POLÍTICA BRASILEIRA – O encantador de serpentes

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

FHC é capaz de dar nó em pingo d’água.

OESP – publicado em maio de 2002.

Conheci FHC em 1977. Eu era aluno de administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas e militava no movimento estudantil. Éramos todos radicais então. É impressionante como as discussões, em ambientes fechados, alimentam e realimentam certezas, por mais dissociadas da realidade que elas sejam. Estávamos certos, por exemplo, de que a queda do regime militar se daria em questão de dias. Discutível, isto sim, era que tipo de regime socialista “nós iríamos” implantar em seu lugar. Boa parte dos professores, demagogicamente, fazia coro às nossas convicções. Geisel estava caindo, sim. Se os jornais não noticiavam era porque estavam censurados ou porque faziam o jogo da ditadura…

Um certo dia a escola inteira se mobilizou para um grande evento. Haveria, no salão nobre, uma palestra com ninguém menos do que o “príncipe dos sociólogos”, o legendário professor Fernando Henrique Cardoso. Pois o “figurão” chegou da maneira mais informal possível. Calça jeans, paletó de couro, foi a todos cumprimentando como se fossem velhos amigos.

O salão estava apinhado de alunos e professores, todos reverentes. O “mestre dos mestres” começou a falar. Desconcerto geral. Deu-nos uma aula de pragmatismo e senso de realidade. O regime, segundo ele, estava forte como nunca. Se estava ocorrendo uma abertura política, esta se devia aos desígnios de Geisel e não ao fato de que nós estaríamos “arrombando a porta”.

Criticou o dogmatismo acadêmico, convidou os professores a se desencastelarem de suas torres de marfim. Não, não estávamos a caminho da revolução, mas sim da democracia. E esta seria liberal, burguesa, jamais socialista. Fosse outro o palestrante, teria sido linchado. Mas quem falava era ele. E ninguém ousaria revidar.

O homem ganhou a minha simpatia. No ano seguinte, quando li nos jornais que ele se candidataria ao senado, corri a me apresentar como colaborador. Participei, com entusiasmo, de toda a campanha. Fernando “o quê?” Me perguntavam por onde passava. Fora dos meios acadêmicos, Fernando Henrique era um ilustre desconhecido. Mas era um homem afável, simpático, de prosa fácil.

Todos se encantavam com ele. Não venceu as eleições, mas logrou conquistar o segundo lugar o que lhe garantiu a vaga de suplente. Quatro anos depois, em 1982, Franco Montoro foi eleito governador e ele assumiu a sua cadeira no Senado. Fez uma bela carreira. De oito anos para cá, o professor Cardoso tem sido o nosso presidente da República.

O leitor haverá de me perguntar por que estou contando esta história. Uma das razões é para me confessar como um simpatizante de primeira hora de Fernando Henrique. A outra é para dizer que, ainda assim, não me considero suspeito por fazer a sua apologia.
Fernando Henrique vai deixar saudades. Até mesmo àqueles que hoje se opõem a ele.

Quem quer que o suceda não terá o seu traquejo. E tampouco herdará a sua simpatia, a sua afabilidade, o seu jeito cordial de ser e lidar com as pessoas. “Como fazer amigos e influenciar pessoas” – ah, esse livro ele conhece de cor! Quem já conversou com ele há de concordar: o homem é mesmo um encantador de serpentes.

Há quem veja nisso um defeito. Hão de dizer – não sem razão – que quem procura agradar a todos, acaba por não agradar ninguém: “__ A última coisa que precisamos é de um presidente bonzinho, ora essa!” Sem dúvida. Ocorre que FHC está longe de ser “bonzinho”. É simpático com todos mas faz somente o que ele próprio quer. Com um agrado aqui e um carinho acolá o fato é que ele sempre se sai bem . No final – para ele – tudo sempre dá certo. Duvidam? Então vejamos.

Depois de Getúlio ele é o presidente que por mais tempo se manteve no poder; reformou e emendou a Constituição do jeito que quis; ousou extinguir os ministérios militares sem que as forças armadas jamais o afrontassem; o Congresso nunca se opôs à sua vontade; tampouco o Judiciário. Tudo isso sem que, nem por um instante, tivesse que se afastar da trilha democrática. Quem mais, nos últimos 50 anos, reinou e governou por tanto tempo, com tanto poder e tamanha tranqüilidade? Ninguém…

Seria apenas sorte? Não é provável. Negociando aqui, conciliando ali, o que ele provou, realmente, é que tem talento. E também que conhece o Brasil e sua gente como ninguém.

Teremos saudades, sim. O próximo presidente não haverá de ser alguém tão venturoso.

Que Deus o proteja.

E a nós também.

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1 Comentário em “POLÍTICA BRASILEIRA – O encantador de serpentes”

  1. Vitor Rolf Laubé says:

    Realmente, uma figura com inigualáveis virtudes. Meu primeiro voto para senador, assim como nome inafastável das minhas cédulas eleitorais nas disputas de que participou posteriormente. Senti muito orgulho em ser presidido por ele, apenas, com o tempo, dissenti da viabilização por ele do instituto da reeleição. Orgulhava-me muito enquanto brasileiro, cujo País era então categorizado como “terceiro-mundista”, quanto, a cada viagem que fazia, conquistava mais um título de doutor “honoris causa” (uma sensação muito parecida àquela que sentia quando o nosso saudoso Ayrton Senna ganhava ou o Brasil conquistava mais uma copa: orgulho de ser brasileiro).
    Uma grande figura…

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