Artigo publicado em abril de 1988 no jornal “O Estado de São Paulo”
“Quando a floresta pegou fogo, todos os animais, com exceção do beija-flor, fugiram. Este, desesperado, fazia sucessivas viagens até o córrego, onde enchia o bico de água para depois despejá-la sobre o fogo. Frente à gozação dos demais bichos, argumentou:
- Pode ser que não funcione, mas pelo menos eu estou fazendo a minha parte…” (Fábula popular).
Pode parecer pieguice, puritanismo ou udenismo anacrônico, mas o fato é que, devido à exclusão das demais hipóteses, constata-se, hoje em dia, que a grande crise do Brasil não é a social, a política ou a econômica, mas sim a moral. Embora este tema conte com o desprezo dos poetas e a indiferença dos ideólogos, basta uma passada de olhos pela história para se perceber que o principal fator de erosão de todas as civilizações não foi a iniqüidade social, a crise política ou a depressão econômica. Os grandes impérios só se esfacelaram quando aos seus povos faltou moral, quer no sentido feminino, quer no sentido masculino da palavra.
Japoneses, por um lado, romanos, pelo outro, ambos os povos demonstraram, de forma cabal, como uma nação pode erguer-se ou destruir-se tão-somente em função do grau de coesão social, ética e ideológica de seus povos. O impasse do Brasil, nos dias que correm, tem muito a ver com isso.
Uma nação que possui, ainda, 50% de suas terras inexploradas, dois terços de suas reservas minerais no subsolo, um imenso contingente humano a ser agregado, não se pode dar ao luxo do niilismo e da desesperança. Temos sertões, é certo, mas não temos desertos. Sofremos secas e enchentes, pode-se concordar, mas jamais vivenciamos tragédias como nevascas, furacões ou terremotos. Não nos afligem conflitos religiosos como os do Líbano ou da Irlanda do Norte; raciais, como os da África do Sul; ou étnicos, como os da União Soviética. Sequer as diferenças ideológicas, no Brasil, são inconciliáveis a ponto de levar os cidadãos a pegar em armas e destruir tudo aquilo que diversas gerações trabalharam séculos para construir. Não há, felizmente, em nosso país, nenhum problema que não possa ser resolvido, impasse que não possa ser superado, litígio que não possa ser negociado.
A culpa de nossos males não poder ser atribuída à economia. A revolução industrial, que nos países desenvolvidos custou três séculos para se consolidar, no Brasil se implantou em apenas 50 anos.
Tanto nossa indústria automobilística como a naval e a aeronáutica estão todas entre as dez melhores do mundo. Exportamos aço e automóveis para o outrora império do aço e dos automóveis. Vendemos aviões, quem diria, para a gloriosa Royal Air Force, construímos estradas e barragens para o continente africano, exploramos petróleo nas arábias, repassamos tecnologia para inúmeras nações do planeta. A industrialização do Brasil, felizmente, não nos custou uma guerra civil, como nos EUA, uma revolução burguesa, como na França, ou um genocídio como na Rússia. A tão decantada “revolução de 30” foi pouco mais que um movimento de tropas. E, desde então, estamos crescendo a uma taxa média de 7% ao ano, o dobro da média dos países desenvolvidos, mais que o triplo da média dos países subdesenvolvidos.
Passamos por quase todos os tipos de regime político, do revolucionário ao institucional, do caudilhismo populista à ditadura militar, tivemos gorvenos fortes e governos fracos, desenvolvimentistas e austeros, autoritários e demagógicos. E nem por isso o Brasil deixou de crescer, como que zombando e menosprezando todos os absurdos que a classe política sempre nos proporcionou. O Brasil, é a grande verdade, teima em crescer, com, sem e apesar dos governos que tem.
A crise que hoje vivemos, sem dúvida, também será superada. Mas para tanto, é necessário uma dura autocrítica. Embriagamo-nos de falsa democracia, deixamo-nos levar pelo discurso fácil dos demagogos. Eufóricos, impacientes, preferimos a rapidez da cocaína à segurança da vitamina. Estamos pagando um preço alto por tudo isso.
A crise é sobretudo moral. A ética do trabalho foi abandonada, a honestidade tornou-se uma virtude obsoleta, sonhamos todos com a riqueza fácil, obtida através da lei do menor esforço. Hedonistas, pusilânimes, amorais, nos julgamos todos muito “expertos”. Ao invés de produzir riquezas, gastamos nosso tempo descobrindo fórmulas de nos apropriarmos da riqueza produzida pelo alheio. O que poucos percebem é a impossibilidade lógica de todos serem “expertos” ao mesmo tempo. A soma das malandragens individuais não leva ao progresso econômico, mas sim à autofagia coletiva.
Vivemos em um país abençoado, pena que nunca tenhamos parado para pensar nisso. Nossos problemas nos parecem grandes simplesmente porque estamos de joelhos. Basta que nos ergamos para que eles adquiram sua real dimensão. Como diziam os sábios antigos, nem tudo que se enfrenta pode ser superado, mas nada pode ser superado até que se enfrente.
