O QUE EMPOBRECE UMA NAÇÃO – A falta que faz uma sociedade civil

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

A triste herança que o comunismo deixou.

OESP – Publicado em julho de 1998.

Uma das mais eficientes formas de compreender a história (ao menos a história mais recente), sem dúvida, é ler jornais e revistas antigos. Eles retratam os fatos no momento em que acontecem, antes de ser filtrados e interpretados pelos historiadores. É fácil ser profeta a posteriori. Difícil mesmo é opinar corretamente sobre o futuro antes deste deixar de sê-lo.

Ocorreu-me de reler, dia desses, algumas reportagens e ensaios – publicados no início da década – sobre as perspectivas sócio-econômicas das nações remanescentes do império soviético. A depender das profecias da época…
Não há dúvidas que, devido aos inúmeros trunfos que a região possui, os fluxos de investimentos internacionais, doravante, se concentrarão ali:

• Uma localização geográfica privilegiada, com fácil acesso tanto para a Europa quanto para a Ásia e os países árabes.
• Um vasto parque industrial já instalado, dependendo apenas de alguns ajustes tecnológicos.
• Um “capital humano” dos mais qualificados do mundo, tanto em termos de educação e cultura, quanto em capacitação profissional e disciplina e ética do trabalho.
A somatória de tudo isso fará do Leste Europeu, em menos de uma década, um dos mais avançados pólos de produção e consumo do planeta – reconquistando, assim, a posição que já lhe coube até o segundo decênio do século XX.!

Uma argumentação, sem dúvida, impecável. Mas, dentre numerosos e pródigos depoimentos, um, em especial, se destacava pelo seu ceticismo:

“- Transformar um aquário em uma sopa de peixes é relativamente simples. Agora… reverter o processo…”
Dizem que, na Grécia antiga, era costume trucidar os portadores de más notícias. Ao autor da ponderação acima coube apenas o anonimato com que alguns órgãos de imprensa costumam punir os testemunhos dissonantes: “(…) segundo a opinião de um especialista, (…)”.

Pois bem. Sete anos se passaram. Constituições libertárias foram redigidas, governos democráticos foram eleitos e o livre mercado passou a ditar as regras da economia.

Quanto aos resultados…bem,há quem diga que a Realidade, malvada,conspirou contra os cientistas sociais…Com raras e explicáveis exceções, todas aquelas nações sofreram um brutal retrocesso econômico. E dão-se por felizes aquelas que foram poupadas de cruentas e recorrentes guerras civis.
Os investidores estrangeiros logo desistiram de fixar residência por aquelas plagas. Alegaram, polidamente, que ainda faltavam alguns pressupostos básicos para um desenvolvimento econômico efetivo e foram embora com a promessa de voltar em breve: no máximo daqui a duas ou três gerações…

O decantado parque industrial lá existente necessitava de lago mais do que ajustes tecnológicos. Na verdade ele era totalmente inaproveitável. Pelo volume de insumos que demandava e a quantidade de poluentes que expelia, não se tratava de indústrias, mas sim de poderosas e eficientes armas de devastação ambiental.

Quanto ao “capital humano”, apesar do excelente nível, logo percebeu-se que faltava-lhe algo.E este algo, na verdade, faz toda a diferença.
Nós o conhecemos como “Sociedade Civil”.
Trata-se da complexa urdidura e entrelaçamento de associações e instituições que são cridas por iniciativas de base, independe dos governos e, onde existe, logra elevar súditos à condição de cidadãos.

Quanto mais as pessoas se associam, para os mais diversos interesses ou fins, mais se irrigam as astérias cívicas, mais se fertiliza o terreno onde florescem as virtudes sociais e da solidariedade, da colaboração, da confiança mútua e da busca do bem comum…Neste aspecto, tanto a congregação religiosa, quanto a sociedade filantrópica ou mesmo a associação comercial, todos representam vínculos de importância equiparável no sentido de garantir aos indivíduos o contato “cara a cara”, onde a variedade, a heterogeneidade e a diferença podem ser compreendidas e respeitadas.

O melhor antídoto contra os preconceitos e a intolerância ainda é o diálogo e o compartilhamento de objetivos comuns. O melhor freio contra os excessos dos Estado ou dos movimentos fanatizados ainda é a sociedade, tolerante em suas diversidades, mas convicta e coesa em seus princípios fundamentais.

De volta aos velhos jornais e revistas de 1990, agora ficou mais fácil compreender porque o destino foi tão cruel como os então futurólogos do Leste Europeu. Afinal eles não previram as revoluções, os genocídios e toda sorte de fanatismos que surgiram por lá. Tampouco lhes passou pela cabeça que, por mais “bem educado” que fossem, faltava àqueles povos um mínimo de inter-relacionamento e disposição cooperativista, os quais só florescem a partir de vínculos proporcionados por uma sociedade independente e auto – suficiente. Por mais trunfos e vantagens comparativas que auqelas nações apresentassem, o regime soviético havia lhes despojado daquele que era os eu maior patrimônio. Realmente faltava-lhes algo. Uma sólida, fértil e fervilhante Sociedade Civil.

São lições que a vida nos dá.

Nosso “aquário”, incipiente, ainda está em fase de construção.
Cuidemos dele com carinho.

Do empenho que lhe dedicarmos hoje, depende o Brasil que teremos amanhã.


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