ASPECTOS DA GLOBALIZAÇÃO – O inferno são os outros

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

A globalização também dói para os ricos.

OESP – publicado em janeiro de 2001.

Ontem, dia 25, iniciaram-se dois importantes encontros internacionais.
Em Davos, na Suíça, o “Fórum Econômico Mundial”. Em Porto Alegre, no Brasil, o “Fórum Social Mundial”.

Nos Alpes helvécios estão reunidos os líderes mundiais do empresariado, dos governos e do pensamento acadêmico.

Já nos Pampas gaúchos estão entrincheirados todos aqueles que, por uma ou outra razão, têm motivos para abominar os primeiros.

O “Fórum Econômico” já existe há três décadas.

O “Fórum Social” está se realizando pela primeira vez. Pretende se firmar, internacionalmente, como um contraponto ao primeiro. Para tanto os seus organizadores trataram de reunir uma eclética plêiade de ONG’s, sindicalistas, ecologistas, feministas, nacionalistas, neo-socialistas, oprimidos, excluídos e – ufa! – toda sorte de descontentes com a globalização e a ordem econômica mundial. Suas metas são ambiciosas: “queremos nos apresentar como uma alternativa ao ‘pensamento único’, ao consenso neoliberal” afirmam.

A idéia de um fórum social – preenchendo as lacunas do fórum econômico – é pertinente e oportuna. Até aí, tudo bem. Mas… “Pensamento único”? “Consenso neoliberal”? Isso existe?

Se existe seria bom avisar, com urgência, o pessoal de Davos. Pouparia tempo e evitaria exasperantes discussões. Ninguém, por ali, concorda com ninguém. Os conflitos se exacerbam a cada nova palestra. Consenso e pensamento único é mais, até, do que eles almejariam alcançar…

Quanto ao famigerado “neoliberalismo”, ele só é real na boca dos seus opositores. O que existe, de fato, são alguns poucos liberais desavisados.Todos eles, agora, aflitos, ao perceber a encrenca em que se meteram.

À esquerda e à direita, o único consenso é o de que a globalização faz mal à saúde. Ela tira o sono, provoca úlcera e produz, no indivíduo, uma insuportável sensação de insegurança. Quem nos dera poder retroceder no tempo! Quem nos dera poder voltar aos anos 60…

Ah, os bons tempos da Guerra Fria! Éramos todos felizes e não sabíamos! A economia era menos complexa, a ecologia não constava da agenda e não havia um, mas sim três mundos para se viver. O pessoal do primeiro pouco sabia sobre o do segundo e ambos ignoravam as mazelas dos do terceiro. Eram três realidades distintas e estanques. E em cada uma delas, por ignorância, não havia espaço para a inveja, a competição ou a dor de consciência em relação às outras…

O Trabalho, à época, era um fator mais escasso. Do total da mão de obra mundial, apenas 1/3 competia por empregos no mercado livre. Dos 2/3 restantes, metade estava no mundo comunista e metade nas economias autárquicas do terceiro mundo. Era mais fácil, assim, o trabalho dos sindicatos. Novas vantagens e benefícios eram obtidos a cada greve. A “luta de classes”, então, era algo que fazia sentido…

O Capital, por sua vez, também vivia mais tranqüilo. ¾ do comércio internacional se dava entre os países desenvolvidos e o mesmo ocorria com os fluxos de investimentos. Havia uma convivência mais civilizada entre os seus detentores. Os banqueiros não eram obrigados a dominar idiomas exóticos e os industriais não se preocupavam em tomar lições de geografia. O risco, para todos, seguramente, era bem menor…

Mas o tempo passou, o Muro caiu, as telecomunicações evoluíram, os transportes baratearam e eis que hoje o mundo é um só…

Somos, enfim, todos irmãos? Nada disso. A “aldeia global” está se mostrando apertada para acolher tanta gente. Seus antigos moradores estão se sentindo realmente incomodados.

E a tão conclamada “Fraternidade Universal”? Bem, foi obrigada a fechar as portas. Saiu de moda tão logo deixou de ser um clube privé

O Trabalho, agora, é um fator abundante e extremamente barato. As empresas de mão de obra intensiva – dadas às facilidades de comunicações e transportes – não titubeiam em migrar suas instalações para paises onde os salários saem mais em conta. Hans, um operário alemão – antes insatisfeito por receber 20 dólares por hora – se vê na desagradável contingência de competir com Ujung, um operário indonésio – extremamente contente por ganhar 120 dólares por mês. “__Ujung está sendo explorado!” Protestará o Hans. Longe disso. Ujung se sente um privilegiado. Antes da chegada da indústria, na lavoura, ele mal ganhava a metade…

“__ Proletários do mundo, uni-vos!”. Se Marx dissesse isso hoje, muito provavelmente seria linchado…O secular conceito de luta de classes precisa ser reformulado. Distribuir a renda é justo, concordam os europeus – desde que não chamem os asiáticos para participar do rateio…

O Capital, também, não vive lá os seus melhores dias.E os paises desenvolvidos já estão perdendo a paciência: “__ Livre comércio, livre concorrência, tudo isso era muito bom, décadas atrás, quando os países pobres sabiam qual era o seu lugar” resmungam seus líderes. “__ O problema é que, com a globalização, eles deram de devastar os nossos mercados! Primeiro vieram os tigres, com carros e eletrônicos. Depois os filhotes de tigre, com os seus têxteis. Agora os latinos, com seus produtos agrícolas. Imaginem o estrago quando a China chegar!” Conclusão:
“__Colegas, precisamos repensar essa história de Liberalismo…”.

Este é o nosso admirável mundo novo. Um mundo único onde convivem 700 milhões de cidadãos dos países ricos, 1 bilhão dos remediados e 4 bilhões dos miseráveis.

Debates econômicos no Norte, protestos sociais ao Sul, o fato é que hoje, ninguém sabe, ao certo, o caminho da salvação. Como poderíamos, ao mesmo tempo, preservar a abundância dos ricos, promover a afluência dos pobres e suprir as carências dos miseráveis? E, se uma solução houvesse, como implementa-la sem devastar o meio ambiente?

As fórmulas que conhecemos já são todas obsoletas. Valem para uma classe, para uma nação, mas jamais para o planeta inteiro.

Ao tentar aplica-las, logo esbarramos no problema maior. Sartre tinha razão. O inferno são os outros. Bilhões e bilhões de outros…


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