A pujança de São Paulo tem, sim, uma razão de ser.
OESP – publicado em janeiro de 2002.
Passei o fim de ano fora de São Paulo. E ouvi várias pessoas falarem mal daqui. Para mim não é novidade. Morei oito anos em Brasília. E muitos, por lá, se comprazem em falar mal daqui. À simples menção de que sou paulista, uma avalanche de críticas recai sobre minha cabeça. Paulistano então é duplamente pecador.
Aos olhos dos outros somos os grandes culpados por todos os males da Nação. Nossa pujança incomoda, essa é a grande verdade. E não são poucos os que a atribuem ao fato de nós “explorarmos” os demais…
Nunca respondi a este tipo de crítica. Como também nunca dei ouvidos aqueles que nos desdenham. São Paulo, para eles, é uma cidade poluída, desajeitada e caótica. Não tem praia, mar ou qualquer outra beleza natural. Não tem sequer palácios ou monumentos. Não tem história para contar. A cidade é cinza e o seu céu também. É grande, mas não tem grandeza, é rica, mas não tem refinamento.
No próximo dia 25 esta “triste” cidade faz aniversário. Não seria uma boa ocasião para responder aos seus detratores?
Temos, sim, o que comemorar. Atrás de Tókio e Seul, somos a terceira maior cidade do mundo. Se fôssemos um Estado, seriamos maiores do que qualquer Estado. Se a Grande São Paulo fosse uma nação, estaria entre as trinta mais ricas do planeta.
Como chegamos até aqui? Certamente não foi por favor de ninguém. Nunca fomos a capital do Brasil. Nenhum rei se fixou por aqui. Ao contrário. Há apenas dois séculos, éramos uma humilde vila de oito mil almas, sem ouro ou pedras preciosas, e, ainda por cima, afastada do litoral.
O que, então, transformou São Paulo em uma metrópole? Gente, é a resposta. Gente da melhor qualidade. Gente que para cá imigrou, colonos estrangeiros que aqui entenderam de fazer a América. O café, até então uma cultura nômade, nos chegou pela exaustão das terras fluminenses. E aqui se fixou graças a essa abençoada gente que sabia como preservar o solo e não se envergonhava de trabalhar pesado, ocupando o lugar que cabia aos escravos.
A cidade de São Paulo só viria a prosperar de fato a partir de 1870, após a construção da “São Paulo Railway”, a estrada de ferro que ligava as regiões produtoras de café ao porto de Santos. Não houve favor nenhum. O governo do Brasil não investiu um único centavo nessa ferrovia.
E como São Paulo se industrializou? Novamente não houve ajuda do governo. No início do século passado, os capitães da indústria paulista eram quase todos imigrantes. Italianos, portugueses, libaneses, gente que antes se dedicava ao comércio de café e que houve por bem empreender indústrias. Toda a infra-estrutura de São Paulo – ferrovias, portos, armazéns, estradas – foi construída com capitais privados. Dinheiro dessa gente. Dinheiro da nossa gente.
Décadas após, quando JK deu o arranque decisivo para a industrialização do Brasil, o parque fabril – devido à pré-existente estrutura – só poderia se localizar em São Paulo.
São Paulo, é bom que se diga, jamais explorou ninguém. Ao contrário. Acolheu de bom grado todos os nossos irmãos de outros Estados que para cá vieram em busca de um sonho. Eles também fazem parte do que chamamos de nossa gente.
Àqueles que ainda acham que São Paulo é uma cidade feia, cinza, desajeitada, só cabe uma resposta: não procurem por praias, pois não temos mar; não busquem por palácios, pois nunca tivemos reis; não procurem por monumentos, pois nós nunca precisamos de heróis. A beleza de São Paulo está no espírito inquieto dos paulistanos.
São Paulo só é grande porque a nossa gente também é.



