LAÇOS DE FAMÍLIA – Meu Pai

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

O artigo que escrevi quando ele me deixou.

20-05-1989
O ESTADO DE SÃO PAULO

No domingo passado um homem alcançou o termo da estrada. Um em milhares deduzirão nossos leitores que importância tem isso? Estatisticamente nenhuma. Mas, para mim era alguém muito especial. Do pouco que sou, sei que muito eu devo a ele. Mais do que bens legou-me um nome. Era justo e bom, digno e honrado. Abençoado é aquele a quem Deus permite apor esses quatro adjetivos ao seu epitáfio.

Na infância eu o tinha como herói. Na maturidade passei a vê-lo como um homem. Tinha defeitos e virtudes, talentos e limitações. Odiei-o muitas vezes, amei-o maior parte do tempo. A sabedoria do Senhor nos impõe essa ambigüidade. Não há, na Natureza, relação mais complexa, tortuosa, contraditória e exuberante do que a existente entre um pai e seus filhos.

A missão das mães é tão somente a de amar, compreender, consolar e perdoar. Dedicamos a elas, assim, um sentimento retilíneo uniforme. Já com nossos pais é diferente. Cabe a eles, além do amor, a espinhosa tarefa de educar, punir, reprimir e orientar. Só aqueles que têm filhos compreendem o quão difícil e doloroso isso é.

Os heróis, no bronze e no mármore das praças, com certeza tiveram proezas mais simples. Suas glórias se fizeram em uma única batalha, resumiram-se a fugazes momentos de bravura. Derramaram seu sangue, mas pouparam suas lágrimas. Ao morrerem por princípios, comodamente evitaram ter de viver de acordo com eles. A reputação de um herói se faz, ás vezes, em um único minuto. A de um pai, infelizmente, demanda toda uma existência.

João Avelino, meu pai, se foi. Deixou-me uma lacuna e um exemplo. Tentarei preencher a primeira seguindo fielmente o segundo. Correrão décadas até que eu venha a compreender, em sua plenitude, tudo o que ele significou para mim. Seu monumento não será erguido na praça, mas sim no meu coração. Desejo, um dia, quando meus filhos forem maiores, poder mostrar-lhes a sua foto e dizer-lhes :- Ele era um homem de bem.
E só Deus sabe o orgulho que tenho disso.

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