Eles exigem de mim um mínimo de brios.
OESP – Publicado em março de 2001.
Quarta-feira à noite, após assistir ao tele-jornal, meus filhos lograram me colocar em xeque. O João, o Ricardo e a Anna Maria são adolescentes. Estão, portanto, naquela idade maravilhosa em que os jovens nutrem a certeza de que, quando adultos, não serão tão cretinos quanto os seus pais…
Embora passageira, essa sólida “autoconfiança”, enquanto dura, os municia de uma imensa criatividade para fazer perguntas inconvenientes, questionar as respostas e contestar os nossos argumentos, valores e convicções. “Be patient”, aconselhava Bruno Bettlhein. Se o mais renomado dos psicanalistas juvenis só tinha isso a recomendar, o jeito mesmo é ter paciência e relaxar.
Afinal, eles também serão pais um dia…
O “Jornal Nacional” acabara de reportar o problema da fraude no painel eletrônico do Senado. A perícia técnica havia provado que o sigilo da votação, na cassação de Luiz Estevão, fora violado. E as evidências apontavam como prováveis responsáveis ninguém menos do que ACM – então presidente da Casa – e o senador Arruda, líder do governo no Congresso. O Ricardo, que tem 16 anos e gosta de política, perguntou-me se os dois iriam renunciar. “Provavelmente não”, respondi. Ele não ficou satisfeito:
“Mas o que quer dizer ‘líder do governo’?”.
“Quer dizer que ele é nomeado pelo presidente da República para representar o governo no Legislativo, é um cargo de confiança” expliquei.
E ele concluiu por si mesmo: “então o Fernando Henrique também está envolvido!”
“Não, filho. Ele não tem nada a ver com o caso”.
“Então ele devia demitir o cara”.
“Não, Rick, em política não é bem assim…”
“Ah, não? E como é, então?”.
A conversa foi caminhando por aí. O João e a Anna Maria (17 e 15 anos) resolveram entrar na discussão. Alguém lembrou das suspeitas que pairam sobre o Jader Barbalho.
“Quem nomeia o presidente do Senado?”.
“Ele não é nomeado. Ele é escolhido pelos demais senadores”.
“Então é uma questão de confiança, também?”.
“De certa forma, é…”
“E por que não mandaram ele embora?” Perguntou o Ricardo.
“Se eu perdesse a confiança em um amigo, ele não seria mais meu amigo!” Emendou o João.
“É que em política não é bem…”
Interrompi a resposta. Já havia dito isto antes. Meus filhos, obviamente, sabem que eu fui “político” por um longo tempo. Se continuasse argumentando, acabaria eu, como suspeito, também. Preferi encerrar o assunto:
“É, está tudo errado, mesmo…”
Bem, aqui estou eu, na manhã seguinte, escrevendo estas linhas. E quem me questiona, agora, não são mais os meus três mui amados “aborrecentes”. É a minha própria consciência.
Há algo, no meu eu mais profundo, que me atormenta: meus filhos já não são crianças, acompanham o noticiário e estão cursando o segundo grau. Além do mais são MEUS filhos, o que me investe de alguma autoridade e credibilidade. Se não tenho argumentos para convencer a eles, a quem mais eu lograria convencer?
Exerci funções públicas as mais diversas por 13 anos consecutivos. No início, é verdade, muita coisa me chocava. Mas, com o passar do tempo, aprendi a assistir, impassível, a toda sorte de vícios, intrigas, perfídias e mesquinharias. “Tudo isso faz parte do jogo”, procurei me convencer. E quanto mais fleuma adquiria, quanto mais insensível me tornava, mais maduro e “calejado” me acreditava…
Aqui estou eu, aos quarenta e poucos anos, debruçado sobre o teclado, tremendo só de pensar que o tempo talvez me tenha enrugado menos o rosto do que o espírito…
E são as faces rosadas de meus filhos que me chamam à consciência.Que verdades eu tenho a lhes revelar? Que experiência de vida eu tenho a lhes passar? Quais valores e convicções eu devo, neles, procurar incutir?
Devo eu ensina-los que na política o conceito de ética é mais flexível do que na vida real? Que eles devem perdoar nos homens públicos todas as desvirtudes que não tolerariam em suas amizades pessoais? Que no jogo do poder, os fins, necessariamente, hão de justificar os meios? Que eles têm que aceitar tudo isso como algo natural?
Não. Decididamente não!
Hoje à noite, após o tele-jornal, haveremos, novamente, de conversar. E eu lhes direi, sem meias palavras, tudo aquilo que deve e tem que ser dito.
Direi a eles que eles têm razão.
Que um mandato popular não dá ao sujeito o direito de transigir. Antes o obriga a servir de exemplo. Que o presidente do Senado – culpado ou inocente – enquanto estiver sob suspeição, deve ter vergonha na cara e se licenciar do cargo. Que se ele não o fizer, cabe aos demais senadores o dever de afasta-lo. Que dois senadores, ao violarem o painel de votação, traíram, de forma imperdoável, os seus próprios colegas. Que estes, se tiverem um mínimo de decência, devem bani-los imediatamente de seu meio.
Direi aos meus filhos, que, como cidadãos, eles têm o direito e até mesmo o dever de se indignar. Que nós não somos obrigados a tolerar nos nossos políticos nenhum comportamento que nós não toleraríamos nos nossos iguais.
Direi a eles, enfim, que a cidadania também se constrói através de brios e ira cívica. E é essa a única “experiência de vida” que eu tenho a legar-lhes:
Enquanto formos cordeiros serão sempre os lobos que governarão.




