A verdadeira poesia que exala de São Paulo
OESP – Publicado em janeiro de 2004.
São Paulo, aos 450 anos, é uma cidade aparentemente desinteressante.. Não somos como Roma, com um Panteão ou um Coliseu de dois milênios dos quais nos vangloriar. Não temos nenhuma obra majestosa, por aqui, que seja secular, como um Louvre ou um Arco do Triunfo, para encher os olhos dos estrangeiros que nos visitam. Jamais sediamos impérios. Não fomos sequer a capital de um país. Aqui não residiram reis, nem presidentes, nem ninguém que pudesse concentrar os recursos da Nação para erigir monumentos em sua glória. São Paulo não atrai turistas, ao menos aqueles que viajam com câmaras fotográficas. A Natureza não nos brindou com praias, mar ou grandes montanhas. Não há, tampouco, cenários históricos. Mesmo no centro da cidade, as nossas construções mais antigas datam , em sua maioria , do início do século passado. O Pátio do Colégio, marco da nossa fundação, foi reconstruído. Nada resta da nossa vila original.
Os forasteiros me perguntam: o que há por aqui para se admirar? Não vacilo em responder: o povo. Esta metrópole, como um todo, é um portentoso monumento erigido quase que exclusivamente pela iniciativa privada. Em apenas um século e meio – um mero relâmpago sob a perspectiva da História – partindo de um pobre e modesto sítio nas bordas longínquas da Civilização, o povo de São Paulo, sem ajuda de ninguém, ergueu aqui o terceiro maior conglomerado urbano do planeta. São milhares e milhares de imponentes edifícios. A vista aérea do conjunto nos sugere um gigantesco agulheiro. Mas cada uma dessas agulhas traz consigo uma história. Elas não estariam ali se precedendo a sua construção, um anônimo paulista não tivesse sonhado com ela, acreditado que ela era possível e, contando apenas com a sua própria iniciativa, empenhasse o melhor de si para levantá-la do chão. Quando vislumbro São Paulo, da janela de um avião, não enxergo apenas uma ciclópica concentração de arranha-céus de concreto. Vejo, isto sim, um imenso exército de soldados destemidos e determinados. Pois por trás de cada edifício que lá está, existe a saga de um homem, que lutou ao máximo para concretiza-lo, e a de milhares de outros, que suaram para construí-lo. Cada prédio simboliza um bandeirante. E todos eles juntos, compõem a maior bandeira, a maior aventura coletiva que já se empreendeu em toda a história do Hemisfério Sul.
São Paulo, neste mês, completa 450 anos de vida. E nós, paulistanos, comemoramos quatro séculos e meio de vitórias que são exclusivamente nossas. Nunca abrigamos cortes, nunca tivemos reis, nunca contamos com nenhum privilégio ou benesse estatal. Se concentramos uma proporção tão grande dos recursos do Brasil, isso não se deve às graças de nenhum soberano ou governante. Ninguém nunca nos favoreceu. A pujança que temos aqui foi construída exclusivamente aqui. Por nós, paulistas por nascimento, e por inúmeros outros, provindos de diversos estados e nações, que, pela sua garra e tenacidade, se fizeram paulistas por convicção.
A concretude da cidade, a aridez de sua paisagem, a inexistência de belezas naturais, tudo isso, infelizmente, fez com que S.Paulo nunca gerasse boas rimas. As poucas músicas que se fizeram sobre São Paulo, mais a detratam do que a enaltecem. E nós as tomamos por hinos pela absoluta falta de outras, que sejam mais ufanistas. Talvez o compositor baiano tenha razão ao afirmar que aos olhos dos poetas de outras plagas, São Paulo não inspire belos poemas. Reconhece ele, com certa humildade, que isso se deve ao fato de que “Narciso ache feio o que não é espelho”. É mais fácil cantar o mar, as praias e os campos do que o cimento, o asfalto e a falta de horizontes panoramicos.
Mas, creio eu, ainda haverá de surgir algum artista com sensibilidade suficiente para compreender que a beleza não reside apenas nos encantos que a Natureza nos dá.
Muito mais bela, poética e instigante é a extraordinária capacidade do Homem de sonhar, idealizar e empreender, erguendo nos mais estéreis dos solos as mais lindas e majestosas catedrais.
Esta sim é a verdadeira poesia que exala de São Paulo. Um lugar onde homens ousados, há 450 anos, vêm lutando e prevalecendo sobre todas e quaisquer circunstâncias.



