O PT no poder – O piano de cauda de Lula

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

Que diabos ele foi fazer em Cuba?

OESP – publicado em setembro de 2003

Uma das coisas mais incômodas que existe é receber de herança um piano de cauda. Não é decorativo nem funcional. Não cabe na sala de visitas e nem no sótão. Desmontá-lo não dá e desfazer-se dele é uma afronta à família. O que fazer?

É sobre isso que deve estar refletindo o nosso sempre incoerente presidente Lula. Ele tem o seu piano de cauda e não sabe o que fazer com ele. Encerrado o seu fugaz momento de glória na ONU, onde entediados diplomatas de todo o mundo o ouviram dar lições de moral ao presidente dos EUA e, com aplausos da França, apresentar a candidatura do Brasil ao Conselho de Segurança do órgão, todos saíram dali compenetrados com a importância simbólica do evento. Bush voltou para Washington, Chirac se trancou em Paris e Lula, bem Lula saiu do encontro de cúpula diretamente para a periferia da periferia do planeta globalizado. Foi render homenagens e mesuras ao mais antigo ditador do mundo, o decrépito Fidel Castro, em Cuba.

Olha, Lula, eu não sou ninguém para lhe dar conselhos, mas que diabos você foi fazer aí? O território de Cuba é menor do que o do Amapá, sua população é menor do que a de Camarões e o seu PIB equivale ao do Afeganistão. Só na América Latina, há pelo menos uns 15 países comercialmente mais interessantes. Sair de Nova York com destino à Europa, vá lá. Mas Cuba? Não sei não. Isso vai pegar mal perante os seus colegas estadistas. É o mesmo que sair da tribuna solene da ONU, pegar um ônibus e ir tomar umas biritas no Harlem.

Cuba e Fidel são muito mal vistos internacionalmente, você sabia? Ele, em especial, não é o tipo de pessoa com quem se deve conversar. Se você se deu ao trabalho de ir até aí para fazer uma média com a Heloisa Helena, vá lá. Mas você não precisa fazer média com a Heloísa Helena e seus cubanófilos. Que você fosse fazer turismo ideológico em Cuba enquanto era apenas um político desempregado também se entende. Mas agora não. Você é presidente de uma nação do porte do Brasil, a quinta mais vasta do mundo e uma das dez maiores economias do planeta. Ao render homenagens a Fidel Castro, você afronta os 170 milhões de cidadãos que preside.

Cuba é o país que tem mais jornalistas presos no mundo. São cerca de trinta, todos eles encarcerados por crime de opinião. Além deles há também um cidadão brasileiro, que está preso em Havana há nove meses, sem acusação formada. Há seis meses, três cubanos foram fuzilados sem julgamento e algumas dezenas foram condenados pelo hediondo crime de fazer oposição ao regime. Quando estiver com o companheiro Fidel, você vai aproveitar a oportunidade para interceder por eles? A sua notória amizade com Castro vai lhe permitir censurá-lo pelo seu contumaz desrespeito aos direitos humanos.

Se nada disso for possível, você sequer deveria ter ido a Cuba. Ao fazê-lo, está empenhando o seu prestígio de presidente da República de forma irresponsável.

“Vim tratar de negócios”, você dirá. Mas que tipo de negócios pode ser tratado com um país cuja economia é menor do que a do Vietnã?

Sinto muito, Lula, mas você está redondamente enganado sobre Cuba. A ilha já teve o seu charme, no passado, quando ocorreu a revolução. Em 1959 havia um ditador e a economia dependia de dólares provindos do turismo, da monocultura da cana e da prostituição. Passado quase meio século como é hoje? Bem, há um ditador e a economia depende de dólares provindos do turismo, da cana e da prostituição. Apesar de ter recebido, durante décadas, uma ajuda anual de vários bilhões de dólares da União Soviética tudo o que Fidel conseguiu foi reduzir o PIB do país, que era o quarto da América Latina antes da revolução, para o décimo-quinto lugar.

E os avanços sociais? Você perguntará. Não foram tantos, relativamente aos demais paises da região. Bahamas, Barbados, Antígua, Dominica, Costa Rica, todos tem um IDH maior do que o de Cuba, e sem fazer revolução nenhuma. Além do mais, vale lembrar, nos odiosos tempos de Fulgêncio Batista, Cuba apresentava os melhores indicadores sociais de toda a América Latina.

É provável que, hoje em dia, a renda proveniente do turismo já seja maior do que a da cana de açúcar. Desde a década passada, o puritano Castro tem permitido a construção de luxuosíssimos hotéis e spas no país, que atraem milhares de gringos endinheirados todos os anos, concentram boa parte dos numerosos médicos que o regime formou e são um foco permanente da prostituição que no passado Fidel tanto condenava.

Não se faça de rogado, meu caro Lula. Além de exigir respeito aos direitos humanos, questione Fidel a respeito da decadência econômica que o seu maravilhoso regime preside.

Ele lhe dirá que o país está em recessão exclusivamente por causa do embargo comercial que os EUA lhe impingiram (depois que ele expropriou todos os bens norte americanos sediados na ilha).

Se você tiver coragem, pergunte-lhe então: mas você não fez a revolução justamente para livrar-se da “exploração americana”? Agora você se lastima porque os americanos se recusam a “explorá-lo”?

Infelizmente, nós sabemos, você não fará nada disso. Tratará Fidel Castro com reverência e respeito, não apenas em função dos favores que ele lhe prestou no passado, como também por que muitos dos teus seguidores ainda acalentam o sonho de que Cuba é o paraíso na Terra.

Fidel Castro, sem dúvida, é o piano de cauda que você herdou. Não adianta reclamar. Trate agora de acomodá-lo.

Related Posts with Thumbnails

Deixe um Comentário

Untitled Document
  

 

 

?>