O presidente eleito nasceu pobre, mas não é o primeiro.
Oesp – publicado em novembro de 2002
Filho de um caixeiro-viajante e de uma professora primária, Juscelino Kubitschek de Oliveira, ficou órfão aos 2 anos de idade. Em Grupiara, nos grotões de Minas Gerais, sua infância foi de pobreza e penúria, a ponto de não ter sapatos até os 10 anos de idade. Serviu como coroinha para custear os seus estudos como seminarista. A duras penas conseguiu concluir os seus estudos, formando-se médico graças aos parcos recursos que amealhava como telegrafista. Elegeu-se presidente da República aos 53 anos de idade, exercendo o mandato de 1956 a 1961.
Eurico de Gaspar Dutra foi presidente da República de 1946 a 1951. Seu pai era comerciário e com grandes dificuldades conseguia manter a família de cinco filhos dos quais Eurico era o caçula. Teve uma infância pobre e plena de necessidades. Custeou os seus estudos trabalhando desde criança como auxiliar no mercado municipal de Cuiabá. Aluno brilhante e disciplinado logrou ingressar na carreira militar onde, por mérito, chegou a general. Foi eleito presidente aos 63 anos de idade.
O pai de Jânio da Silva Quadros, apesar de médico, teve, pela vida, uma trajetória errática, tentando a sorte em diversas cidades. Alcoólatra, irascível, fez com que a sua família passasse por dificuldades sem conta. Jânio, estudante brilhante, entrou na faculdade de Direito aos 18 anos de idade e custeava seus estudos dando aulas de português. Em 1960 foi eleito presidente da República.
Ernesto Geisel, filho de um imigrante alemão, teve uma infância pobre e modesta. Jogava futebol com bolas feitas de meia, recheadas pela mãe com papelão e trapos. Seu maior sonho era uma bicicleta, mesmo que usada, mas jamais pôde realizá-lo. O futuro que seu pai lhe traçara era o de ser carroceiro. Mas Ernesto era um estudante metódico e, durante o curso primário ganhou inúmeras medalhas de aplicação, assiduidade e comportamento. Ingressou no Colégio Militar onde iniciou uma exitosa trajetória que o guindaria ao topo da carreira. Ernesto Geisel foi presidente da República de 1974 a 1979.
Luiz Inácio Lula da Silva, filho de imigrantes nordestinos, formou-se torneiro mecânico pelo Senai e, munido dessa qualificação, galgou, de imediato, um posto de trabalho de classe média, o que lhe possibilitou ter carro e casa própria antes dos 30 anos de idade. Fez carreira como dirigente sindical e líder político, chegando à presidência da República aos 57 anos, em 2002.
A ascensão do presidente eleito, Lula, sem dúvida, merece ser celebrada. Ele veio de baixo, realmente. Passou por inúmeras dificuldades e chegou, afinal, aonde chegou.
Agora, devagar com o andor. Uma respeitada revista semanal traz manchete de capa intitulada “Triunfo Histórico” e o saúda como “o primeiro presidente de origem popular”. O próprio Lula já declarou que é o “primeiro presidente que não descende da linhagem dos Bragança”. Um famoso filósofo marxista compara a sua eleição a marcos históricos pátrios como “a Independência, a Abolição e a Proclamação da República”. Lula é cantado em prosa e verso como o “primeiro presidente do povo” de toda a nossa história. Será mesmo verdade? Como ficam os outros presidentes citados acima? E isso só para relembrar os casos mais marcantes.
Que se diga que Lula é o primeiro líder sindical a chegar ao poder. Isso é verdade. João Goulart ( 1961-1964) apesar de fazer carreira política em torno dos sindicatos, não pode ser chamado, propriamente, de líder sindical. Que se diga, também, que Lula é o primeiro presidente a não ter curso superior. Isso, em parte, também é verdade.O único precedente é o de Café Filho ( 1954-55) que abandonou a faculdade no 3º ano. Mas é difícil encontrar ineditismos na carreira de Lula além desses.
Lula teve uma infância pobre, sem dúvida. Mas outros tantos também tiveram. Nenhum presidente chegou ao poder totalmente pobre, é verdade. Mas Lula também não. Ao menos para os padrões brasileiros. Ele tem carro próprio, casa própria e uma renda mensal não especificada pelo seu partido, mas que seguramente o qualifica como pertencente à classe média. Números presidentes se classificam nessa categoria. Eram juízes, promotores, militares, todos pertencentes às camadas de renda média da população brasileira. Inequivocamente ricos foram poucos. Campos Salles (que saiu empobrecido), Afonso Pena, Fernando Collor e outros. Entre eles, vale lembrar, o “esquerdista” João Goulart. Ninguém “descendente dos Bragança”, como se vê. Praticamente todos chegaram lá por “direito de conquista” e não por “direito de nascença”…
Toda essa dissertação é oportuna para que, nesses momentos de bajulação desenfreada, tenha-se uma real perspectiva histórica do que significa a vitória do Presidente Lula. Um feito notável, sem dúvida – e ninguém haverá de lhe turvar o mérito. Mas de forma alguma inédito.
