Peru à Brasileira

Publicado por João Mellão Neto Em 03 Nov 2009

PeruAveNão consta das Sagradas Escrituras, mas é verossímil. Após ter criado o céu, a terra, os mares e os animais, no sétimo dia o Senhor descansou. Sua criação não. Alguns seres, provavelmente arquétipos dos modernos sociólogos ficaram profundamente insatisfeitos com a obra.

O pavão, por exemplo, apesar de dotado de uma beleza sem par, vivia lastimando-se do fato de não possuir asas com agilidade suficiente para a prática do vôo.

O urubu, por sua vez, dotado de potentes assas, constrangia-se sempre, ao mirar-se nas águas, com a feiúra e falta de charme com que viera ao mundo.

Certo dia, ao se encontrarem, ambos decidiram, através de diálogo e consenso, mudar as regras da natureza. O cruzamento de ambos geraria o mais perfeito dos animais, o qual possuiria a estética do primeiro com os dotes aeronáuticos do segundo.

E assim surgiu, belo e ágil, o galipavo meleagris, vulgarmente conhecido como peru.

Nos dias de hoje experiência semelhante se repete. Algumas centenas de brasileiros, de forma otimista e bem intencionada, estão reunidos em Brasília para reformar tudo o que há de errado no País. São modernos e inovadores. Por trás do discurso de cada um, percebe-se, implicitamente, a existência de três inéditas palavras de ordem: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.  Miragem, aliás, de implantação difícil, principalmente em um país onde todos, do presidente ao favelado, passando pelo padre, são autoritários, desejam enriquecer e têm em Gérson (“o negócio é levar vantagem em tudo”) seu filósofo maior.

Eles são “Os Eleitos”, legítimos representantes do povo, o qual foi às urnas sem saber exatamente qual era a diferença entre constituinte, reconstituinte e biotônico. Cientes de suas responsabilidades, a golpes de bic´s e paricer´s, eles pretendem desenhar um novo mundo. Através da contribuição individual de cada um, já se vislumbra uma belíssima nação, a primeira, na História, a conciliar liberdade individual, justiça social e eficiência econômica.

Todos, por exemplo, concordam que o sistema correto para o Brasil há de ser o capitalismo, desde que não haja lucros e ninguém enriqueça.

O desbravamento da fronteira agrícola pelos pioneiros deve ser incentivado, mas é importante que, depois que as terras estejam desmatadas e aradas, possa o INCRA tomá-las e distribuí-las entre os desvalidos.

Há consenso quanto à necessidade de privatização da economia, mas com a ressalva de que as estatais sejam fortalecidas e o poder do Estado ampliado.

As excelências do livre mercado são reconhecidas por todos, mas urge que se reestruture a SUNAB, revigore-se o CIP e adote-se o tabelamento de preços.

O livre comércio é um princípio sagrado, desde que sejam manietadas as multinacionais e se preserve as reservas de mercado.

Há que se acabar com o déficit público, mas através de caminhos alternativos, os quais não prevejam corte dos gatos nem aumento de impostos.

Deve-se, de uma vez por todas, acabar com o empreguismo, a ociosidade e o desperdício, mas é importante, por questões sociais, que não se promovam demissões.

Todos concordam que a explosão demográfica deve ser contida, mas, em nome do nosso espírito cristão, ficam desde já proibidos o controle de natalidade, o planejamento familiar e a distribuição de anticoncepcionais.

O bolo tributário deve ser redistribuído dentro de uma fórmula na qual se aumentem as fatias tanto dos municípios, quanto da União.

O parlamentarismo será implantado, mas através de um sistema que não diminua os poderes do presidente da República.

Assim caminha a nossa Constituinte. O resultado, obra-prima de coerência, haverá de ser um produto híbrido de capitalismo, socialismo, assistencialismo, nacionalismo e fraternidade cristã.

O Brasil todo torce, ansiosamente, para que a nova Constituição esteja pronta até dezembro, a tempo de ser servida à mesa, na ceia de Natal.

Será um suculento e genuíno “peru à brasileira”.

 

Artigo publicado em 22/09/1987 no Estado de São Paulo e no livro “Nu com a Mão no Bolso”, de minha autoria.

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3 Comentários em “Peru à Brasileira”

  1. Paulo Scardine says:

    Assustadoramente profético. Compare-se o enciclopédico peru nacional com a constituição norte-americana, de singelos 7 artigos e 27 emendas.

  2. Nelson Godoy says:

    Concordo em genero e grau da manifestação do sr.Paulo Scardine, porém, nós temos tambem, como eleitores que somos, escolher melhor
    os nossos governantes para que o nosso Brasil se desenvolva e os
    brasileiros tenham uma vida mais digna.

  3. Isidoro da Silva Leite says:

    Isso foi escrito em setembro de 87!
    E, como também é típico de “Os Eleitos”, o “peru” só ficou pronto em outubro de 88!!

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