Corrupção, é claro, existe em todos os países. Sua incidência, constata-se, é mais freqüente quanto menos desenvolvidos eles são. Podem-se arriscar as mais diversificadas explicações, mas o fato é que nas sociedades mais amadurecidas ela é menor porque a própria comunidade, como um todo, trata de castigar os seus praticantes com desprezo, descrédito, hostilidade, ostracismo, até mesmo o banimento, a exclusão de seu convívio. Tudo isso, na prática, acaba sendo uma pena mais dolorosa do que a própria reclusão. Faz sentido. O homem é, sobretudo, um animal social. Quando até seus vizinhos o evitam, esse, para ele, é o mais doloroso dos castigos.
Nos EUA, anos atrás, um conhecido meu cometeu uma transgressão de trânsito tão grave que acabou levando-o ao tribunal. Ele, por acaso, tinha tirado uma carteira de trânsito americana. Qual não foi a sua surpresa quando, uma vez condenado, a única providência das autoridades locais foi tomar-lhe o documento por alguns dias e, depois, ainda tiveram a gentileza de devolvê-lo pelo correio. Cabe lembrar que nos EUA não existe carteira de identidade. Assim, a carteira de trânsito e a da Social Security acabam sendo as únicas credenciais, com fé púbica, que identificam uma pessoa e provam a sua identidade.
De início, o referido cidadão não conseguiu entender o que se passou. A única diferença é que a carteira a ele enviada era outra, praticamente idêntica à original, a não ser pelo fato de onde vem escrito, em letras miúdas, a expressão “safe driver”( o que, numa tradução livre, quer dizer “motorista responsável”) constar apenas a inscrição “driver”.
A conseqüência disso ele descobriu logo na esquina, quando decidiu almoçar num restaurante. Na hora de pagar, ele apresentou seu cartão de crédito e também sua carteira de motorista. Resultado: alguns minutos depois, o garçom voltou e, de modo bastante hostil, disse-lhe que ele teria de pagar a conta em dinheiro. Ele perguntou se havia algum problema com o cartão de crédito. “Não”, respondeu-lhe, de forma malcriada, o garçom, “é a sua ?driver license? que o identifica como uma pessoa indigna de qualquer confiança!” E seguiu sendo maltratado por vários dias, até que lhe explicaram que a simples exclusão da palavra “safe” (seguro, responsável) no documento equivalia, na prática, à sua rejeição automática por todos os demais cidadãos.
“Isso é pior do que cadeia”, desabafou-me ele alguns anos depois. “Você é visto e tratado como um delinqüente enquanto tiver de portar aquele documento. As coisas só voltaram ao normal quando, um ano depois, fui comunicado pelas autoridades de que iria receber a minha carteira original de volta.”
Pois bem, podemos refletir, essa inteligente modalidade de “pena alternativa” é genial, mas não teria a menor eficácia aqui, no Brasil.
De fato, não. Nem aqui nem em nenhuma nação onde o povo, socialmente, ainda não é suficientemente amadurecido. Por mais que as pessoas decentes fiquem indignadas ao lerem no jornal os pormenores do mais recente escândalo, o fato é que eles continuarão a acontecer, com a mesma frequência e desfaçatez, ainda por muitos e muitos anos. O processo de amadurecimento de um povo não se estabelece por lei ou decreto e, como nas pessoas, individualmente, só se alcança a maturidade depois de muito tempo de vida.
A coerção social, sabe-se, é o mais eficiente mecanismo dissuasório que existe. Mas para que ela ocorra é necessário que a sociedade, como um todo, compreenda de uma vez que todo e qualquer tipo de malandragem, no fim das contas, prejudica indiretamente a todos. Quanto mais “espertos” existirem, quanto menos a comunidade se importar com eles (ao contrário, eles são até admirados por sua pretensa “astúcia”), mais gente, com caráter deficiente, se sentirá tentada a seguir os seus passos.
Nas nações socialmente mais avançadas, essa maturidade só foi alcançada quando todos finalmente compreenderam que toda prática desonesta, se não for objeto de reprovação pela comunidade, acaba por se disseminar e, pior, inviabilizar a sua economia.
Um dos principais pilares do desenvolvimento se chama crédito. As pessoas, naturalmente, confiam umas nas outras e, portanto, transacionam entre si. Se até atos banais – como comprar uma geladeira – são arriscados, o resultado é a estagnação e empobrecimento da comunidade. Em situações extremas, como a citada, o que acontece é que o vendedor só aceita receber o pagamento em dinheiro. Ainda assim, desconfia que as cédulas sejam falsas. O comprador, por outro lado, desconfia que lhe vão vender um produto com defeito, de segunda mão e até mesmo de procedência duvidosa. Quase sempre, nesse clima de desconfiança, o negócio não sai. E assim perdem todos. Negócios mais complexos, então, nem sequer são cogitados.
