Como fazer um burro falar

Publicado por João Mellão Neto Em 14 Sep 2009

burro-shrek1O Brasil, graças às recentes descobertas do pré-sal, está em via de ostentar uma das quatro maiores reservas mundiais de petróleo. Seguramente será a maior fora do Oriente Médio. Parabéns ao nosso país, parabéns ao povo brasileiro e parabéns também à Petrobrás. Infelizmente, as congratulações param por aí. O governo brasileiro, em relação a tudo isso, está exercendo um papel muito feio.

 

A Petrobrás, desde sua fundação, no início da década de 1950, sempre foi uma empresa ambígua, problemática e nada transparente. A começar pela sua criação. Há quem diga, atualmente, que a intenção do então presidente Getúlio Vargas nunca foi a de criar uma empresa estatal para exercer, na prática, o monopólio das atividades de exploração, refino e transporte do petróleo. O que se temia na ocasião era que a concessão de sua exploração, no Brasil, viesse a cair nas mãos das grandes empresas do ramo, às quais interessaria manter o País como mero consumidor. Verdade ou mentira, pouco importa. O fato é que o assunto chegou às ruas e mobilizou toda a Nação. A campanha popular ganhou o nome de “o petróleo é nosso!”

 

O apelo foi tão grande que culminou, em 1953, com a entrega de todas as atividades ligadas ao petróleo à recém-criada Petrobrás.

 

O grande receio, à época, era que, nas mãos de estrangeiros, o Brasil jamais alcançasse a autossuficiência em petróleo. Mal podiam imaginar os mentores da ideia que essa aclamada reserva de mercado é que não nos levaria à autossuficiência de modo algum. Durante muitos anos se acreditou que monopólios estatais eram a grande solução para atividades complexas, como é a extração de petróleo. Como as nações “subdesenvolvidas” – era esse o termo que se usava – não tinham condições de concentrar capital privado em volume suficiente para empreendimentos de tal vulto, era quase que uma certeza que as empresas estrangeiras acabariam por fazê-lo.

 

Muitos anos se passaram até que, na década de 1970, os pés de barro do gigante estatal foram mostrados explicitamente. Ocorreu então a primeira crise do petróleo. Tudo começou com a criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Tratava-se de uma iniciativa conjunta em que todos os grandes exportadores concordaram em racionar a produção com o intuito de aumentar o preço de sua mercadoria.

 

Funcionou. O barril de petróleo valia, à época, menos de US$ 2. Isso inibia a busca por combustíveis alternativos e também o desenvolvimento de motores mais eficientes. Esses fatos se deram em 1973 e o resto do mundo se prostrou de joelhos perante a Opep.

 

A fragilidade da posição brasileira, então, ficou explicitada. Com monopólio e tudo, mal conseguíamos produzir um quinto do petróleo que consumíamos. Para piorar ainda mais, sobreveio a segunda crise do petróleo, em 1980. O Brasil foi à lona.

 

Foi aí que começaram a surgir os primeiros contestadores do monopólio. E eles estavam munidos de argumentos impecáveis. Um deles era o ex-ministro do Planejamento Roberto Campos. Dizia ele, em tom de escárnio, que a Petrobrás só era grande da linha do solo para cima.

 

De fato, a Petrobrás “acima da linha do solo” explorava os mais insólitos ramos de atividade: hotéis, butiques, esportes, etc. Já “abaixo da linha do solo” – que é onde deveriam concentrar-se as suas atividades – ela era uma anã. Produzia apenas o equivalente a 200 mil barris de petróleo diários, para um consumo nacional de mais de 1 milhão.

 

Apesar de todas as evidências, o monopólio do petróleo só veio a ser abalado na década de 1990, quando o próprio governo encaminhou ao Congresso Nacional proposta de emenda constitucional permitindo a existência de outras empresas na sua exploração.

 

Funcionou. Tão logo caiu o monopólio, a Petrobrás levantou-se de seu berço esplêndido e atualmente produz 2 milhões de barris diários, dez vezes mais do que na década de 1980. A autossuficiência foi finalmente atingida. Graças, principalmente, à extinção do monopólio.

 

Isso, por si só, não significa que a Petrobrás se tenha tornado uma empresa “enxuta”. Se o fosse, por que o desespero para impedir, no Senado, a CPI sobre ela?

 

Pois bem, todo esse esforço corre agora o risco de se perder, com o envio pelo Poder Executivo ao Congresso de sua proposta de “marco regulatório do pré-sal”. Na prática, fica restabelecido o monopólio estatal sobre as atividades petrolíferas – ao menos no que diz respeito às reservas do pré-sal.