A floresta está se incendiando e nós, como os animais da fabula, tratamos tão-somente de salvar nossas peles. É preciso, mais do que nunca, que cada um se digne a fazer a sua parte. Só assim faremos jus à terra onde nascemos.
Como bem definiu Lincoln, em momentos mais críticos do que os que vivemos, ninguém se torna patriota simplesmente por se orgulhar de sua pátria: patriota, de fato, é quem vive e trabalha de forma a que sua pátria, isto sim, tenha orgulho dele.
Levantemo-nos.




João.
Como comentávamos por ocasião de nosso apontamento, a palavra berço teve seu sentido distorcido em função da expressão “nascido em berço de ouro”. Ter nascido em berço de ouro significa ter nascido em uma família rica. Ter berço, não necessariamente. Antes, quando se queria dizer que alguém era bem nascido, dizia-se que tinha berço.
Mas o que significava ser bem nascido?
Ser bem nascido não tem absolutamente nada a ver com dinheiro.
Ter berço significa que a pessoa nasceu em uma família com muitas virtudes, com princípios, e retidão de atitudes.
Os princípios norteiam a vida do começo ao fim. São as proposições que irão orientar todo o desenvolvimento posterior da pessoa. Através dos princípios se chega à retidão nas ações, pois tudo está contido na razão dos princípios. Quando eles não existem, tudo fica flutuando na alma das pessoas, por melhor que ela seja. Nada fica claro para os que se deixam governar pelas opiniões superficiais ou alheias, pois consideram as coisas desconhecidas como conhecidas e concordam com elas sem reflexão.
Para se chegar aos princípios é necessário formar um juízo acerca de cada coisa. E, para se formar um juízo certo e transparente não se pode ter olhos superficiais. É preciso ler, trocar idéias, ouvir, observar profundamente a vida e o ser humano e principalmente pensar muito, para se alcançar à verdade de cada um e à sabedoria.
Quando se forma um juízo acerca dos opostos da vida como bem e mal, justo e injusto, honesto e desonesto, digno e indigno, nobre e torpe, útil e inútil, vencer e perder e assim por diante, obtém-se certezas e convicções, para saber que valor dar a cada coisa. Conforme os princípios, assim serão os pensamentos, ações e a vida.
Portanto, tem berço aquele/aquela que nasce em uma família com princípios, pois presume-se que sua formação será elevada, seu caráter forjado e conseqüentemente, ele/ela também primará por uma conduta ilibada.
No entanto, a desintegração e a inversão de valores principalmente morais que têm ocorrido em todos os setores da vida, tanto públicos, quanto pessoais tem levado a grandes distorções.
Os fatores levados em conta para se valorizar ou não as pessoas eram justamente sua formação de berço, aptidões, tendências, temperamento, força de vontade, iniciativa, coragem, visão, responsabilidade, honradez, senso de comprometimento, índole, caráter e valores humanos. Hoje, não são mais valorizadas pelo acervo que representam. São valorizadas pela riqueza, poder, fama e influência que exercem. Conseqüentemente, todos querem ter muito dinheiro, poder e fama, pois assim se sentirão valorizados e terão influência.
A grande admiração pela riqueza fez com que o que antes era conquistado pela virtude, hoje seja conquistado pelo dinheiro.
Com este tipo de princípio está sendo educada nossa juventude.
Trata-se de uma inversão perigosa e significa uma regressão.
Há mais de dois mil anos, Cícero (Marco Túlio Cícero – 106-43 a.C. – senador e figura proeminente da política Romana), já dizia: “Não há no mundo espetáculo mais triste, que uma sociedade em que o valor dos homens é medido pelas riquezas que possuem”.
Fico pensando em quanta gente se preocupa em cultivar apenas o corpo e o bolso e se esquecem do intelecto, do caráter, do coração e da alma. Há sim uma crise moral.
As conseqüências da super valorização do dinheiro são inúmeras.
Em nome do aumento da riqueza vale tudo. Competição inescrupulosa, corrupção desenfreada, falta de ética, falta de respeito ao próximo em todos os sentidos.
Não há mais nada desonesto se o resultado em dinheiro for satisfatório.
Não se pode esquecer também da ambição desmedida, que se vê atormentada permanentemente pela inveja. Sim porque sempre vai haver alguém que tem mais dinheiro.
As profissões não são mais escolhidas por aptidão nata, por dom ou tendência. São escolhidas por quanto dinheiro renderão.
Outra conseqüência é a desesperança. Aqueles que não conseguem gerar muito dinheiro sentem-se desvalorizados, excluídos do “clã dos bons”.
Há ainda os que por não conseguirem chegar onde estão os ricos, resolvem destruí-los. É mais fácil, sem dúvida.
Os jovens encontram-se perdidos. Ensinam-lhes a disputar, não a viver. Por isto, a maioria é carente de conteúdo de valores da vida, vive sob completa falta de propósito, objetivos e direção.
Primeiro, vimos garotos matando pessoas no meio da rua para roubar e comprar um tênis de marca. Agora já vemos filhos matando pais por dinheiro.
O que mais é preciso acontecer?
Não sou contra o dinheiro. Ao contrário.
