O QUE ENRIQUECE UMA NAÇÃO – Respondendo ao sr. Wolf

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009


Os requisitos que uma nação precisa para crescer.

OESP – Publicado em maio de 2001.

Tenho por hábito, há dois anos, publicar o meu endereço eletrônico no final dos artigos que escrevo. As razões são várias. Uma delas é o imperativo ético: se os leitores são obrigados a “ouvir” as minhas opiniões, calados, devo conceder-lhes o direito de expressar-me as suas também. Contra ou a favor, eu as leio, todas, e trato religiosamente de responde-las. Mas a razão principal, confesso, não é esta. E aqui não vai demagogia alguma. O fato é que eu aprendo muito com elas. Pobre daquele que se encastela em suas idéias. Morre convicto, é verdade, mas passa a vida sem ter razão…

O motivo deste preâmbulo é que, por vezes, me fazem perguntas que eu não sei responder. Ou por ignorância pura e simples, ou por se tratar de questões sobre as quais nunca me dei ao trabalho de pensar. Uma delas é a do sr. W.A… Chamemo-lo, tão somente de “Wolf”.

Pois bem, o Sr. Wolf – estrangeiro que reside há quase cinco décadas no Brasil – afirma ter um dilema. Lê diariamente os jornais, já se aventurou pelas obras seminais de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda e procura manter-se bem informado sobre todos os grandes temas brasileiros. “Conheço todos os grandes desafios que o Brasil enfrenta”, escreve ele, “educação, saúde, produtividade, distribuição de renda, etc. etc.” Porém, continua ele “o que consigo captar são fragmentos, visões parciais e, principalmente, chavões…” e prossegue: “o que me falta é uma rede conceitual que interligue todos estes tópicos”. E conclui, reptando-me: poderia eu apresenta-la?

Ora, Sr. Wolf, isso é pergunta que se faça?! Se eu soubesse a resposta, fatalmente, perderia o emprego! A matéria prima dos jornalistas são as dúvidas. As nossas e as dos leitores. São elas, por exemplo, que me permitem, semanalmente, publicar artigos instigantes sobre os mais variados temas…

Mesmo assim vou tentar responder-lhe.

Quais são os fatores que determinam o sucesso ou o fracasso de uma nação, de um povo, ou mesmo de um “projeto nacional”?

Inúmeros. E é, sem dúvida, mais fácil identificar as causas dos fracassos do que as dos sucessos. Guerras; epidemias; conflitos étnicos, raciais, políticos ou religiosos; aspectos históricos ou geográficos – ou mesmo ambos combinados: há um enorme leque de fatores que, potencialmente, podem levar uma nação à desgraça.

E quanto àquelas que triunfaram? Têm, cada uma, uma épica e bela história a contar. E essa história, geralmente, é enganosa ou equivocada. A história do sucesso não se escreve com datas ou heróis. Ela é feita de circunstâncias…

E quais seriam estas circunstâncias?

David Landes, em 1998, escreveu aquele que é considerado um dos melhores livros de história do século: “A Riqueza e a Pobreza das Nações”. Logrou faze-lo justamente porque abandonou todos os cânones da historiografia acadêmica. Não se preocupou em alinhavar um enredo coerente: ateve-se, exclusivamente, aos aspectos práticos e pragmáticos que marcaram a trajetória das diferentes nações.

Suas conclusões são insólitas e muito elucidativas. A afluência de uma nação não se dá em função de suas riquezas naturais ou de sua extensão territorial. Sequer se deve a fatores economicamente mensuráveis.

Se assim fosse, como explicar que coube à minúscula e pobre Portugal a missão de lançar-se ao mar e desbravar os caminhos do Novo Mundo? Por que caberia à modesta Holanda sucede-la como soberana dos mares?

Por que impérios vastos e opulentos como a China e a Rússia perderam a corrida do desenvolvimento moderno?

Por que a revolução industrial se deu na insulada Inglaterra, quando na Europa continental havia impérios e nações mais poderosos e econômica e territorialmente mais bem dotados?

Não, não há respostas no campo da economia.Mas nós as encontramos em outras paisagens…

Sr. Wolf, o senhor me requer uma “rede conceitual”, uma teia que interligue os principais aspectos e circunstâncias que configuram o perfil de uma nação fadada ao sucesso. Que perfil seria este?

Agora, sem hesitar, eu posso responder-lhe: ele é, simultaneamente, institucional, cultural e social.

É o perfil de uma nação na qual as Instituições: 1 – garantem o direito à propriedade, à poupança e aos frutos dos investimentos; 2 – respeitam e fazem respeitar a fiel observância dos contratos e dos direitos individuais e coletivos; 3 – estabelecem um governo estável, obediente às leis e desprovido de ambições espoliativas; e 4 – provêem uma administração pública isenta o bastante para que os agentes econômicos não se sintam estimulados a buscar, através dela, qualquer tipo de vantagem ou privilégio.

É o perfil de uma nação onde a cultura coletiva: 1 – valoriza a inovação, a oportunidade e o risco; 2 – incentiva o empreendimento, a iniciativa e a leal competição; 3 – não dá guarida a barreiras ou preconceitos à mobilidade geográfica, econômica ou social; 4 – permite, sem inveja ou ressentimentos, que as pessoas desfrutem dos resultados dos seus esforços, do seu trabalho e do seu engenho.

É o perfil de uma nação, Sr. Wolf, onde a sociedade: 1 – não alimenta qualquer forma de discriminação que se lastreie em raça, em sexo, em origem ou em religião; 2 – valoriza e elege as pessoas unicamente pela sua competência, pelo seu mérito e pelo seu desempenho; e, 3 – o mais importante – acredita que valores tais como honestidade, confiança e reciprocidade não só são possíveis, como altamente convenientes, a ponto de todos os seus membros viverem e agirem em conformidade com eles.

Esta, meu caro Sr. Wolf, é a “rede conceitual” conforme eu a vejo. Não é uma teia. Nem, tampouco, uma planta baixa. São, isto sim, os alicerces. As sólidas fundações das quais se ergue uma Nação…

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