 

Ninguém tem dúvidas quanto à importância estratégica das novas jazidas. O estranho é que se faça um foguetório, quando as questões mais fundamentais ainda não foram respondidas.

O custo do barril extraído, em razão da profundidade, será competitivo?

 

Se for, o que fazer, uma vez que a própria Petrobrás reconhece que não existe tecnologia para tanto?

Mesmo que essa tecnologia venha a ser desenvolvida, o mais provável é que ela surja no estrangeiro. Pergunta-se: alguma petrolífera de vulto no mundo se disporá a investir no pré-sal, quando as cláusulas para isso são tão desvantajosas?

 

Por último: por que se está fazendo esse tremendo oba-oba agora, sabendo-se que esse petróleo só jorrará em 2020? Não seria tudo isso apenas uma patriotada pré-eleitoral?

Há uma fábula antiga que diz o seguinte: um sujeito foi ao rei propor que faria um burro falar. Pediu duas décadas de prazo mais uma farta pensão por mês. Um amigo advertiu o cidadão de que aquilo era uma loucura.

 

“Não é, não! Daqui a 20 anos um de nós, o rei ou eu, já terá morrido.”

“E se isso não acontecer?”

 

“Fácil. Eu cuido de matar o burro!”

Related Posts with Thumbnails

16 Comentários em “Como fazer um burro falar”

  1. Ronald Harari says:

    Excelente o artido do burro ! Gosto de seus artigos no Estadão!
    Abraço

  2. Roberto Sundberg Guimarães says:

    O artigo está ótimo, como sempre. Como brincadeira, gostaria de
    responder à indagação contida no título do artigo: É fácil fazer
    um burro falar. Basta dar um microfone a ele. Qualquer analogia
    com a política federal é mera coincidência…

  3. João Bosco Cunha says:

    Com sempre o seu artigo é excelente, e nos fez conhecer um pouco de história, mas não saberia dizer qual será o melhor caminho para o pré-sal.

  4. maria libânia nunes leonel says:

    Leio sempre( gosto muito) e divulgo entre amigos suas crônicas no Estadão. Vou acessar seu blog sempre que puder. Precisamos de mais políticos éticos, confiáveis e inteligentes como você.

  5. Nelson Godoy says:

    O artigo de “Como fazer o burro falar é excelente”.
    Como seu leitor e eleitor parabenizo-o.
    Abraços.

  6. amauri says:

    Bom dia Dep. Mellão
    O senhor acredita que a quantidade e qualidade do oleo do pre-sal como anunciado?
    Amauri

  7. Manoel Roberto says:

    Muito bom o comentário do sr, Roberto Sundberg Guimarães… Não sei por que, pensei em uma certa alta autoridade do nosso infeliz (Pelos políticos que tem)pais…

  8. Paulo Garcia Martins says:

    É caro Deputado João Mellão Neto. O oba-oba sobre o pre-sal, somente quem não tem olhos para ver, não encherga que é pura e antecipada campanha para tentar eleger a Dilma. Que Deus não nos dê mais este castigo.

  9. j.santelmo says:

    Alguns anos, as grandes escândalos envolviam empreiteiras, era a época das grandes obras (todas subfaturadas).
    Hoje as agência de propaganda tomaram esse lugar, é a época da propaganda governamental (todas mentirosas).
    O caso pré-sal é um dos exemplos.

  10. Roberto Decanine says:

    Boa tarde Sr.Mellão, Gostaria de uma reflexão do Dep.; será que a nossa burguesia jurassica agüentará Dilma/2010 e Lula/2014. Espero que realmente responda, mesmo que vá doer na alma.

  11. Saudações fraternas,Dr.Mellão, burro talvez, não…mas, o jumento está falando(…) aos quatro cantos do planeta e, quer eleger a sucessora para esconder a sujeira debaixo do tapete, E que tapete!!! e, creio que o petroleo será pós-sal e não pré-sal !!! Abs,

  12. José de Freitas Guimarães says:

    Há alguns anos, tive a oportunidade de assistí-lo na TV Record comentando sobre a reforma agrária. Àquela oportunidade, você tentou fazer com que governantes vissem a luz, mencionando que não adiantava os esforços políticos e financeiros para que houvesse referida reforma, ja que o despreparo e a falta de vontade de trabalhar do agricultor ex-empregado eram tantos, que eles ficariam aguardando o governo enviar um japonês para “tocar a terra”.
    Esse comentário soa, hoje, como verdadeira profecia, tal qual a fábula do burro que fala.
    A atual gestão federal lullo-petista/peemebebista, oriunda das massas sindicais, em especial o apedeuta, possue forte apelo popular, merce da compra de barrigas miseráveis. Todavia, de governo não entende nada, nem mesmo a diferença de uma fatura e uma duplicata. O outro grupo (Temer, Sarney, etc…), é até certo ponto preparado para o exercício do poder, mas prefere deixar que este seja exercido pelo primeiro, afinal, não sabendo o que fazer, acabam aceitando suas “orientações” nada tendenciosas…
    Por favor, continue a utilizar suas atividades profissionais e políticas para mudar os conceitos dos governantes dos grupos citados, como forma de desbastar a bruta ignorância cultural e cidadã que possuem… TFA

