O PT no poder – O revolver era de espoleta

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

8 meses depois, cadê o tal do governo histórico?

OESP – publicado em agosto de 2003

Na história recente do Brasil, todos os presidentes iniciaram os seus mandatos com altíssimos índices de popularidade. Até o Figueiredo, no começo, era popular. Isso não quer dizer que permanecerão assim no transcorrer de suas gestões. Esse é o argumento de que tenho me valido, nos últimos oito meses, quando me aparecem lulistas desvairados, alegando que o seu presidente é uma figura ímpar, excepcional, na história do Brasil.

Não, não vejo nada de extraordinário em Lula, nem tampouco em sua trajetória. Ele começou a vida pobre? Não foi o primeiro. Juscelino não tinha sequer sapatos até os dez anos de idade. Sua carreira política foi estrondosa? Não mais do que a de Jânio que foi de suplente de vereador em São Paulo a presidente da República em apenas 13 anos. Ou de Collor, que se iniciou na política como prefeito nomeado de Maceió e chegou ao Planalto apenas dez anos depois, aos 39 anos de idade.

Lula não é o primeiro presidente não nascido nas elites e o fato de não ter formação superior não deveria ser propagandeado por ele como um trunfo, mas sim como uma deficiência. De 1980 em diante ele teve tempo e condições financeiras para ter levado a frente os seus estudos. Não o fez porque não quis. Em condições extremamente mais adversas, Kubitcheck trabalhou pesado para custear seus estudos noturnos e logrou formar-se médico. Nada de incomum. Essa é a história de centenas de milhares de brasileiros que trabalham durante o dia para financiar a sua educação à noite.

Tenho até uma certa implicância com o fato de Lula tanto alardear a sua pouca instrução. Como fico perante os meus filhos a quem eu prego com tanta insistência a necessidade de estudar com afinco como algo imprescindível para vencer na vida?

Eu creio que, passados oito meses, já terminou a fase de incensamento da personalidade de Lula. Ai de mim se publicasse este texto um semestre atrás! Nunca vi tanta bajulação, tanto puxa-saquismo como o que se viu nos primeiros dias do governo. Trata-se de um momento histórico! Exaltavam-se alguns. Não mais histórico do que a posse de qualquer outro presidente, pensava eu com meus botões. Lula vai mudar o Brasil! Maravilhavam-se outros. Não mudará mais do que qualquer um de seus antecessores, resmungava eu. Ele vai acabar com a miséria! Exclamava a maioria. Como se todos os seus antecessores não tivessem feito a mesma promessa…

Até aqui, que me perdoem os mais deslumbrados, eu confesso que ainda não vi nada. A política econômica tem como único mérito o fato de o ministro Palocci ser sensato o suficiente para não brigar com os axiomas da matemática. Se ele fosse um populista, tudo estaria muito pior. No mais, não dá para a gente ficar aplaudindo a recessão e o desemprego que, por culpa de Lula ou não, só cresceram durante este início de governo.

Na política social temos o Fome Zero que é um estrondoso sucesso de público, mas que, por enquanto, ainda não passou da fase publicitária. Lula, quando anunciou o programa afirmou que iria acabar com a fome de mais de trinta milhões de brasileiros. Por enquanto está distribuindo vales de alimentação para não mais do que alguns poucos milhares de miseráveis. O bolsa-escola e o bolsa-saúde de FHC, sem nenhum alarde, atendiam de forma muito semelhante e mais eficiente um número múltiplas vezes maior de pessoas.

Lula, com espalhafato, anuncia que a mudança do Brasil começa pela reforma da Previdência. A mesma reforma, aliás, que FHC tentou fazer anos atrás e o PT não deixou. Ela acaba de ser aprovada, em primeiro turno, na Câmara Federal. Seria um grande triunfo para o governo não fosse o fato de que a reforma só passou porque contou com os preciosos votos das bancadas do PFL e do PSDB. Se elas fizessem oposição como o PT fazia, a reforma já estaria morta e sepultada. Além do mais, para turvar esta vitória há o fato de que o próprio Lula aposentou-se em 1996, com um belo provento, como anistiado, aos 51 anos de idade e 26 anos de serviço. Aposentadoria “especial”, então, não era pecado?

Há também, contando pontos contra Lula, a vacilante postura do governo com relação ao sacrossanto direito de propriedade. Sob qualquer pretexto, invade-se de tudo, no Brasil, nos últimos meses. Receando desagradar seus antigos aliados, os sem terra, sem teto e sem escrúpulos, não se viu do presidente, até agora, uma única atitude que demonstre sua intenção de reprimir com energia esses carbonários. Como o governo não reage, as invasões se multiplicam e seus líderes incitam a massa com declarações cada vez mais audaciosas e incendiárias. Tirar a pasta de dente para fora do tubo, como Lula já sabe, é tarefa fácil. O que ele ainda não sabe é como colocá-la novamente para dentro.

Será que os bajuladores, tão pródigos no início do mandato, ainda mantém o mesmo entusiasmo?

Eu, de minha parte, continuo tão descrente e cético quanto estava em janeiro.

Então é este é o governo histórico que o PT ia fazer?

Serão estas as grandes mudanças que o vanglorioso Lula iria promover?

Petistas, me perdoem, mas eu, por enquanto, ainda não vi nada. E o pouco que vi, confesso a vocês que não gostei.

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