Sou contra o dinheiro como valor supremo. Sou contra as pessoas descerem tão baixo para conseguir dinheiro.
Acho que antes o que importa com relação ao dinheiro, é como o ganhamos, como o empregamos e como gastamos.
Precisamos urgentemente resgatar os princípios, valores e ideais que estão além de cada pessoa em si mesma. Princípios que se expressem em atitudes reais a serviço do ser humano e da sociedade, ideais que tragam de volta o senso de sentido à vida.
Precisamos reencontrar os valores perdidos, que são a força construtiva para o ser humano e enriquecem o espírito de excelência.
Abraço
Patrícia Lobo d’Eça
Caro Jornalista, levantemo-nos, pois nossa desgraça é unicamente moral, como você dissertou com muita propriedade. Parabéns pelo texto apartidário, político e intensamente reflexivo. Bom fim de semana.
Seus trabalhos são excelentes e vão direto ao ponto.
Lamentavelmente,vivemos hoje o culto do TER em vez do SER.
Cumprimentos,
Euridice Lotito.
Oi João,
Só ontem, por acaso, descobri seu blog e, como sempre, gostei do seu texto. Perfeito.
Sou seu admirador desde os tempos de jornalismo da Record e já lhe escrevi algumas vezes. Não sei se você se lembra.
Você cita Lincoln no final do texto e esse é a figura histórica com a qual eu mais me identifico pela sua sabedoria e simplicidade.
No meu blog ( de aprendiz, é claro ) há um comentário de um jornalista de Springfield, Ill, sobre um texto que escrevi depois de uma viagem àquela cidade. O homem realmente me fez ficar emocionado porque jamais pensei que uma coisa boba que eu escrevi pudesse ser comentado lá, por um jornalista famoso.
Um forte abraço do amigo e admirador
Sebastiao Albano
Lavrinhas, SP
Como sempre, brilhante retrospectiva que se torna uma síntese histórica. Ótima chance para refrescar as mentes dos que insistem em esquecer que todas as nossas conquistas são obras de Estado, não somente de Governos. Algumas de nossas conquistas começaram no Estado Novo e amadureceram conforme foram surgindo as oportunidades nas conjunturas local e global.
É inegável que passamos por uma crise moral, mas convém lembrar que muitas vezes a esperteza cresce a tal ponto, que acaba devorando o esperto.
A luta pelo trabalho continua, desde mantenhamos nossa maior conquista: a democracia.
Parabéns, João Mellão.
Bom dia, Sr. Mellão. Artigo excelente, como de costume. Prático e completo, praticamente impossível de se acrescentar algo, como de hábito. Atual, como de se esperar. Mas há um detalhe: poucas pessoas podem reescrever algo escrito por elas há cinco anos, que dirá há vinte e dois anos atrás. Outra: escrever sobre música, artes, filmes, livros e mudar de opinião, vá lá, acontece, estamos sempre avançando (deveríamos). Escrever sobre moral “quer no sentido feminino, quer no sentido masculino da palavra”, como foi dito, e poder reescrever tudo vinte e dois anos depois, sem problemas, sem dever nada… bom, contem nos dedos. Caso queiram conferir, logo no topo da página tem o link “perfil e biografia”. Cliquem. Abs!
Querido João,
Fiquei muito feliz ao ler seu texto. Pois, estou seguindo o caminho do herói, em outras palavras, me constituindo éticamente; e, como um “espírito livre” seu texto me trouxe mais asas para a imaginação
Li rigorosamente seu texto e, proporia uma nova abordagem, não seria a moral o problema? Pelo menos do ponto de vista nietzschiano. O próprio Dr. Freud vai reconhecer o problema em seu livro “O Mal-Estar na Civilização”
Não me considero um ideólogo, pois minha leitura sobre a realidade não desconsidera a realidade (ou as pré-noções e pré-conceitos)
Talvez eu me aproxime dos poetas, ao perceber na arte (que é imutável e instável) o caminho mais provável para a felicidade
Enfim, são apenas idéias. Como também não sou um niilista, aguardo ansiosamente uma resposta. Viva a dialética!!
Marcos Amaro
Há muitos beija-flores fazendo, silenciosamente, a sua parte!
Obrigada por não desistir!
Oi Melão. Esse tema sempre me chamou a atenção. Porque alguns paises, em épocas distintas, evoluem mais que outros? Lí um dia, não me lembro onde, que o que faz a diferença é o sistema ou, o estado que funciona. Esse foi o segredo do egito, da grécia, dos maias, astecas, de roma, os espanhóis, portugueses. etc.
Atualmente, quem tem estados eficiêntes? Eua, japão, canadá e europa ocidental.
Paises de terceiro mundo tem em comum o estado caro e ineficiente.
No brasil, pagamos 40% de carga tributária e não temos, nem ao menos, saúde, segurança e educação de qualidade. Para isso pagamos outros “impostos” como plano de saúde , seguros e educação privada.
Nossa sorte é ter uma indústria e agricultura privada que funcionam e pagam a conta.
A solução é: acabar com a estabilidade do funcionalismo, impor metas aos agentes do estado, cobrar resultados. Exatamente como nos paises de primeiro mundo.