O QUE EMPOBRECE UMA NAÇÃO – Jeitinho para que?

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

Os gringos são todos otários… mas estão cada vez mais ricos.

OESP – Publicado em julho de 1998.

Há cerca de uns cinco anos atrás, na Flórida, um conhecido meu foi “pego” pela polícia, em uma auto–estrada. Injustiça, segundo ele. Só porque dirigia a umas 105 milhas horárias. (O limite é de 65 milhas – cerca de 110Km/h…). Jovem, bem apessoado, como confiava demais em sua “lábia” e em seu domínio do idioma, os policiais não viram outra forma senão conduzi-lo, de imediato, ao juiz local. O magistrado ouviu com atenção e respeito á sua argumentação:

“- Eu dirijo muito bem… a estrada estava vazia… estava distraído e” me esqueci de controlar o acelerador”…sou pessoa de “boa família”…jamais cometeria um acidente intencionalmente,…o Dr. Juiz bem que poderia relevar o incidente..etc,etc.

Após encerrar a sua brilhante dissertação, já confiante de que seria dispensado, ouviu desarvorada a sentença.

“- Presumo que o senhor tenha sido sincero e declarado exatamente aquilo que pensa. Assim sendo, não vou multá-lo ou prendê-lo. O senhor será encaminhado imediatamente á uma clínica psiquiátrica, para, durante 10 dias, proceder a exames de sanidade mental”.

Bateu o martelo e, impassível, encerrou a sessão…
Este episódio é bastante elucidativo a respeito do fosso cultural existente entre as sociedades mais desenvolvidas e as nossas. E, também, uma das principais razões porque “ladinos” ibero – americanos acabam por se dar mal quando entendem de “fazer América”. Se formos mais longe, poderíamos inclusive começar a compreender porque esses “desprezíveis ianques” – tão crédulos e ingênuos à primeira vista – são tão ricos e bem sucedidos enquanto nós, espertos e criativos, continuamos há séculos, atolados em nossas mazelas…

Predomina na América (como também em praticamente todas as comunidades desenvolvidas) algo que, para nós, soa incompreensível.

É a “PRESUNÇAÕ DA BOA FÉ”

Todos, em princípio, são inocentes. Qualquer cidadão, até prova em contrário, é honesto, bem intencionado e digno de credibilidade. A palavra de um homem vale mais do que qualquer certidão ou atestado. Presume-se que lê, não importam as circunstâncias, irá cumpri-la fielmente. Ou então apresentar razões absolutamente plausíveis e justificáveis por não poder fazê-lo.
Estranho, não é? Como é que esse gigantesco rebanho de otários consegue dar certo na vida? Pois o fato é que eles, em geral, não são só bem sucedidos,como também estão cada vez mais prósperos…Seria uma heresia pensar que talvez os errados sejamos justamente nós?

Vejamos:

A nossa presunçosa cultura ocidental cabe sempre lembrar, só deixou de ocupar um papel secundário na História Universal muito recentemente. Em cinco milênios de civilização ela só começou a destacar-se de quinhentos anos para cá. Até então os povos realmente ricos e avançados eram chineses, os hindus, os árabes e os turco – otomanos. Os europeus só começaram a destacar-se na Era Renascentista. E isto, justamente porque resolveram abrir-se à cultura dos demais.

O pólo da irradiação da renascença forma justamente as cidades-estado do note da Itália. Ali desenvolveram-se comunidades civicamente avançadas, voltadas para o livre comércio, o intercâmbio de idéias e formas razoavelmente arejadas de convivência cívica e política. Para que pudesse haver algum tipo de prosperidade, logo percebeu-se que a mola propulsora da sociedade haveria de ser algo que transcendesse o mero senso individual, o qual indicava ao homem que ele deveria acreditar em algo mais do que meramente em si mesmo. O bem coletivo não podia prescindir da cooperação coletiva. E essa não poderia existir sem algo tal como a Confiança. Confiança em si, confiança no vizinho, confiança na sociedade, na suas instituições e nos governantes escolhidos para por elas zelar.

Ora, a confiança, enquanto virtude individual, leva qualquer um ao abismo. Não me basta saber que eu cumprirei a minha parte. Tenho que ter fé em meu vizinho, tão logo eu lhe cumpra o prometido, não aja oportunisticamente, eximindo-se do que foi combinado. E, para tanto não me basta unicamente confiar em suas pretensas virtudes individuais. Tenho que ter a certeza de que ele o fará, puro e simplesmente, porque as conseqüências que lhe advirão do rompimento o induzirão a agir da forma correta. E eis aí o x do problema. Ele não é legal, nem sequer moral. É, fundamentalmente, cultural.
Não bastam cadeias, fogueiras, ou Estados totalitários. Em sociedades cuja cultura prestigia a malandragem, incensa “expertos” e tem no “sucesso” o único referencial do mérito individual – pouco importando o modo como este foi obtido – nenhuma destas práticas coercitivas é eficaz.

As Leis têm sempre brechas. Não faltarão bons advogados para descobri-las e safar os seus “clientes”. Boa fé é desculpa de otário. Se todos almejam ser exímios malandros, pouco adianta recorrer ao Estado. Sua tripulação é composta de indivíduos da mesma índole. Quanto mais poderem tiverem, mais vantagens amealharão para si próprios. De mais a mais, nunca faltarão aqueles que, por falta de habilidade, acabarão sendo condenados e pagarão pelos seus crimes. Estes a sociedade execra…não porque foram oportunistas. Mas sim porque não corresponderam à mística do “sucesso”…
Voltemos aos “idiotas” dos gringos…

As suas sociedades são prósperas justamente porque eles nunca se fiaram na coerção externa para eliminar os seus oportunistas. É a própria comunidade, imbuída de outra cultura, que trata de expurgá-los de seu convívio. Nas sociedades evoluídas, eles, ao invés de ser incensado, são tidos por todos como elementos daninhos ao progresso social. Basta uma única falta para que sejam “espontaneamente” banidos da comunidade dos negócios e relegados ao ostracismo social. Existir eles sempre existirão. Mas suas carreiras são curtas e terminam de modo amargo…Em sociedades assim, a única, malandragem eficaz é cultivar a honestidade…

Vale, agora, refletir sobre tão decantada cultura do “jeitinho brasileiro”. Vocábulos como “otário”, “malandro”, ”experto”, “lábia”, ”aplique”, etc, – de difícil tradução em outros idiomas, – já não denunciam por si só um estado de espírito como o descrito acima?
Será que um pouco de igualdade, credibilidade, ética, boa fé e confiança mútua – expressões tão execradas em nosso vernáculo, não nos seriam de alguma utilidade caso fossem mais valorizadas e exercidas com maior freqüência?
Já que tudo o mais deu errado, do que nos custa apostarmos um pouco nisso…


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