POLÍTICA BRASILEIRA – Um doido para prefeito!

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

O estranho jeito de Jânio Quadros governar.

OESP – Publicado em agosto de 2001

Janio1“Sou um ciclotímico, admito. Mas Napoleão e Lincoln também o eram…” Ouvi de Jânio esta confissão, muitos anos atrás, durante um passeio por um cafezal. Soava como um desabafo. Ele, então, era prefeito de São Paulo e eu, quase um menino, seu secretário da Administração. “Dos raros, dentre nós, que escapam do hospício, alguns até se tornam estadistas…”.

Vindo de quem vinha, era uma grande abertura. Ele não revelava o seu software mental a ninguém. Quem afirma tê-lo decifrado está mentindo. Quem melhor o definiu foi Carlos Lacerda: “Jânio é um doido varrido. Ele pensa que é o Jânio Quadros!”.

Amanhã, 25 de agosto, é o quadragésimo aniversário de sua renúncia. A imprensa, sem dúvida, irá pautá-la. Afinal trata-se do gesto mais insólito da história da República. Surgirão inúmeros testemunhos e interpretações. Nenhuma novidade, como sempre. Ninguém conhece o episódio por inteiro. Em todos as versões, invariavelmente, ficam faltando algumas peças. E sobram outras tantas que não se encaixam. A verdade, esta ele levou para o túmulo.

Jânio Quadros foi o maior fenômeno eleitoral do Brasil. Vereador, deputado estadual, prefeito, governador, deputado federal – afora o Senado, ele galgou todos os cargos eletivos existentes. Nada por nomeação. De professor secundário à presidente da República, sua ascensão política demandou apenas 13 anos. Subiu a rampa do Planalto aos 44. Saiu pela garagem, por vontade própria, antes de completar 45.

Eu era criança, então. Conheço a história pelos livros. Nada tenho a acrescentar. Nossos caminhos viriam a se cruzar quase 25 anos depois, quando ele disputou a eleição para prefeito de São Paulo.

Assisti a comícios seus. Acompanhei-o em algumas visitas à periferia de São Paulo. Ele enfrentava um adversário de peso, ninguém menos do que FHC. Confesso que o que vi me deixou desconcertado. O homem era mesmo um fenômeno. Velho, feio, estridente e desgrenhado, ele lograva arrebatar platéias as mais diversas.

Em palestras, nas universidades, invariavelmente entrava sob vaias e saia – menos de uma hora depois – de modo triunfal, carregado nos ombros pelos estudantes. Seus contemporâneos, então, literalmente o idolatravam. Não era raro que lhe beijassem as mãos, profundamente comovidos. Certa feita um senhor idoso ajoelhou-se e, trêmulo, beijou-lhe os pés…Nunca antes vira nada que se assemelhasse.

Jânio Quadros não contava com nenhuma assessoria. E nem precisava. Ele transcendia qualquer manual de marketing político. O que ele dizia era menos importante do que a maneira como o fazia. E, nesse aspecto, ele era único, indescritível, inimitável. As multidões ululavam, choravam, deliravam. Catarse coletiva.

Mas as minhas maiores surpresas estavam reservadas para depois. Uma vez eleito, teria Jânio capacidade para governar?

Nomeado secretário, trabalhei vários dias na elaboração de um esquema de acompanhamento e controle  de gestão. Quando me apresentei para a primeira audiência, ele sequer me deixou falar:

“Sabe o senhor por que Deus criou o mundo em sete dias? Porque não tinha esposa ou assessores para dar palpites!”.

“Mas, prefeito, eu gostaria de lhe mostrar alguns gráficos e cronogramas. O que eu faço com tudo isso?”.

Ele ajeitou os óculos, deu um suspiro de enfado e olhou-me firme nos olhos. Não se deu ao trabalho de responder.

Meu consolo foi perceber que os demais secretários compartilhavam a mesma angústia. O Diário Oficial tornou-se um best-seller. Era através dele que o prefeito mandava “bilhetes” malcriados para a equipe. Questionava alguns, exigia providências de outros, puxava a orelha de todos. Os memorandos eram classificados e acompanhados. Um dos que recebi era de arrepiar:

“Senhor secretário, ‘bancos 24 horas’, há anos, ocupam irregularmente o passeio público! Requisite guinchos e arranque-os todos em 72 horas! J. Quadros”.

Não foi preciso fazer nada No dia seguinte os representantes dos bancos compareceram em peso ao gabinete para legalizar os caixas-eletrônicos, pagar as taxas devidas e encerrar de vez o assunto…

Percebi, então, que sua alegada demência seguia uma lógica: enquanto passasse por louco, ninguém se atreveria a contrariá-lo…

Lá pelo terceiro mês, Jânio decidiu lançar uma campanha de educação no trânsito.

Verba, nenhuma. Anunciou pelo Diário Oficial que daria o exemplo, indo pessoalmente às ruas aplicar multas. Manchetes em todos os jornais. Cumpriu a palavra. No dia seguinte estava armado o cortejo: o carro oficial, uma viatura de polícia, um caminhão-guincho e dezenas de veículos da imprensa. Multou, apreendeu habilitações e guinchou veículos até o último dia de seu mandato. O trânsito de São Paulo, como por milagre, melhorou…

A cidade era suja e mal cuidada. Jânio montou uma força-tarefa de limpeza que furiosamente corria as ruas, a pintar de branco sarjetas, muros postes e até mesmo árvores. A imprensa criticava: “Isso é coisa do interior!”. Ao que ele respondia: “e é mesmo! É de lá que vieram dois terços dos paulistanos!” Estava certo. O povo passou a ter orgulho de São Paulo, uma cidade limpa, pintada, bem tratada…

Recordo todos esses fatos com uma certa nostalgia. Jânio interpretava como ninguém a alma do povo. Mesmo sem recorrer a verbas publicitárias, não se passou um dia sem que ocupasse as manchetes dos jornais. O prefeito mandava, o governo trabalhava e a cidade estava satisfeita.

Era um demente? Talvez. Mas o fato é que a sua loucura funcionava. É uma pena que todos os sãos e sóbrios prefeitos e prefeitas que o sucederam nada aprenderam com ele.

Voltando ao cafezal: “Loucos, meu jovem, somos todos nós… A não ser nos pontos em que nossas loucuras coincidem…”.

E ele tinha razão.

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1 Comentário em “POLÍTICA BRASILEIRA – Um doido para prefeito!”

  1. marcelino says:

    Sinceramente invejo essa oportunidade que vc teve

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