Devaneios freudianos da alcaidessa paulistana.
OESP – Publicado em abril de 2001.
Na próxima terça-feira, dia 10, dona Marta Tereza completa seu centésimo dia de gestão. O registro, aqui, não tem nada de cabalístico. 100 dias é o prazo de trégua que a imprensa norte-americana concede aos novos governos.
Durante este período a praxe jornalística é apenas registrar atos e fatos, abstendo-se de qualquer comentário, interpretação ou opinião. Entendo como razoável. É açodado exigir planos de governo ou estabelecer perfis de gestão de um governante quando este ainda está ocupado com pequenos, porém cruciais detalhes funcionais.
Alguns são triviais:
- Onde fica o toalete de autoridades? Quem está credenciado a usa-lo?
- Que botão apertar, no PBX, para chamar a secretária? E o motorista?
- Existe algum restaurante aqui por perto? Pode-se debitar a conta no Erário?
Outros são um pouco mais complexos:
-Em que casos se deve usar “memorando”, “circular”, “ordem interna”, “portaria” ou “decreto”?
-A que conclusão, afinal, chegou a assessoria jurídica neste parecer? O que quer dizer este SMJ, no final? (“salvo melhor juízo” ou melhor, “não me comprometo”…)
E há, também, aqueles que requerem um certo “jogo de cintura’:
- A quem se deve conceder ou recusar audiências? Como abreviar, educadamente, as que se prolongam demais?
- Como recusar requerimentos na constrangedora presença dos requerentes?
- O que fazer com os “amigos íntimos” que aparecem sem hora marcada?
São detalhes, é verdade. Mas sem equaciona-los a tarefa de governar se torna impossível. E não há manual que ensine como proceder…
Mas – entende-se – cem dias é tempo suficiente para se estabelecer uma rotina eficaz.
Daí para frente cabe ao governante a precípua missão de governar…
O que se pode dizer, então, dos primeiros cem dias da psicoprefeita Dona Marta Suplicy? Muitas coisas. A principal é a de que ela tem realizado – digamos assim – uma psicogestão…
Que ela, aqui, não nos leve a mal. Em um século e pouco de República, já tivemos, em São Paulo, nada menos do que uns sessenta prefeitos: autocratas, aristocratas, tecnocratas e, há quem diga, até psicopatas. Psiquiatra, ou melhor, psicóloga, é a primeira vez. Skinner, Roger, Moreno e mesmo Reich, foram, todos eles, brilhantes perscrutadores dos meandros da psique. Mas da urbe, ao que se sabe, nenhum deles cuidou. É natural, assim, que a transposição – de um campo ao outro – de suas idéias, não se dê sem traumas ou mal-entendidos…
Mas a nossa arrojada alcaidessa, felizmente, não tem dado ouvidos a estas intrigas da oposição. Segue firme em seu intento “marx-freudiano” de, através da catarse coletiva, libertar os oprimidos dos seus grilhões. É de se lastimar que a massa – tosca e ignara – não responda aos estímulos de tão requintados métodos de gestão.
Poder-se-ia esperar uma acolhida melhor por parte da imprensa. Afinal os jornalistas são – ou deveriam ser – pessoas esclarecidas. Mas, não! Ao analisar, ontem, o balanço de 90 dias da nova administração, os jornais não demonstraram, por ela, o menor entusiasmo.
Ativeram-se, todos eles, aos velhos e obsoletos critérios de avaliação:
A cidade continua esburacada, o enxugamento da máquina administrativa se resumiu a meia dúzia de cargos de confiança, nenhuma das promessas de campanha foi ainda implementada, pouco – ou quase nada – se fez em áreas tais como saúde, educação, habitação, transportes, lixo, etc.
Não apenas a mídia, mas até mesmo a nossa plebe – rude e mesquinha – tem sido injusta com a Dra. Marta.
Haja vista o que ocorreu com o “projeto belezura”. Ninguém captou o apelo catártico pretendido. Dona Marta, ao pincelar as paredes do Estádio do Pacaembu, realizou um gesto de enorme carga simbólica. A partir de sua emblemática atitude, todos os paulistanos deveriam, motivados, complementar voluntariamente, a iniciativa. A começar pelo Estádio, caberia ao povo, num êxtase de cidadania, proceder à pintura de São Paulo inteira!
Qual o quê! Nem bem a prefeita partiu, todos os “pintores” se evadiram com ela. Coube à Prefeitura, de modo frustrante, terminar sozinha a tarefa que era de todos. Não bastasse isso, no dia seguinte, neuróticos pichadores se encarregaram de estragar o serviço.E nunca mais se falou em belezura nenhuma… Dona Marta é bela…Feio é o povo!
Mas a maior das desfeitas ainda estava por ocorrer.
Todos sabem quão caras são as sessões de psicanálise. Embora se constitua em um serviço básico de saúde pública – no Brasil, infelizmente, poucos são os que podem recorrer a elas. Pois a Dra. Marta, em uma corajosa iniciativa democrática, disponibilizou o benefício a toda a população da cidade!
No “Dia do Psicodrama”, nada menos do que centenas de equipes de terapeutas e psicodramaturgos se instalaram por toda a nossa polis, permitindo a todos os cidadãos o precioso conhecimento de suas próprias neuroses. A própria alcaide deu o exemplo, prestando graciosamente um serviço que, em seu consultório, não custaria menos de 200 reais.
O povo – sempre ele – ao invés de aproveitar aquela oportunidade única, esquivou-se da terapia como o diabo foge da cruz…
É, dona Marta, infelizmente, aqui, no Brasil, as pessoas são demasiado rudes para entender uma prefeita como a senhora…Essa gente só pensa em posto de saúde, ônibus e buraco de rua. Faço votos de que a senhora não desanime. Em 2002 têm eleições em Viena!
PT. Psicossaudações!