Alguns haverão de alegar que Lula é o primeiro presidente que chega ao poder sem compactuar com as elites. Infelizmente também não é verdade. A eleição de Jânio Quadros também representou uma “ruptura” com as elites dirigentes. Essas só aderiram a Jânio quando a sua vitória já se mostrava irreversível. O mesmo, aliás, ocorreu com Lula. Um número sem conta de grandes empresários passou a adulá-lo quando ele se agigantou nas pesquisas. E não consta que em nenhum momento ele rejeitou tais apoios. Dinheiro para a campanha também não faltou. Segundo os dados oficiais, a campanha do PT custou quase o dobro da de José Serra. E todo esse dinheiro – não sejamos ingênuos – não foi amealhado com a venda de estrelinhas e camisetas do partido.
Festejemos a vitória estrondosa e incontestável de Lula. É justo. Louve-se a sua persistência e tenacidade, é valido. Mas que não se dê a tal festa dimensões históricas que ela de fato não possui.




Caríssimo Professor e mestre João Mellão,
Mais uma vez brilhante!Aliás, brilhante é pleonasmo para os artigos do senhor.A cultura e a capacidade de explicar o contexto histórico é fantástica.
Assino em baixo o que o senhor escreveu.
Infelizmente, a sociedade brasileira, e não apenas as camadas que infelizmente não tem acesso`aos meios educacionais, mas também as camadas “com discrimento intelectual” parecem desconhecer a história de nosso País.
E, infelizmente, a sociedade brasileira ainda possui a característica de cultuar o “dualismo de Zoroastro” galgando aos céus os menos abstados e aos calabouços do inferno a classe média e as mais bastadas, sem antes analisar todos os fatos que circundam cada posição.
O caso do Presidente Lula, é brilhantemente exposto pelo senhor.Não importa o modo pelo qual chegou lá, não importa quais as estratégias partidárias, quais foram suas vicissitudes ou facilidades.O que importa é que uma pessoa de classe manos abastada chegou ao poder!
Quantos em situações piores que a do Presidente, não lutam diariamnete para poder crescer na vida em todos os sentidos?
A ascenção de Lula ao poder, em minha opinião, realça apenas uma grande característica de nossa democracia: está aberta a todos e este é um exemplo claro.
Mas esta cultura brasileira, ainda constante até em formadores de opinião, especialmente os de tendência de esquerda, de que os menos abastados são heróis e os mais tem “tudo na mão” é uma falta de conhecimento socológico e histórico.
Quantos membros de cargos públicos de excelência (diplomacia por exemplo) não saíram do nada e as dras penas chegaram onde chegaram?
Na sociedade privada, quantas empresas começaram do nada, com imigrantes que mal tinham o que comer, e hoje são os “famigerados empresários e monstros liberais”.Pensamentos como estes, de exaltação só pelo fato de origens geram mais prejuízos que benefícios na formação do pensamento político de nossa sociedade.
O tão saudoso Roberto Campos, uma das maiores cabeças nacionais do século XX, teve que estudar em condições extremamente difíceis.Como não tinha dinheiro à época para custear o estud do inglês, que desconhecia, ia ao cinema, barato à época, e fechava os olhos e ficava apenas ouvindo para aprender a língua e o modo de conversação.
Em outras sociedades, como a norte-americana, por exemplo, existe “compaixão” pela classe menos abastada mas existe um sentimento que deve-se lutar para se conquistar algo.Obama jamais seria eleito apenas com os méritos de descendência queniana.Seu curriculo o qualificou para concorrer à corrida presidencial e vencer.Uma vez eleito Presidente, as origens evidentemente são lembradas e enaltecidas, mas lá são como andorinhas, não fazem verão.
Parabéns professor Mellão.O senhor mostrou de forma histórica irrefutável a medidade certa e calibrada pela qual devemos analisar a ascenção de Lula à Presidência!
Fantástico!
Parabéns e obrigado por mais uma aula mestre João Mellão.
Do amigo e eterno discípulo,
Rogério Gandra Martins