  13. Jailson Rosa says:

    Ao Roberto:

    A burguesia eu não sei, mas o Lula não vai aguentar a destruição que ele deixou para 2014. Tenho minhas dúvidas se ele vai arriscar tentar se reeleger quando é certo que quem quer que entre em 2014 vai apanhar do desperdício com a Copa, com as olímpiadas e com a eterna e crescente taxa extra á produtividade chama de Bolsa Família. Quem entrar em 2014 sai em frangalhos, e será interessante ver se Lula vai ter coragem de jogar sua popularidade fora para passear pelo mundo por mais quatro anos.

    Imagino que a “burguesia jurássica” sejam amigos do Lula como o Sarney, e a burguesia nova seria mesmo o PT cheio da grana e levando 10% de todo o aparelhamento do estado que realizou (fora as suspeitas de “caixa 2″ cm mensalão e outros…). Não que eu seja fã da “oposição” (sejam eles quem forem hoje em dia – esta faltade coragem para criticar governos poplares é uma faceta patética do país), mas de qualqer forma o país será atrapalhado por décadas por esta política de pão e circo que ganhou quem só enxerga o curto prazo.

  14. gilda maria says:

    QUANTO AO PRÉ-SAL É CONVERSA P/ BOI DORMIR É IGUAL INUGURAR OBRAS SEM TER COMEÇADO!! MAS O QUE ME ENCAFIFA MESMO É UM PRESIDENTE COMO O LULA(NAO VÊ,NÃO OUVE E VIAJA SEMPRE Q/ APARECE PROBLEMAS),DÃO NAS “PESQUISAS”QUE ELE TEM MAIS OITENTA P/ CENTO DE PROVAÇÃO,ORA DAQUI A POUCO ELE CHEGARÁ A CEM P/CENTO!!INIMAGINÁVEL!!!!! SABE PQ O HUGO CHAVES GANHA AS ELEICÕES,PQ SE VOTAREM CONTRA,A PESSOA É PERSEGUIDA! O ABOMIVÁVEL SADAM HOUSSEIN, TB GANHAVA PQ AS CÉDULAS ERAM TRANSPARENTES!!OS PAISES DESENVOVIDOS NÃO USAM URNAS ELETRONICAS PQ/ ELAS NÃO PRESTAM E SÃO FÁCEIS DE SEREM FRAUDADAS. OBRIGADA LADYCAT.

  15. Os chineses é que são felizes. Trocam de animal a cada ano. 2009 foi ao ano do touro e 2010 do leão (que seja assim). Pobre nós brasileiros, aguentamos um jumento por 8 anos e corremos o risco de termos uma égua por mais 4 anos.

  16. Adele Neubauer -Florida says:

    Hoje ,domingo 29 de janeiro 2011…li pela primeira vez um artigo seu no ESTADAO. confesso que gostei do seu estilo:limpo,esclarecedor,atual e principalmente simples que qualquer um pode ler sem recorrer ao dicionario.

    Tambem concordo com voce a respeito do seu artigo de hoje no ESTADAO…Lula(o molusco falastrao) e FHC (o fidalgo poliglota) sao duas criaturas de diferentes racas e com qualidades diferentes,porem com um mesmo ideal no passado:tornar-se PRESIDENTE DO BRASIL.

    Ambos chegaram la…Mas, nem sempre quem faz correto e usa a logica como elemento de descobertas e novas invencoes, sao coroados de exitos num primeiro momento. Sai ganhando quem usa a trapaca, a mentira,o tempo transcorrido (e esquecido) para se eleger como O CARA FENOMENAL que mesmo sendo um ANALFABETO FUNCIONAL consegiu ser o (pior) MELHOR PRESIDENTE QUE O BRASIL JA TEVE. Isso na leitura dos que idolatra o MOLUSCO FALASTRAO.

    A historia ( a verdadeira) vai mostrar quem foi o melhor para o BRASIL.

    Parabens !!voce consegiu minha antencao,isso e raro.Continue a escrever essas perolas. Sao verdadeiras aulas de politicas,historia,economia e porque nao dizer de DECENCIA.

    Um abraco

    Adele

Deixe um Comentário

Untitled Document
  

 

 

?>