Não consta das Sagradas Escrituras, mas é verossímil. Após ter criado o céu, a terra, os mares e os animais, no sétimo dia o Senhor descansou. Sua criação não. Alguns seres, provavelmente arquétipos dos modernos sociólogos ficaram profundamente insatisfeitos com a obra.
O pavão, por exemplo, apesar de dotado de uma beleza sem par, vivia lastimando-se do fato de não possuir asas com agilidade suficiente para a prática do vôo.
O urubu, por sua vez, dotado de potentes assas, constrangia-se sempre, ao mirar-se nas águas, com a feiúra e falta de charme com que viera ao mundo.
Certo dia, ao se encontrarem, ambos decidiram, através de diálogo e consenso, mudar as regras da natureza. O cruzamento de ambos geraria o mais perfeito dos animais, o qual possuiria a estética do primeiro com os dotes aeronáuticos do segundo.
E assim surgiu, belo e ágil, o galipavo meleagris, vulgarmente conhecido como peru.
Nos dias de hoje experiência semelhante se repete. Algumas centenas de brasileiros, de forma otimista e bem intencionada, estão reunidos em Brasília para reformar tudo o que há de errado no País. São modernos e inovadores. Por trás do discurso de cada um, percebe-se, implicitamente, a existência de três inéditas palavras de ordem: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Miragem, aliás, de implantação difícil, principalmente em um país onde todos, do presidente ao favelado, passando pelo padre, são autoritários, desejam enriquecer e têm em Gérson (“o negócio é levar vantagem em tudo”) seu filósofo maior.
Eles são “Os Eleitos”, legítimos representantes do povo, o qual foi às urnas sem saber exatamente qual era a diferença entre constituinte, reconstituinte e biotônico. Cientes de suas responsabilidades, a golpes de bic´s e paricer´s, eles pretendem desenhar um novo mundo. Através da contribuição individual de cada um, já se vislumbra uma belíssima nação, a primeira, na História, a conciliar liberdade individual, justiça social e eficiência econômica.
Todos, por exemplo, concordam que o sistema correto para o Brasil há de ser o capitalismo, desde que não haja lucros e ninguém enriqueça.
O desbravamento da fronteira agrícola pelos pioneiros deve ser incentivado, mas é importante que, depois que as terras estejam desmatadas e aradas, possa o INCRA tomá-las e distribuí-las entre os desvalidos.
Há consenso quanto à necessidade de privatização da economia, mas com a ressalva de que as estatais sejam fortalecidas e o poder do Estado ampliado.
As excelências do livre mercado são reconhecidas por todos, mas urge que se reestruture a SUNAB, revigore-se o CIP e adote-se o tabelamento de preços.
O livre comércio é um princípio sagrado, desde que sejam manietadas as multinacionais e se preserve as reservas de mercado.
Há que se acabar com o déficit público, mas através de caminhos alternativos, os quais não prevejam corte dos gatos nem aumento de impostos.
Deve-se, de uma vez por todas, acabar com o empreguismo, a ociosidade e o desperdício, mas é importante, por questões sociais, que não se promovam demissões.
Todos concordam que a explosão demográfica deve ser contida, mas, em nome do nosso espírito cristão, ficam desde já proibidos o controle de natalidade, o planejamento familiar e a distribuição de anticoncepcionais.
O bolo tributário deve ser redistribuído dentro de uma fórmula na qual se aumentem as fatias tanto dos municípios, quanto da União.
O parlamentarismo será implantado, mas através de um sistema que não diminua os poderes do presidente da República.
Assim caminha a nossa Constituinte. O resultado, obra-prima de coerência, haverá de ser um produto híbrido de capitalismo, socialismo, assistencialismo, nacionalismo e fraternidade cristã.
O Brasil todo torce, ansiosamente, para que a nova Constituição esteja pronta até dezembro, a tempo de ser servida à mesa, na ceia de Natal.
Será um suculento e genuíno “peru à brasileira”.
Artigo publicado em 22/09/1987 no Estado de São Paulo e no livro “Nu com a Mão no Bolso”, de minha autoria.




Assustadoramente profético. Compare-se o enciclopédico peru nacional com a constituição norte-americana, de singelos 7 artigos e 27 emendas.
Concordo em genero e grau da manifestação do sr.Paulo Scardine, porém, nós temos tambem, como eleitores que somos, escolher melhor
os nossos governantes para que o nosso Brasil se desenvolva e os
brasileiros tenham uma vida mais digna.
Isso foi escrito em setembro de 87!
E, como também é típico de “Os Eleitos”, o “peru” só ficou pronto em outubro de 88!!