Quando todos querem levar vantagem em tudo, ninguém leva vantagem em nada.
OESP – publicado em dezembro de 2003
“Levar vantagem” parece que é o esporte nacional. Grande parte de nós, brasileiros, se julga “esperta” ou “muito esperta”. Isso é positivo?
Já tratei deste tema muitos anos atrás, mas, como certas coisas no Brasil são imutáveis, optei por abordá-lo novamente.
Recém casado eu morava em uma rua de classe média em S.Paulo. Angustiados com os assaltos, os doze moradores da rua se reuniram e decidiram contratar um serviço de vigilância.
Vencido o primeiro mês, os guardas foram cobrar seus salários. Onze pagaram. O último, cidadão, esperto, pulou fora. “Já que onze já estão pagando e a rua vai continuar protegida, por que eu também haveria de pagar?”.
Todos chiaram com a malandragem. No mês seguinte apenas dez pagaram, no outro nove e assim foi até que os guardas se demitiram. Os assaltos voltaram a ocorrer, mas os moradores, aparentemente, estão satisfeitos. O negócio é levar vantagem, certo?
Eu, à época, fiquei inconformado. Achei que tudo era culpa da educação insuficiente e da falta de espírito cívico dos meus vizinhos.
Não era. Pouco depois fiquei sabendo do que ocorrera com dois edifícios vizinhos, cujos apartamentos valiam um milhão de dólares. Entre eles havia um imóvel, cujo proprietário anunciou que iria vendê-lo a um bar de encontro de jovens. Os grã-finos moradores dos dois prédios se reuniram e decidiram eles mesmos, comprar o imóvel. Na assembléia conjunta dos dois condomínios começou a discórdia. O que fazer com o terreno? Um morador do primeiro prédio sugeriu a construção de garagens. Um residente do segundo discordou: “eu não preciso de mais garagens”. Foi então sugerida uma quadra de tênis. Alguém vetou: “quadra eu não aceito. Eu não jogo tênis!” Sem consenso, foram realizadas outras e outras reuniões, cada vez com quorum menor. O imóvel acabou sendo vendido para o tal do bar.
A rua se tornou um inferno. Congestionamentos todas as noites, buzinas, brigas, arruaças. Consta que os requintados apartamentos perderam 30% de seu valor de mercado. Mesmo para parte dos muito ricos, ao que parece, o negócio também é levar vantagem.
Situações como estas são comuns, entre nós, não importa o nível educacional. O espírito comunitário ainda é raro por aqui e a falta de civilidade se repete em quase todos os aspectos da vida brasileira.
Um exemplo é o trânsito, onde, ao invés de andar cada um em sua faixa, a soma das espertezas de cada motorista tem como resultado o congestionamento prejudicial a todos. Buzinando, todo mundo protesta contra a falta de urbanidade do próximo. Ninguém atenta para a sua própria conduta antiética.
Nos shows populares, nos estádios de futebol, se todos permanecessem sentados, todos veriam o espetáculo com conforto. Mas isso é impossível. Sempre tem um “esperto” que se levanta para enxergar melhor. Isso atrapalha a visão dos de trás. Estes também se levantam, até o ponto em que todos acabam assistindo o evento de pé. Continuam todos com o mesmo ângulo de visão que teriam se estivessem sentados, só que agora com muito mais desconforto.
No aspecto legal somos o único país em que as leis são como esparadrapo: elas “pegam” ou “não pegam”. Os legisladores vivem criando normas e regulamento inexeqüíveis, o que dá margem à corrupção generalizada. Quem acaba salvando o Brasil é o famigerado “fiscal corrupto”, aquele do tipo “compreensivo”, que, mediante um pequeno “pro labore”, cuida de abrandar o rigor da lei para ajustá-la às realidades e premências de cada um. Não adianta clamar contra a corrupção. Se toda a legislação fosse cumprida, ai de nós! Mais de metade das residências e dos estabelecimentos comerciais seria interditada por não estarem de acordo com as leis.
O brasileiro, ao que parece tem dois tipos de moral.Uma rígida e intransigente para julgar as atitudes do próximo e outra liberal e indulgente quando se trata de julgar a si mesmo. Vivemos todos em paz, assim. Com a consciência sempre tranqüila. Só que existe um problema nisso. A História não registra um único caso de uma nação que prosperou graças à esperteza coletiva.
Não seria o caso, então, de se repensar todas estas atitudes?
O bom senso nos demonstra que quando todos querem levar vantagem em tudo, ninguém, ao final, acaba levando vantagem em nada.
A melhor história sobre isso eu soube através de um médico que, estando com um colega em Londres, no pós-guerra, foi a um restaurante almoçar. Havia racionamento de carne. Cada cliente só podia comer um único bife. Seu colega procurou argumentar com o maitre de que tudo aquilo não passava de ingenuidade:
“Eu posso comer um bife aqui, no seu estabelecimento, e depois ir ao restaurante da esquina e comer outro bife lá”.
O maitre, impassível, respondeu: “__Absolutely, sir. É claro que o senhor pode. Só que um inglês não faz isso…”.



