Mas não serve qualquer um.
OESP – Publicado em junho de 2001.
Em Brasília, D.F., em uma quarta-feira, 1º de janeiro de 2003, 182º da Independência e 115º da República, no Congresso Nacional, em sessão solene realizada no plenário da Câmara dos Deputados – após prestar o compromisso de manter, defender e cumprir a Constituição – ele tomará posse.
A seguir, sob os aplausos entusiásticos da multidão, atravessará a Praça dos Três Poderes e adentrará o Palácio do Planalto. Ali receberá, das mãos de Fernando Henrique Cardoso, a faixa presidencial. E, daquele momento em diante, o destino de 170 milhões de brasileiros estará em suas mãos.
Quem é ele? Não sabemos. Como pensa? Também não. Mas nós o teremos escolhido – entre muitos outros – através de eleições livres e democráticas, no primeiro e no último domingo (6 e 27) de outubro de 2002.
Teremos votado corretamente? Teremos elegido a pessoa certa? Jamais saberemos. A roda do tempo gira em uma única direção. O futuro do pretérito, por definição, não existe. Não haverá como e com quem comparar…A vida, no fundo, é uma sucessão de escolhas irreversíveis…
“Mas o que é isso?” Reclamará FHC. “Eu ainda tenho 18 meses de mandato! Vocês já estão discutindo o meu sucessor?!”
Paciência, presidente. No Brasil é assim. O marechal Deodoro já tinha a mesma queixa que o senhor: no dia mesmo de sua posse, Floriano, o vice, já era aclamado como o próximo…O senhor, pelo menos – como Getúlio em 1934 – teve o inédito privilégio de suceder a si próprio. Agora…
Na verdade nada ocorre por acaso. Nossa república é presidencialista. E presidente, por aqui, manda mesmo. Já é uma tradição latino-americana. Nosso continente foi o primeiro, na história, a adotar a república constitucional. Mas, tirando os E.U.A , a concentração de poderes nas mãos dos presidentes é tão grande que o que nós fazemos, na prática, é eleger um semiditador a cada quatro ou cinco anos.
Não é à toa, portanto, que o debate sucessório se inicie com tanta antecedência. Um bom presidente, por si só, não salva a Nação. Mas o potencial de estrago de um ruim é enorme: com meia dúzia de Medidas Provisórias insanas (em geral irreversíveis) sabe lá Deus o que ele pode fazer…
Voltando ao início, quem será o predestinado que receberá a faixa de Fernando Henrique?
Pretendentes à presidência já existem vários; candidatos ao meu voto, por enquanto, nenhum.
Meu voto, bem sei, é apenas um. Mas sendo o único que tenho é natural que eu o valorize. Com tapinhas nas costas, sorrisos simpáticos e propostas atraentes, há milhões de outros votos mais fáceis de se conquistar. É bem provável que ninguém perca tempo cortejando um eleitor emburrado e exigente como eu. Mas, caso haja algum interessado, eu vou, desde já, adiantando as minhas preferências e idiossincrasias:
• Beleza, jovialidade, simpatia e charme não me entusiasmam. Não sou jurado de concurso de miss.
• Loquacidade, para mim, não é sinônimo de capacidade. Papagaios também falam e eu nunca votei em algum.
• Virgindade não é o mesmo que castidade. Ninguém pode se arvorar honesto antes de ter tido – e rejeitado – uma excelente oportunidade de deixar de se-lo.
• Os maiores críticos de quem faz são justamente os que não sabem fazer.
• Uma pela outra, eu ponho mais fé na experiência do que na esperança.
• Tenho ojeriza a quem se comunica pelo dialeto PAMG – Prometer, Acusar, Mentir e Gritar.
• Quem é cheio de si, por definição, é vazio.
• Candidato que evoca Deus é porque não conhece humanos que se proponham a avaliza-lo.
• Só promete o impossível quem nem do possível se acredita capaz.
• Só se propõe a salvar a Pátria quem já desistiu de salvar a si mesmo.
• De milagres eu só trato com Santo Antonio.
• Quem nunca realizou nada, ao chegar ao poder, vai continuar sem realizar nada.
• Não confio em quem me pede um voto de confiança. Já comprei carro usado e me arrependi.
• Convincente não é sinônimo de competente. Já tive péssimas experiências com encanadores, mecânicos, eletricistas, etc.
• O que está errado eu já sei. Eu procuro alguém que saiba como consertar.
Como já afirmei, meu voto é apenas um. Mas por enquanto ainda está disponível. Aos interessados solicito que encaminhem suas propostas ao e-mail abaixo. Alguém se candidata?



