Maio, auge da primavera, é o mês mais indicado para visitar Paris. Os pássaros voltam às praças e a temperatura amena convida as pessoas a freqüentar os cafés ao ar livre. A cidade é uma festa. Sob o céu de Paris, o som do acordeão embala os namorados, de todas as idades, cujo amor ornamentado pelas flores, é uma prova de que a vida realmente vale à pena.
Não foi sempre, assim, porém. Nesta mesma Paris, há 200 anos, a praça defronte ao Museu de Louvre não abrigava os artesãos, artistas e turistas de hoje. Os pássaros haviam sido afugentados pelas multidões que lá se concentravam, urrando slogans raivosos, clamando por vingança, “justiça” e sangue. Afinal, era ali que se situava, sobre uma plataforma de madeira, a terrível invenção de monsieur Guillotin.
Foi no mês de maio, em 1974, que aquele palco recebeu, para o espetáculo do dia, um dos gênios da humanidade, o “bom cidadão” Antoine Laurent de Lavosier.
Reza a lenda que o pai da química, glória da França, ao subir os degraus do cadafalso, teria indagado ao carrasco:
- Afinal por que estou sendo executado?
- Não tenho a menor idéia, cidadão…
- Mas eu sou um cientista…
- Talvez a Revolução não precise deles…
- Mas eu não sou político!
- Então é por isso mesmo!
E a lâmina, fria, desceu.
O crime de Lavoisier, segundo se soube depois, se devia ao fato de ele ser coletor de impostos e o Comitê da Salvação Pública, dirigido por Robespierre, cismara de mandar guilhotinar todos os coletores de impostos…
O fato, apesar de algumas impressões históricas, é um dramático exemplo de como a omissão política, apesar da comodidade que encerra, pode trazer conseqüências trágicas para cada um dos cidadãos.
Todos nós, “bons cidadãos” profissionais liberais, executivos, professores, médicos, pequenos e micro-empresários, nos acostumamos, através do tempo, a assistir ao espetáculo político do País como se esse fosse um divertido enredo de telenovela. Torcemos por uns, praguejamos contra outros, mas, no campo prático, poucos vão além do exercício do voto, no feriado de 15 de novembro, amaldiçoando as filas, sonhando com a praia e pensando no quão bom seria se o voto não fosse obrigatório.
Os espiritualistas afirmam que todo homem tem uma missão. Ninguém duvida disso. O problema é que a maioria acredita que sua missão, na Terra, se resume tão somente a formar um pé-de-meia, criar bem os seus filhos, fazer alguma caridade, pagar impostos e obedecer às leis da moral e da sociedade. Como Lavoisier, quase todos entendem que suas obrigações com o País se resumem a exercer, com esforço e dignidade, a profissão na qual se especializaram. Política é problema dos políticos, economia é assunto para os economistas.
Infelizmente a realidade não é bem assim. Política não é novela. E a diferença reside no fato de que seu enredo provoca conseqüências profundas no seio da sociedade em que vivemos. De repente o “bom cidadão” percebe que a sua profissão não lhe rende frutos, a caridade se transforma em extorsão, os impostos, ficam impagáveis, as leis se tornam inobedecíveis e seus filhos, “criados com amor e carinho”, simplesmente vão-se embora do País.
O “bom cidadão” se transforma em “fora-da-lei”. Como não pode, por questão de sobrevivência, cumprir a legislação, a todo o momento é obrigado a pagar “pedágio”. Paga-o para o fiscal que pretende embargar sua obra, para o funcionário que se dispõe a apressar o seu processo, para a burocrata que reluta em conceder sua guia ou alvará. Como a economia (aquele assunto que devemos deixar para os economistas) vai mal, o “bom cidadão”, por mais que se esforce, não consegue fazer com que seu negócio dê lucros, seus honorários cubram suas despesas, seu ordenado chegue ao fim do mês.
O “bom cidadão” ainda assim reluta em participar diretamente da política. Política é uma coisa suja, diz sempre à sua família. Não é atividade para gente de bem.
Como é ingênuo o “bom cidadão”! Justamente por acreditar que política é uma “coisa suja”, ele contribui, com a sua omissão, para que ela se torne ainda mais suja. Gente de bem não se mete em política e, por isso mesmo, outorga uma procuração em branco para que os aventureiros continuem governando, nomeando, legislando e extorquindo a Nação. O papel do “bom cidadão”, segundo sua crença, é apenas o de ler os jornais, tomar conhecimento dos fatos e praguejar contra o governo.
Tenho pena do “bom cidadão”. Um dia, que não está longe, provavelmente baterão à sua porta. E lá estará uma carroça do comitê de salvação. Ele ainda tentará argumentar com o “encarregado”. Pouco adiantará. O algoz, humilde funcionário público, como “bom cidadão”, que também é, estará apenas cumprindo a lei…
(Texto publicado em 07/04/1989 no Estado de São Paulo – artigo do livro “Nu com a Mão no Bolso”)




Se, o nosso caro deputado João Mellão não nos informasse a data, diríamos que escreveu este ontem, para lermos hoje.
Obrigada.
Att
Edna