O PT no poder – Os herdeiros do Che

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

Para eles, a História só caminha através dos seus pés.

OESP – publicado em fevereiro de 2004

Quase meio século passado, não se sabe ao certo o quanto há de verdadeiro ou de lendário nesta história. Mas ela é plausível. Vitoriosa a revolução em Cuba, Ernesto Guevara, nomeado ministro da Indústria e Comércio, adotou o costume de viajar de jipe, de vila em vila, para conhecer de perto os problemas que afligiam o povo da ilha. Em uma aldeia no litoral, ele ouviu a principal reivindicação dos habitantes locais. “Nós vivemos da pesca. O que precisamos são mais barcos, para que cada um possa cuidar de seu próprio sustento sem precisar trabalhar para os donos das embarcações”. O Che achou a reivindicação justa e anotou o pedido. Tão logo retornou a Havana, reuniu os seus auxiliares e requisitou uma dezena de novos barcos para a aldeia.

“Impossível, ministro. Os nossos estaleiros já estão com toda a produção comprometida”.

“Pois eles que aumentem a produção!”.

“Não dá. Não há madeira suficiente”.

“Aumentem a produção de madeira!”.

“Não é possível. As nossas florestas estão do outro lado da ilha e não há estradas para trazer a matéria prima”.

“Tragam a madeira pelo mar!”.

“Justamente o que nos falta são barcos”.

“Como é que vamos resolver o problema?”.

“Simples. Basta permitir que as empresas americanas explorem as florestas e nos tragam a madeira.”

“Você está louco?! Foi contra isso que nós fizemos a revolução!”

E assim ficou. As florestas permaneceram virgens, os pescadores ficaram sem os barcos e o ministro, após várias outras decepções, acabou se demitindo. Optou por tentar exportar a revolução, algo que ele sabia fazer melhor.

Deu-se mal na África, porque os nativos não entendiam o espanhol; deu-se mal na América do Sul, porque os nativos não entendiam a revolução. Acabou denunciado às autoridades e foi executado pelo exército boliviano. O seu chefe, Fidel, mais pragmático, permanece até hoje no poder. No começo ele insuflava o povo contra os americanos por que estes o exploravam. Após o embargo comercial ele insufla o povo contra os americanos porque estes, agora, se recusam a explorá-lo. Este negócio de revolução é complicado. Bem fez o Che. Ele logo compreendeu que, mais difícil do que morrer por princípios, era tentar viver de acordo com eles…

Guevara – que não soube fazer barcos – fez, em compensação, a cabeça de muita gente. Quase quatro décadas depois de sua morte, ainda tem tietes por toda a parte. Muitos deles, no Brasil, agora estão no poder.

Seriam revolucionários autênticos? Longe disso. Com exceção de uma ou outra antiquada Heloísa Helena, fiel depositária de suas idéias, os herdeiros do Che guardam dele apenas a barba – agora cuidadosamente aparada – e a presunçosa convicção de que a História só caminha através dos seus (deles) pés.

Nesses poucos meses de Lulalá, é curioso notar, tudo o que ocorre, aos olhos dos petistas, é visto como épico, heróico ou inédito.

Lula, por exemplo, é “o primeiro presidente de origem humilde da nossa História” (Não é. JK, entre outros, também nasceu pobre. A diferença é que deu duro e tratou de estudar).

O PT, por sua vez, representa “a primeira vez que o povo chega ao poder” (e os demais presidentes chegaram lá com os votos de quem?).

“O governo Lula foi o único a se preocupar com a pobreza no Brasil” (embora todas as suas políticas sociais tenham nascido no governo de FHC).

É neste governo, segundo eles, que “pela primeira vez os brasileiros possuem auto-estima” (ironicamente a auto-estima dos brasileiros nunca foi tão elevada quanto nos anos de chumbo de Emílio Médici).

E vai por aí afora. Só falta afirmarem que “nunca antes o Brasil se sujeitou de forma tão altiva e soberana aos ditames do FMI”.

No universo petista tudo é grandioso: as palavras, as idéias e as intenções. Pena que não haja correspondência no mundo real. A economia está estagnada, o desemprego é crescente, a máquina administrativa não funciona e o espetáculo do crescimento foi adiado para a próxima temporada.

Como o Che, os seus herdeiros também acreditam saber de tudo. Só não sabem como produzir barcos. E isso, para quem governa, pode ser a deficiência fatal.

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