta a resposta! Naqueles tempos havia deuses demais. Todos eles imaginários, cada qual com a sua história, e todas as histórias eram plausíveis.
Mas Cristo, não! A idéia de um Deus que se fez homem e – apesar de todo o seu poder – submeteu-se a morrer na cruz; não era uma noção racional. A idéia de um Deus que se deixou martirizar para redimir os pecados de seus algozes, tampouco era algo plausível.
A história de Cristo era absurda e, assim sendo, não podia ser fruto da imaginação. Por ser absurda só poderia ser verdadeira!
São Paulo, então, decidiu abandonar os argumentos. Não era preciso provar. Passou a pregar unicamente com base na fé. Era a fé que justificava Cristo. E somente pela fé os homens se salvariam.
Foi assim que São Paulo converteu povos, arrastou multidões e fundou uma religião universal.
Meu filho, a essa altura, já se mostrava sensibilizado. Mas algo, ainda, o incomodava.
_Pai, por mais que tenha fé em Cristo eu não consigo assimilar a sua mensagem. Como é possível amar até mesmo aos nossos inimigos?
_ Filho, há três níveis de amor: o nível inferior é a paixão. Não é uma virtude, visto que é egoísta. Queremos alguém para nós, somente para nós e não suportamos a idéia de ver esse alguém feliz nos braços de outro. O segundo nível é o amor, em si. É o amor desprendido, o amor não possessivo. É o amor que os pais têm pelos filhos; que os casais mais maduros nutrem entre si. O bem do outro é o nosso bem; a felicidade do outro é a nossa própria felicidade. Esse amor já é uma virtude, pois implica em renúncia. Mas ainda há nele algo de egoísta. A mãe, que ama o seu filho, com certeza não ama os filhos das demais. O nível superior, o mais sublime, é o amor cristão. O amor revelado na Cruz. Amamos a todos porque amamos a Deus e porque sabemos que Deus ama indistintamente a todos. Este sim é o verdadeiro amor. E somente São Paulo, sob inspiração divina, soube interpretá-lo.
Li em voz alta para o meu filho:
“Ainda que eu fale a língua dos anjos, se não tiver amor não serei mais que o sino que soa ou o címbalo que retine. Ainda que eu tenha a plenitude da fé, se não tiver amor nada serei.
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.
O amor não maltrata, não procura seus interesses, não se ira nem guarda rancor.
O amor tudo protege, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o conhecimento passará.
Só o amor nunca perece.
Do que é Perfeito, agora, vemos apenas um reflexo obscuro, como em um espelho. Mas chegará o tempo em que O veremos face a face. Agora O conheço em parte; então O conhecerei plenamente, da mesma forma como sou por Ele plenamente conhecido.
Agora, pois, permanecem fé, esperança e amor, estas três coisas: porém a maior delas é o amor.”
Ao final, o silêncio. Meu filho estava comovido. Eu o pusera na estrada de Damasco.
Daqui em diante ele terá de percorrê-la sozinho. Cumpri a minha missão. Ad majorem gloriam Dei.
Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em abril de 2003.




Que espetáculo meu caro amigo , parabéns !!
Lindo artigo, emocionante , bastante adequado , principalmente para estes dias , denominado Semana Santa , você o fez de uma maneira tão tocante ,tão plena , que eu mesma me emocionei.
Quiçá todos tivessem o privilégio de conhecer a “estrada de Damasco”
Tudo passará só o amor nunca perece.
Bela lição de amor
Grata
Marina
João
Gostei muito de ler seu artigo a”estrada e Damasco”
Parabens ,você é brilhante!!
Abço
Vera Masagão
Joao
A estrada e Damasco!
Que artigo, que menssagem.
Que verdade… que hoje está tão oculta em meio a névoa cinza que permeia boa parte da nossa midia.
Que Deus te ilumine sempre!
Abraço Grande e uma Páscoa que nos faça pensar menos em ovos e mais na verdadeira história que originou esta data!
Nossa Joao, fiquei comovida com a historia! Estava ja deitada, pronta para fazer minha oracao, quando resolvi finalmente ler o seu artigo! Que palavras tocantes! Obrigada! Que Deus te abencoe! Boa noite!
Oi amigo Mellão,
Eu também tenho um filho de 17 anos, que lê muito, é muito inteligente – aí não puxou o pai – mas não é muito chegado em religião. Nós o batizamos com o nome de João Paulo, numa simples homenagem ao grande Papa.
Gostaria de ler o seu texto para ele. Entretanto não quero impôr nada. Vou guardar esse texto e esperar. Quem sabe um dia ele se interesse pelo assunto e, aí sim, eu entro com esse texto. Tenho certeza que vai funcionar.
Um grande abraço do amigo,
Sebastiao Albano
Em certo sentido o senhor nos dá um bom exemplo de Redenção, o que pregava o Cristo.
Como escreveu Paulo de Tarso, o Apóstolo do caminho de Damasco, em carta aos romanos, “a verdade deve ser amada e seguida como única” (Una quae est omnia).
Podemos dizer que a verdade deve ser perquirida e quando encontrada amada como única forma de esclarecer as leis divinas.
Desculpe Melão, mas meu filho eu ensinei que cristo nunca existiu. É um simbolo da ideologia canônica católica romana. Ou seja, Roma decadente, beirando a guerra civil teria que criar, nos termos do direito romano, com as mesmas hierarquias e regras, uma instituição canônica, baseada no judaísmo, onde a fé, o amor e a esperança, conformasse os famintos e acalmasse os celerados.
