A culpa, por aqui, é sempre dos outros.
OESP – Publicado em agosto de 1989.
“A maior distância entre dois pontos é o atalho”.
( Lei de Murphy)
Como lembra Jeffrey Sachs em monumental artigo no Estado, no último domingo, em 1987 havia no mundo apenas cinco países com taxas de inflação superiores a 100% ao ano. Curiosamente, todos eles se situam na América Latina. Em uma perspectiva histórica de 20 anos, mais de metade dos surtos inflacionários no planeta ocorreu justamente na nossa briosa e passional América ao Sul do Rio Grande.
Garcia Marques, em seu discurso de recebimento do Nobel de Literatura, afirmou ser este o continente de loucura. Listou um imenso rol de governantes com traços esquizóides e maníacos –depressivos. Alguns falavam com as paredes, outros colecionavam caveiras de seus desafetos, outros discutiam com seus antecessores, já falecidos, pelos corredores dos palácios. Muitos foram linchados, outros assassinatos, alguns, talvez por excesso de autocrítica, preferiram o suicídio. Na nossa América enlouquecida, maluco que não está confiando em hospício é sério candidato a “estadista”.
O cancioneiro latino – americano, do tango Às guarânias, passando pelo nosso sertanejo, é repleto de tragédias e histórias de amor malsucedidas. O culpado nunca é o compositor. Ora é a “mala surte”, ora é uma mulher ingrata e insensível.
Um governante mexicano chegou a afirmar que o mal de seu país era estar situado “tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”. Fatalismo à parte, o problema é justamente o contrário. De um Aldo acreditamo-nos extremamente íntimos de nosso Deus católico – do qual sempre aguardamos o socorro de sal Divina Providência – e, de outro, teimamos raivosamente em nos manter distantes dos EUA, onde Deus é protestante, não têm dó dos pequenos e costuma ajudar mais a quem se ajuda do que quem reza por ajuda.
Não é fortuito o fato de que a inflação, por essas plagas, encontra terreno fértil para vicejar. Como nos tangos argentinos, onde o cantante enche a mulher de porrada e depois a amaldiçoa porque o deixou na sarjeta, nossos governantes são especialistas em arruinar a economia e , posteriormente, encontrar um culpado pelas desgraças resultantes. Sachs, em seu artigo, enumera quatro casos exemplares: Perón, Allende, Alan Garcia e José Sarney. A lista, na verdade, ascende a dezenas. E a história, quase sempre, é a mesma.
O método para chegar ao poder varia pouco. Ou se dá um golpe para “salvar a nação”, ou se tenta o caminho das urnas. No primeiro caso, basta criar um plano de governo convincente, cabalar meia dúzia de generais e derrubar a porta do palácio. No segundo, utiliza-se uma estratégia mais sutil; o candidato vai aos ricos, pede-lhes dinheiro e promete defendê-los contra a sanha dos pobres.
Depois vai aos pobres, pede-lhes votos e promete protegê-los contra a voracidade dos ricos. Armado de uma razoável dose de eloqüência, convence ambos os lados de que está sendo sincero, criando expectativas nas duas partes de que ,uma vez empossado, todos viverão em um paraíso.
Uma vez terminada a cerimônia de posse começaram os problemas. Os cofres públicos não aos imensos como o coração de Deus. O Tesouro Nacional não consegue financiar, simultaneamente, o lucro sem risco reivindicado por uns nem a riqueza sem trabalho exigida por outros. Tendo que contentar a ambos, parte-se para o “desenvolvimento”, curioso teoria pela qual é possível a todos viverem às custas do Estado.
Para os “empresários” são concedidos subsídios, incentivos, isenções e reservas de mercado; para os trabalhadores criam-se programas assistencialistas, leis paternalistas e regalias diversificadas. Dinheiro para tudo isso? É fácil. Basta emitir moeda e endividar-se. Como se prevê que tudo isso levará ao desenvolvimento, a economia crescerá em índices acentuados, o que permitirá ao governo arrecadar mais imposto e, com eles, pagar tudo o que sacou antecipado.
Trata-se, na verdade, de um volumoso cheque emitido contra o futuro. Os latinos costumam ser otimista, porque sempre partem de premissa de que Deus é cidadão local e não faltará no momento apropriado. O futuro, como ninguém conhece, cada um idealiza como bem quiser. Os preços do petróleo haverão de cair, os gringos acabarão perdoando a dívida, o déficit fiscal acabará corrigido – e tudo, no final, dará certo.
O problema é que esse cheque não tem fundos. Se o bom whisky, como diz o comercial, você conhece no dia seguinte, o mau, então, nem se fala. A balança comercial implode, o déficit público estoura, a inflação se alastra e a recessão vem cobrar a conta. É o início do desastre.
Lucros e salários são corroídos pela espiral inflacionária. Os pobres morrem de fome, os ricos morrem de raiva. O governante começa a ter crises paranóides. Ninguém me ama, ninguém me quer. Ó ingratidão, porque dominas a alma humana.
De quatro a sete anos depois – é a sina latino-americana – o ciclo recomeça. Surge um novo salvador da nação, com um discurso eloqüente e virulento, cantando a mesma letra, em uma nova canção.
Mala surte à parte, nossa triste América Latina só resolverá os seus problemas quando compreender que é ela a única culpada por eles. Os nossos políticos não são loucos que acreditam em suas promessas malucas e lhe dão procuração eleitoral para exercer os seus desvarios.
Em 15 de novembro a Nação fará os eu exame psicotécnico. Temos só de pensar no resultado.