Ninguém tem coragem de se associar a ninguém. Excelentes empreendimentos deixam de ser feitos tão-somente porque os eventuais sócios não têm a menor confiança entre si.
Aqui, no Brasil, jamais seremos desenvolvidos enquanto a nossa sociedade, em vez de execrar os seus delinqüentes, não só os exaltar pela sua astúcia como também os aceitar em seu convívio.
Há exceções, é claro. São os bandidos que foram presos e punidos. É curioso: eles não são escarnecidos porque delinqüiram, mas, sim, porque lhes faltou esperteza para saírem impunes…
Eu ainda acredito que o Brasil amadurecerá. Na medida em que prosperam, os cidadãos temem pelo seu patrimônio e passam a ser menos tolerantes com os seus delinqüentes. Mas a maturidade só se conquista após muitos e muitos anos. Não será no meu tempo, talvez nem no dos meus filhos.
Mas, tenho fé, haverá um dia em que isso, fatalmente, haverá de acontecer.




Prezado Prof. Dr. João Mellão,
Mais uma brilhante aula de civismo e artigo impecável.
Acredito piamente que muitos brasileiros hoje perguntam por que a sociedade não reage mais a tantos absurdos que ocorrem em nossa vida política.Por que a impunidade virou uma espécie tábua da slvação, mas que nem precisa mas ser uma “tábua da salvação” no exato significado do termo, já que a salvação ficou tão fácil que não é necessária tábua!!!Por que assuntos como corrupção, imoralidade administrativa, desvios na máquina pública, falta de transparência e incongruência de discursos políticos para defender-se ou defender homens públicos não afeta mais o sentido ético do brasileiro?
Acredito piamente que o brasileiro entrou nas vias que o senhor explicou muito bem.
Deixou de acreditar em algo chamado credibilidade.
Passou da repugnância à ter o administrador público como exemplo.
Entrou no triste caminho do “sou bom, nunca matei e nunca roubei”.Como se toda a estrutura moral, cívica de uma sociedade se resumisse a apenas estes dois comandos.E muitas vezes, seguindo esta triste trilha o cidadão pode terminar caindo na própria contradição e cedendo em princípios chegar a poder não mais falar o “nunca matei, nunca roubei.”
O brasileiro ficou anestesiado.A falta de coerção fizeram-no crer piamente que nada contecerá aos injustos.E neste lema, termina lançando todo o mar de corrupção na vala comum do esquecimento.
Nossa história recente presenciou e presencia atos de extrema importância e escabrosos como um esquema político, o mais documentado da história de nosso País , com 40 políticos ligados ao governo denunciados ao Supremo Tribunal Federal, e mesmo assim o brasileiro nada fez e acredita que se houver punição ou não, tudo continuará na mesma.
Caímos naquela situação que lembra, em termos de comparação, muito a França que após toda a cultura sartriana, que pregava o ateísmo e que a vida não tinha sentido,com as calorosas discussões sobre o que é certo ou errado em termos religiosos, chegou à década de 90 ao indiferentismo religioso: Se DEus existe ou não, pouco me importa.O que importa é minha vida e isto não me afeta!
De certa forma o brasileiro acabou chegando ao indiferentismo político: se existe corrupção ou não, se aquele político fez ou deixou de fazer isto ou aquilo, tanto faz, não me afeta.
Mas esquece o cidadão que o afeta.Pois nosso País necessita de dignidade, como qualquer sociedade.
Uma pessoa pública deve ter confiança da sociedade.Coincidentemente posttei uma frase hoje em meu mural sobre a confiança, algo que penso muito, e que diz:
“Confiança não é algo que temos.É algo que nos é entregue por outros para zelarmos com nossa credibilidade.Não façamos da confiança o que nos der e vier.Façamos aquilo que o outro espera e depositou em nosso caráter!”
Acredito que todos os homens públicos e toda a sociedade deveria procurar, por questão de justiça e dignidade de caráter a plantar os bons frutos da confiança.
Existe ainda esperança, e, Prof. Dr. João Mellão, o senhor é um daqueles poucos homens públicos que ainda acredito e que posso depositar a minha confiança.O senhor tem esta credibilidade que poucos tem.Não é à toa que tens não só o meu voto, de toda minha família e de tantos que conheço.Acreditar é confiar e confiar é depositar em outrem a esperança que poder-se-á melhorar nossa sociedade!
Parabéns Dr. João Mellão!
Mais uma aula!
Do amigo, admirador e eterno aprendiz,
Saudaçoes Liberais!
Rogério Gandra Martins