Não, não existe dólar vermelho.
OESP – Publicado em maio de 2002.
Os analistas de risco de cinco bancos internacionais recomendaram aos clientes reduzir o seu grau de exposição com relação a títulos brasileiros. Como conseqüência imediata, a Bolsa caiu e o dólar subiu. As análises pessimistas ocorreram por diversos fatores, sendo um dos principais o favoritismo de Lula nas pesquisas eleitorais. Até aí nada demais. Surpreendentes foram as reações passionais dos nossos supostos especialistas na matéria.
É sabido que de medicina, futebol e economia todos os brasileiros entendem um pouco. O suficiente, pelo menos, para sair dizendo besteiras por aí. E sempre com ar de doutor. No entendimento da maioria houve uma indevida “ingerência estrangeira” nos assuntos internos do Brasil. Alguns patriotas sugeriram “retaliar” ou “punir” os tais bancos. Outros alegaram tratar-se de um “ataque especulativo” contra o Brasil. Houve quem dissesse que estava em curso uma manobra de grandes banqueiros estrangeiros para “manipular” o mercado. E muitos afirmaram outro tanto de bobagens mais.
Os ânimos só acalmaram quando as autoridades brasileiras vieram a público para declarar que esses analistas de risco “não entendem nada de Brasil”. Perfeito. Ao menos oficialmente, fica entendido que:
a) a nossa economia é sólida como uma rocha;
b) os mercados internacionais não têm por que desconfiar do Brasil;
c) os analistas de risco são todos ignorantes;
d) não há motivo para encarar Lula como um fator de instabilidade.
Que o ministro Malan venha a fazer declarações desse naipe é compreensível. Afinal – acreditando ou não no que diz – o papel dele é manter os mercados tranqüilos. Que os economistas do PT concordem com tais argumentos, também é previsível.
Não lhes interessa alimentar receios com relação ao seu candidato. Agora, é estranho ouvir tais palavras em outras bocas, mais independentes e descompromissadas. Isso revela, no mínimo, uma total ignorância sobre o funcionamento dos mercados financeiros internacionais.
Vamos tentar entender.
Até o final da década de 1980 as dívidas externas das nações tinham credores. Era fácil identificá-los. Eram dezenas ou centenas de bancos americanos e europeus que haviam emprestado dinheiro aos mais diversos países e detinham consigo os títulos dessas dívidas. As grandes nações devedoras, então, não podiam “quebrar” pois tal ocorrência ameaçaria a segurança do sistema financeiro como um todo.
Era assim que as coisas funcionavam até que subiu ao palco um certo senhor Nicholas Brady, em 1988. Era o todo poderosos secretário do tesouro da administração Bush (pai). O que fez ele? O governo dos EUA, cansado de socorrer ora as nações caloteiras, ora os bancos nelas comprometidos, apresentou ao mercado um plano engenhoso. As dívidas das nações, doravante, seriam “securitizadas”.
O que quer dizer isso?
Securitizar, grosso modo significa “diluir o risco”. O que antes era uma prática exclusiva das companhias de seguros, nos anos oitenta alastrou-se por toda a economia norte-americana. Fazia parte do novo desenho do mercado financeiro internacional. Tomava-se, por exemplo, a carteira de prestamistas de uma companhia imobiliária, atribuía-se a ela um determinado valor, dividia-se esse valor por milhares de títulos e colocavam-se esses títulos no mercado.
A partir daí aquela carteira de créditos que pertencia a uma única empresa passava a ser propriedade dos numerosos compradores.
Os títulos, uma vez emitidos, eram livremente negociados no mercado e seu valor era variável. Se os prestamistas da imobiliária pagavam todos as suas obrigações em dia, o valor do título subia. Se houvesse uma grande inadimplência, o valor do título caia.
As dividas externas das nações, com disse, foram securitizadas a partir do início da década de 1990. Os bancos livraram-se do abacaxi, repassando os seus títulos de crédito ao mercado.
Quem é o credor da dívida externa brasileira?
Milhares, senão milhões, de pequenos e médios investidores, espalhados por todo o planeta, que detêm títulos brasileiros em suas carteiras de investimentos. A nossa dívida está pulverizada. Não há mais a figura do grande banqueiro ou do grande credor. E os “vilões” acima mencionados, os tais “analistas de riscos” nada mais são do que profissionais, isentos e independentes, contratados com a finalidade de estudar os mercados e orientar os investidores.
O que o Lula tem a ver com a história? Muito.
Ele e seu partido, até bem pouco tempo atrás, pregavam, explicitamente, nada menos do que o calote da dívida externa brasileira. Não bastasse isso ainda apresentaram uma série de propostas que, se não desestabilizam necessariamente a economia, representam, no mínimo, um salto no escuro.
Uma vez que ele passa a liderar as pesquisas é natural que os mercados se retraiam. E quanto mais concretas forem as suas chances, menos atraentes se tornam os títulos brasileiros, mais aumenta o risco-país e mais nervoso fica o mercado. De nada adianta culpar os bancos ou taxar de ignorantes os seus analistas.
Se Lula não é mais radical – sabe-se lá – pouco importa. Ele paga pelo fato de um dia ter sido.
Elegê-lo pode ser uma grande idéia. Mas, sorry, há um preço a pagar por ela.



