POLÍTICA BRASILEIRA – Procura-se um candidato

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

Mas não serve qualquer um.

OESP – Publicado em junho de 2001.

Em Brasília, D.F., em uma quarta-feira, 1º de janeiro de 2003, 182º da Independência e 115º da República, no Congresso Nacional, em sessão solene realizada no plenário da Câmara dos Deputados – após prestar o compromisso de manter, defender e cumprir a Constituição – ele tomará posse.

A seguir, sob os aplausos entusiásticos da multidão, atravessará a Praça dos Três Poderes e adentrará o Palácio do Planalto. Ali receberá, das mãos de Fernando Henrique Cardoso, a faixa presidencial. E, daquele momento em diante, o destino de 170 milhões de brasileiros estará em suas mãos.

Quem é ele? Não sabemos. Como pensa? Também não. Mas nós o teremos escolhido – entre muitos outros – através de eleições livres e democráticas, no primeiro e no último domingo (6 e 27) de outubro de 2002.

Teremos votado corretamente? Teremos elegido a pessoa certa? Jamais saberemos. A roda do tempo gira em uma única direção. O futuro do pretérito, por definição, não existe. Não haverá como e com quem comparar…A vida, no fundo, é uma sucessão de escolhas irreversíveis…

“Mas o que é isso?” Reclamará FHC. “Eu ainda tenho 18 meses de mandato! Vocês já estão discutindo o meu sucessor?!”

Paciência, presidente. No Brasil é assim. O marechal Deodoro já tinha a mesma queixa que o senhor: no dia mesmo de sua posse, Floriano, o vice, já era aclamado como o próximo…O senhor, pelo menos – como Getúlio em 1934 – teve o inédito privilégio de suceder a si próprio. Agora…

Na verdade nada ocorre por acaso. Nossa república é presidencialista. E presidente, por aqui, manda mesmo. Já é uma tradição latino-americana. Nosso continente foi o primeiro, na história, a adotar a república constitucional. Mas, tirando os E.U.A , a concentração de poderes nas mãos dos presidentes é tão grande que o que nós fazemos, na prática, é eleger um semiditador a cada quatro ou cinco anos.

Não é à toa, portanto, que o debate sucessório se inicie com tanta antecedência. Um bom presidente, por si só, não salva a Nação. Mas o potencial de estrago de um ruim é enorme: com meia dúzia de Medidas Provisórias insanas (em geral irreversíveis) sabe lá Deus o que ele pode fazer…

Voltando ao início, quem será o predestinado que receberá a faixa de Fernando Henrique?

Pretendentes à presidência já existem vários; candidatos ao meu voto, por enquanto, nenhum.

Meu voto, bem sei, é apenas um. Mas sendo o único que tenho é natural que eu o valorize. Com tapinhas nas costas, sorrisos simpáticos e propostas atraentes, há milhões de outros votos mais fáceis de se conquistar. É bem provável que ninguém perca tempo cortejando um eleitor emburrado e exigente como eu. Mas, caso haja algum interessado, eu vou, desde já, adiantando as minhas preferências e idiossincrasias:

Beleza, jovialidade, simpatia e charme não me entusiasmam. Não sou jurado de concurso de miss.

Loquacidade, para mim, não é sinônimo de capacidade. Papagaios também falam e eu nunca votei em algum.

Virgindade não é o mesmo que castidade. Ninguém pode se arvorar honesto antes de ter tido – e rejeitado – uma excelente oportunidade de deixar de se-lo.

Os maiores críticos de quem faz são justamente os que não sabem fazer.

Uma pela outra, eu ponho mais fé na experiência do que na esperança.

Tenho ojeriza a quem se comunica pelo dialeto PAMG – Prometer, Acusar, Mentir e Gritar.

Quem é cheio de si, por definição, é vazio.

Candidato que evoca Deus é porque não conhece humanos que se proponham a avaliza-lo.

Só promete o impossível quem nem do possível se acredita capaz.

Só se propõe a salvar a Pátria quem já desistiu de salvar a si mesmo.

De milagres eu só trato com Santo Antonio.

Quem nunca realizou nada, ao chegar ao poder, vai continuar sem realizar nada.

Não confio em quem me pede um voto de confiança. Já comprei carro usado e me arrependi.

Convincente não é sinônimo de competente. Já tive péssimas experiências com encanadores, mecânicos, eletricistas, etc.

O que está errado eu já sei. Eu procuro alguém que saiba como consertar.

Como já afirmei, meu voto é apenas um. Mas por enquanto ainda está disponível. Aos interessados solicito que encaminhem suas propostas ao e-mail abaixo. Alguém se candidata?

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