E Lennon não viveu para ver…
OESP – publicado em julho de 2001.
“…E o mundo viverá como um só!”
Imagine – John Lennon
Beattle, 1999; Washington, 2000; Québec, 2001; e agora Gênova, na semana passada. Os protestos se agigantam. A senhora Matilde, leitora atenta do noticiário, me cobra um posicionamento: afinal eu sou contra ou a favor da globalização?
Veja bem, Matilde (permita-me chamá-la assim), eu entendo que tanto faz o que eu penso a respeito de chuvas ou terremotos. São fenômenos que ocorrem independentemente de minha vontade. Da mesma forma há inúmeras ocorrências na evolução humana – guerras, pestes, revoluções – que não nos pedem licença para acontecer. Chegam com a fúria de um furacão, revolvem toda a paisagem em seu entorno, provocam no homem o medo, a dor e a desolação.
As aparências, em um primeiro momento, enganam. Tragédias que são, nada de bom podemos nelas vislumbrar. Somente muito tempo depois – enterrados os mortos, enxugadas as lágrimas – é que podemos julgá-las com isenção. O mundo, com certeza, deixa de ser o mesmo. Velhas estruturas desmoronam, usos e costumes são abandonados, abre-se espaço para o novo. E este, melhor ou pior, é irreversível.
Neste mesmo porto de Gênova, em 1348, desembarcou a peste negra. Foi, sem dúvida, a maior tragédia da civilização ocidental. Em poucos meses nada menos do que um terço do mundo cristão foi exterminado. As cidades e os campos ficaram despovoados.
Soavam as trombetas do Apocalipse.Os seus quatro cavaleiros já se faziam presentes…Pois até mesmo a peste, em longo prazo, acarretou mudanças positivas. Ela sepultou, de vez, a Idade Média, suas trevas e suas instituições. Na falta de braços a agricultura encontrou caminhos para tornar-se mais produtiva. Sem o peso massacrante dos antigos estamentos, abriu-se espaço para a Renascença.
Bem, Matilde, a essa altura você há de pensar que carreguei demais nas tintas.
Realmente… Valhamos-nos, então, de uma ocorrência mais próxima: a assim chamada “revolução industrial”.
A depender dos manifestantes de Gênova ela jamais teria ocorrido. Se houvesse, à época, um “G-8″, ele também seria contrário. O furacão que se formava ameaçava a todos. E todos, governantes e governados, foram varridos à sua passagem. Os impérios desmoronaram, a nobreza foi degolada, muitos milhões perderam seu sustento e acabaram por deixar a Europa. A mudança – como todas as mudanças – foi traumática. Alguém, então, poderia impedi-la? Não. Alguém, hoje em dia, a condena? Também não…
A globalização, Matilde, está aí. É um fenômeno que independe de nossa vontade. Ameaçadora como um furacão, ela nos assusta a todos. Mas será ela de todo ruim?
Eu entendo que não. O sonho de Lennon nunca esteve tão próximo. E o problema é justamente este. Agora nós o vemos de perto. Sabemos que para que “todas as pessoas possam compartilhar todo o mundo” – como ele nos convidou a imaginar – há ainda gigantescas barreiras a transpor, vergonhosos contrastes a eliminar, numerosas carências por suprir. Só assim deixará de existir “um inferno abaixo de nós”.
A fome, a doença, a necessidade, nada disso é novidade no mundo.Mas – enquanto bilhões de miseráveis padeciam na África, na Ásia e na América Latina – das janelas do Dakota Building, o ex-beatle não podia mais do que idealizá-los.
A globalização, Matilde, os trouxe para bem perto de nós. E isso nos é extremamente perturbador. Tornou-se impossível ignorá-los. Eles estão lá, ao vivo e em cores, nos cobrando pela TV. E, para que “o mundo viva como um só”, somos obrigados a conviver com eles, tolerá-los como nossos iguais, e – o que é muito mais difícil – “compartilhar” com eles os nossos empregos e ceder-lhes boa parte do nosso padrão de vida.
A globalização, em si, não é negativa. Ela traz, em seu bojo, um jamais visto incremento da produção e da produtividade. Ora, para um número cada vez maior de produtos há que existir um número cada vez maior de consumidores. Não é difícil perceber que os benefícios deste processo – como o ocorrido na Revolução Industrial – acabarão, necessariamente, por se estender a todos.
O problema, Matilde, é o aqui e o agora. O operário alemão, que perdeu o emprego, não se sentirá gratificado por saber que, com isso, ajudou a criar outros cinco na Indonésia.
Tampouco é fácil convencer o agricultor francês de que seu queijo vale menos porque os vietnamitas, agora, o produzem por menos. Solidariedade, realmente, não tem preço.
Ninguém dá um centavo por ela.
“Lennon vive!” proclama o grafite nas paredes do Dakota. Ledo engano. Ele morreu sim. Assassinado.




