O PT no poder – Não somos chorões

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

O que Lula pretende com a sua exótica política externa?

OESP – publicado em janeiro de 2004

O que distingue os políticos sábios dos tolos, é o fato de que os primeiros falam porque têm alguma coisa a dizer. Já os segundos falam porque têm que dizer alguma coisa. O presidente Lula alterna os dois tipos de fala de tal modo que a gente nunca sabe ao certo se é ou não para se levar a sério o teor de seus pronunciamentos.

Terça-feira, na Índia, em cerimônia oficial, na presença de empresários dos dois países, o presidente se arriscou em mais um de seus mal aventurados improvisos. Após enaltecer a presumida desenvoltura dos empreendedores indianos, ele fez uma dura crítica aos seus similares brasileiros. Qualificando-os de “chorões”, opinou que eles “deveriam reclamar menos e vender mais”.

No dia seguinte, frente ao visível mal estar causado pelas suas palavras, Lula procurou amenizá-las, isentando do “pito” os oitenta abnegados homens de negócios que o acompanhavam naquela sua exótica expedição. Por exclusão, a reprimenda continuou valendo para todos os demais.

Volta a pergunta inicial: é para se levar a sério ou não? Nós já nos acostumamos a conceder a Lula uma certa “licença poética” quando ele fala de improviso. Às vezes as suas frases não fazem o menor sentido. Às vezes não expressam de forma alguma as suas reais convicções. Mas, caso ele acredite realmente naquilo que falou, isso revela uma visão profundamente equivocada sobre o que é o comércio exterior e qual é o papel que cabe aos empresários e ao governo nesse processo.

OK, Lula. Os empresários indianos são mais ousados do que os nossos. O que não te contaram foi o resto da missa. Eles podem se dar ao luxo de ser audazes. Contam com um gigantesco apoio do governo para tanto. Financiamento abundante, juros de pai para filho, subsídios em profusão, e incentivos e privilégios quase que pornográficos. A Índia não é lá um paraíso da livre empresa. O Estado intervém pesado na economia, sobretudo quando é para favorecer as exportações.

E quanto aos nossos “chorões”? Ora, Lula, justiça seja feita, eles não pedem nada ao Estado, a não ser que este não os atrapalhe. E o fazem em vão, pois o Estado atrapalha e muito.

Empresário é chorão por que quer crédito? Pois pode chorar à vontade. Lula e seu governo enxugam oito décimos dos recursos dos bancos para financiar a dívida pública. Resta muito pouco. E como o que é raro é caro, as taxas cobradas – as mais altas do planeta – são de provocar lágrimas mesmo no mais durão dos empreendedores.

Outro fator que provoca prantos nos nossos emotivos empresários é o excorchante preço que pagam, através de impostos, para manter a imponente e inoperante máquina estatal, presidida pelo mesmo Lula que tanto os censura. A pesada carga fiscal eleva os custos dos nossos produtos e inibe as exportações. A lacrimosa novela não termina aí. Quem ousa exportar ainda tem de desbravar uma espessa selva burocrática, enfrentar péssimas estradas para chegar aos portos e, lá chegando, arcar com os seus pesados custos de embarque.

Tudo isso para ter que ouvir o nosso presidente, na Índia, exaltar o suposto empreendedorismo dos nativos em detrimento dos brasileiros “que só sabem reclamar”.

Por falar nisso, que diabos o nosso presidente foi fazer por lá?

Tudo bem. O relacionamento dos nossos empresários com o governo – em especial com este – ainda não chegou ao nível de entrosamento que levou um presidente norte-americano, no passado, a afirmar que “o negócio dos Estados Unidos são os negócios”. Mas se Lula pretende criar no Brasil um empresariado mais ousado, é necessário que o governo também participe.

Em meados dos anos 90, quando o país foi integrado a Área de Livre Comércio da América do Norte, o governo do México empreendeu um esforço fenomenal no sentido de estreitar relações com os seus novos parceiros – Os Estados Unidos e o Canadá. Inúmeras missões oficiais foram enviadas a estes países, com o objetivo de esmiuçar a fundo as suas economias, suas instituições e suas legislações. Milhares de funcionários do governo, em conjunto com as empresas privadas, foram encarregados de estudar as implicações e elaborar estratégias próprias de convivência em cada um dos diversos cenários econômicos e sociais atingidos pela nova parceria. O governo mexicano entendia que aquele era um momento decisivo na história da nação. Ou eles aprendiam quais eram as melhores formas de lidar com os seus vizinhos do Norte, ou então o país seria engolido por eles.

A estratégia deu certo. E o México, em uma década, dobrou o seu Produto Interno Bruto e tomou do Brasil o papel de maior economia da América Latina.

Pois bem. O Brasil está na iminência de se integrar à ALCA. E o que faz o nosso governo?

Nada. O Itamaraty prefere adotar uma despropositada e fora de época política terceiro-mundista. O presidente Lula se dedica a estreitar relações com paises do porte e da importância da Líbia, de Angola e de São Tomé e Príncipe e almeja formar um assim chamado G-3, com parceiros do porte econômico da África do Sul e da Índia. Exotismos à parte, não temos quase nada a ganhar nessas parcerias, nem no campo econômico, nem no político nem sequer no cultural. Enquanto Lula almeja liderar os pobres, o que os pobres querem, na verdade, é estreitar relações com os ricos. A Índia, maior exportador de softwares do mundo, que o diga.

Não, Lula, nenhum de nós – do micro ao grande empreendedor – é, de fato, chorão. Merecedora de lágrimas é a sua delirante, dispendiosa e inoportuna política exterior.

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