As amargas desventuras de um petista no poder.
OESP – publicado em abril de 2002.
Ok, Lula, você venceu. Pela primeira vez eu estou acreditando que você tem chances reais de chegar ao poder. O raciocínio é simples. Segundo as pesquisas, você tem quase 40% das intenções de voto, o que – salvo a hipótese de você morrer – o coloca irreversivelmente no segundo turno. Se houver segundo turno.
Quem será o seu adversário? Não é difícil de adivinhar. Garotinho terá exíguos dois minutos por dia na TV durante a vigência do horário eleitoral. Vai morrer na praia, ou, quando muito, no piscinão de Ramos. Ciro, por sua vez, além de ter pouco tempo na TV, carece de consistência política. Ele fala bem, tem boa presença, poderia ser um novo fenômeno Collor não fosse o fato desta eleição não ser solteira. Como não é, ele não tem chances.
Sobra, portanto, o José Serra. É o candidato do governo e tem prestígio nos meios empresariais. Se não for substituído – o que é improvável – será ele o seu oponente na reta final. Ora, o Serra não é lá muito carismático. O mínimo que se diz é que ele é um “genérico” do Fernando Henrique. É um homem inteligente e preparado, sem dúvida. Mas falta-lhe charme político. É difícil imaginá-lo sobre um palanque arrebatando as massas. E esse talento, Lula, você tem de sobra.
Vamos supor que você venha a vencer as eleições. Já em janeiro do ano que vem você será o nosso presidente da República. O que mudará no Brasil daí em diante?
É difícil saber. Sua proposta de governo ainda não é conhecida. Por enquanto é o somatório de todos os ressentimentos nacionais. Acresça-se a isso todas as ilusões e utopias e temos, como resultado, o seu disparado 1º lugar na preferência popular.
No momento em que você vestir a faixa presidencial você descobrirá que governar é criar descontentes. Fernando Henrique, quando assumiu o poder, pediu a todos que esquecessem o que ele havia escrito. Você haverá de pedir para que esqueçam tudo o que falou. Realidades amargas o esperam. E você não poderá evadir-se delas.
Você descobrirá, por exemplo, que o figurino moderado e conciliador que os seus marqueteiros criaram para você não se extingue na campanha eleitoral. Você terá de exercê-lo durante todo o tempo em que permanecer no poder.
Maioria no Congresso você não terá. Ou melhor, terá somente nos seus primeiros meses de governo. Os parlamentares sempre apóiam presidentes em início de mandato. Daí para frente você terá de conquistá-la. E isso, por si só, significa abrir mão de inúmeras de suas idéias e convicções. Não se sinta tentado a afrontar o Congresso. Antes de você, Jânio e Collor já o fizeram. E os resultados não foram animadores.
Garantida, a duras penas, a maioria parlamentar, você poderá então se dedicar ao seu sonho de revolucionar o Brasil. A primeira providência vai ser banir esse perverso modelo econômico “neoliberal”.
Não é tão fácil como parece. Você descobrirá que o mundo globalizado de hoje é todo ele “neoliberal”. “Um outro mundo é possível”? Talvez. Mas por enquanto essa hipótese não passa de um slogan. Você terá de lidar com esse mundo, mesmo. E esse mundo é movido pelas cruéis e implacáveis forças do mercado.
“Maldito mercado!”. Dirá você.
“Ele não pode prevalecer sobre as necessidades humanas!”.
Não tente telefonar-lhe. Não haverá ninguém na outra ponta da linha. Outra terrível descoberta. Você passou anos criticando o mercado e agora percebe que o mercado não é uma pessoa, nem um grupo de pessoas, nem sequer uma corporação. Ninguém o dirige, ninguém o orienta, ninguém é capaz de freá-lo. Ele é tão somente uma realidade. É um palco onde interagem seis bilhões de pessoas sem que nenhuma possa se impor sobre as demais.
Não tente afrontá-lo, Lula. Muitos tentaram, é verdade. Mas não há no mundo um exemplo sequer de alguém que conseguiu fazê-lo com sucesso. Erguer barreiras para conte-lo é condenar-se ao atraso e à miséria.
É isso aí, Lula. Você é o presidente, mas quem manda na economia é o mercado.
Você quer reestatizar? Esqueça, pois o mercado não deixa. Você quer confiscar propriedades? Desista porque o mercado resiste. Você pretende supertaxar os ricos? Não insista porque o mercado reage. Você tenciona dar um calote na dívida? Não tente porque o mercado se vinga.
“Puxa vida! Não dá pelo menos para baixar os juros?”.
Não dá, Lula, pois quem sinaliza a taxa de juros é o mercado.
“Mas afinal, que diabos eu posso fazer?”.
Haverá de se perguntar você. Muita coisa, desde que obedeça as regras do mercado. Respeite a propriedade privada, não tolha a livre iniciativa, não iniba os fluxos de investimentos, não gaste mais do que arrecada, não se fie em dinheiro emprestado. O resto você pode fazer à vontade.
“E as políticas sociais que eu prometi na campanha?”.
Você pode empreendê-las desde que não estoure o orçamento. Existe uma lei de responsabilidade fiscal, você se lembra?
“Que se dane a lei. Vou gastar o necessário para que haja distribuição de renda!”.
Se você fizer isso, criará um déficit; para cobrir o déficit você gerará inflação; ao gerar inflação, você reconcentrará a renda…
“Mas então de que me adianta ser presidente?!”.
Boa pergunta, Lula. Você percebeu agora por que você é muito mais útil na oposição?