Lembre-se que historicamente não há provas de sua existência.
Parabens. Muito sensato e equilibrado os seus comentários. Tenho uma filha de 8 anos e quero estar preparado para, quando chegar a hora, ter a sensatez necessária para coloca-la “NO CAMINHO DE DAMASCO….”!
Deus o abençoe e lhe de uma feliz pascoa!
Pensei que a fé que nos vem do contexto da vida, quer seja por Cristo (Paulo), quer seja pela simples nobreza das almas que tem sorte de ter o “perceber” o “entender”, fose coisa de poucos e dos afastados das “grandes realizações” dos homnes. Se Cristo ( o Histórico) não tivesse existido, mas seu “nome” nos tivesse legado os ensinamentos de que deveria fazer uso a humanidade, ainda assim, pouca inteligência seria suficiente para estudar e cultuar tão úteis e tão singelos conceitos. Entre outras coisas disse êle um dia aos judeus do templo: Homens de cabeça dura meu reino não é o reino de vocês ~”deste mundo” ou seja do mundo em que vocês estão enterrados até os cabelos.
Quando fizeram o primeiro bebê de proveta, disseram que não precisriamos mais de Deus. Quão pequena é a inteligência dos homens, pois inseminações artificiais vem sendo feitas na natureza pelas flores, e até nos pântanos pelos marecos. aos quintilhões desde sempre….
Caríssimo Professor João Mellão,
Não tenho palavras para descrever quão belo é o artigo.
Geralmente costumo escrever posts grandes nos belos ensinamentos dos artigos do senhor.
Mas este é aquele que no qual fogem as palavras.
É daquelas “masterpieces”.Não precisa comentar.Basta admirar.
Uma espécie de Pietá, Monalisa, Primavera de Botticceli…. é ler e apenas admirar e meditar.
Li duas biografias completas de São Paulo e o artigo me comoveu.As duas biografias são da Editora Quadrante (www.quadrante.com.br).Conhecendo pormenores da vida de Saulo de Tarso, que maestria em sintetizar e transmitir algo tão belo professor.
Parabéns mais uma vez e uma Feliz Páscoa ao senhor, ao seu filho, esperando que na sua estrada de Damasco encontre as inquietações que rondam a cabeça e o coração.
Faço questão de presenteá-lo com estas duas obras fantásticas da vida de São Paulo.
Feliz Páscoa!
Coridais abraços extensivos a toda família!
Do eterno aprendiz,
Rogério Gandra Martins
Parabéns pela inspiração, que além de contextualizar a grande missão de Saulo de Tarso, nos fez refletir sobre quantos palmos de nossa estrada pessoal e intransferível já cursamos. Feliz e produtiva semana santa ao amigo e sua família.
Infelizmente ainda existem pessoas que agem tal qual Tomé, ou seja, só creem naquilo que veem. Este Cristo que muitos dizem não acreditar, conseguiu um dos maiores feiros da história da humanidade que foi dividir a história em antes e depois, e isto já é mais do que suficiente para cre neste ser divino que nos ensinou, dentre tantas coisas, a essência do verdadeiro amor. parabéns.
Mario Cesar, quem dividiu a história foram os romanos com suas instituições milenares. O sonho acabou.
CARO MELÃO!
Muito boa sua posição Cristã diante de seu filho!
Mas como nos exorta apóstolo Pedro em sua segunda carta “Antes crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”.
Mas para esse crescimento precisamos voltar a Escritura (Bíblia)
pois ela e que nos faz crescer nessa graça e nesse conhecimento!
Portanto toda a Bíblia é Cristocêntrica de Gênêsis a Apocalipse
no velho testamento Cristo está latente e no novo patente.
Vamos corrigir apenas que o apóstolo Paulo não fundou o Cristianismo mas foi um grande pregador por todas as igrejas que passou anunciando Cristo ressureto e que ele viria novamente para levar a sua Igreja
O fundamento do Cristianismo está em Matheus 16 13-19 quando o Senhor Jesus pergunta a Pedro – Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou? -Pedro responde dizendo! TU ÉS O CRISTO, O FILHO DO DEUS VIVO!! então, Jesus afirmou: Bem aventurado és Simão Barjonas (Pedro), porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai que estas nos céus, tambem digo que tu és Pedro, e que sobre esta Pedra edificareis a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela, a Pedra é a afirmação de Pedro “TU ÉS O CRISTO, O FILHO DO DEUS VIVO” e não Pedro como pedra, como nos é ensinado!
Mas Melão o crescimento em Cristo é árduo! portanto requer meditação, afadigar sobre a palavra porque é revelação de Deus para o homem e temos q pedir ao Espírito Santo que nos ilumine!
LEIA COM SEU FILHO! Apóstolo Paulo ao jovem Timóteo as duas Cartas!
Melão vc é o jovem Timóteo, eu e o seu filho e a todos que aceitam Cristo como unico e suficiente Salvador!
vc acredita que eu estou bestificada com tanta coisa bonita e principalmente do jeito que vc escreve, me lembra paulocelho,maravilhosvcs dois,vc esta de parabens, o mundo precisa de pessoas como vcs,isto e colirio e musicas para nosssos olhos e ouvidos.