O PT no poder – Por causa de um boné

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

Só há uma maneira de não contrariar um tigre. É deixar-se devorar.

OESP – publicado em julho de 2003

“Por falta de um prego, perdeu-se uma ferradura. Por falta de uma ferradura, perdeu-se um cavalo. Por falta de um cavalo, perdeu-se um cavaleiro. Por falta de um cavaleiro, perdeu-se uma mensagem. Por falta de uma mensagem, perdeu-se uma batalha. Por falta de uma batalha, perdeu-se um reino. Tudo por falta de um prego”. Esse poema, “O Prego”, fez grande sucesso no século 17. Procurava mostrar como pequenos detalhes podem ser decisivos na história dos povos. Nos dias de hoje, no Brasil, ele bem poderia ser adaptado, substituindo o prego por um boné.

O presidente Lula, em palácio, numa audiência formal, esqueceu-se de sua condição de supremo magistrado da Nação e, sem a menor cerimônia, vestiu o boné do MST. Talvez ele não tenha se dado conta da gravidade e das previsíveis conseqüências do seu ato. O que, para ele, não foi mais do que um gesto fortuito e espontâneo, na verdade chocou profundamente a sociedade brasileira. Lula parece que, por vezes, se esquece de que não é mais o bravateiro militante das oposições; de que hoje ele é o governante de 170 milhões de brasileiros; de que esse povo presta cuidadosa atenção a todos os seus gestos e palavras; e de que o seu maior compromisso, dia após dia reiterado, é com o império da Lei e da Ordem.

Lei e ordem? Que bobagem, dirão alguns. Isso não passa de um slogan direitista.

Não é. Não há poder, não há governo, na história universal, que não tenha alicerçado a sua autoridade sobre esses dois princípios. O desprezo pelas leis, a promoção da desordem, podem ser eficientes instrumentos para a derrubada de um governo e para a tomada do poder. Uma vez conseguido isso, mesmo o mais rebelde e revolucionário dos governantes, no ato seguinte, tratou de consolidar a sua conquista pela imposição de leis e pela mais restrita obediência à ordem. Aqueles que ignoraram tais imperativos tiveram vida curta. Acabaram devorados pelos próprios monstros que criaram. Se “lei e ordem”, valem até para as mais ferozes ditaduras, de esquerda ou de direita, de maior importância se revestem quando o que se pretende é um governo democrático. A anomia, a ausência total de regras ou de autoridade, é a ante-sala do caos social. A liberdade não se firma sem que haja um prévio ordenamento. A paz e a segurança não se estabelecem sem que haja um mínimo de autoridade. Isso vale para qualquer regime. Menos, talvez, ao que o senhor Lula preconiza. Ou pelo menos sinaliza ao vestir, despudoradamente, o tal do boné.

Não se trata de um boné qualquer. Ele é vermelho, como o sangue, e traz em sua fronte as insígnias do famigerado Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Não são poucos os brasileiros que tiveram a triste oportunidade de saber o que ele significa. Significa invasões de propriedade, depredações, esbulhos, saques, cárceres privados, enfim, nada que guarde a menor relação com os princípios da lei e da ordem. E Lula, aquele que deveria ser o primeiro guardião desses postulados, sem mais nem menos, consente em vestir o seu boné. Qual é a mensagem explicitada por tal gesto? A de que ele concorda com as atitudes do MST. Vestir o boné, entre outras coisas, quer dizer: vejam! Eu sou um de vocês!

Talvez o Lula do ano passado pense realmente assim. Mas o Lula de 2003 não pode fazê-lo. Já no dia 1º de janeiro ele jurou solenemente cumprir e fazer cumprir a Constituição e as leis do nosso país, condição primeira para que pudesse, a seguir, assumir a presidência da República. Ora, o MST desobedece a Constituição e agride frontalmente as leis. O Lula de ontem, cidadão comum, podia se dar ao luxo de ser amigo do MST. Já o Lula de hoje, que preside todos – sim, todos – os brasileiros, não tem esse direito.

A sua esperada isenção já foi comprometida ao nomear o senhor Miguel Rosseto, notório simpatizante do MST, para dirigir o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Teria sido mais digno se não tomasse partido, indicando alguém neutro para a pasta. Qual não foi o espanto quando o senhor Rosseto, sem o menor prurido, tratou de indicar lideranças emessetistas para dirigir as sedes regionais do Incra. Lula, o supremo magistrado, silenciou frente a tamanho despautério. O MST retribuiu a sua infantil gentileza promovendo as maiores invasões e tumultos de toda a sua história.

Como não há mais no Brasil latifúndios improdutivos aos quais invadir, nem sem-terras genuínos aos quais aliciar, o movimento mudou a sua prática e o seu discurso. Invade e depreda propriedades produtivas, promove arruaças e saques nas áreas urbanas e alicia quadros nas periferias das cidades, transformando em sem-terras pessoas que jamais tiveram contato com a terra. No que tange ao discurso, não se fala mais em combater os latifúndios improdutivos, mas tão simplesmente em combater os latifúndios, independente do fato de serem produtivos ou não. E isso não basta. O MST, agora, deseja terras em regiões ricas, onde os atuais proprietários lograram durante décadas e a muito custo construir uma infra-estrutura de primeira linha.

Os assentamentos já realizados vão de mal a pior. São, em boa parte, verdadeiras favelas rurais onde a fonte principal de alimento continua a ser a cesta básica doada pelo governo. Mas isso não tem importância. Diversificam-se os objetivos. Agora se criam tumultos por causa do preço do pedágio e também se destroem lavouras transgênicas. O show tem que continuar.

Quanto ao presidente Lula, este nada faz. Pior. Com a maior desfaçatez, ainda consente em vestir o boné do MST, afrontando toda a população pacífica e cumpridora de leis deste país.

Lula, ingenuamente, acredita que, ao jogar bifes aos tigres, eles se tornarão vegetarianos. Bobagem. Devorarão os bifes, as leis e, por fim, a própria legitimidade do presidente.

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