ASPECTOS DA GLOBALIZAÇÃO – Asas feridas

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

O capitalismo também tem regras morais.

OESP – publicado em julho de 2002.

A grande águia, americana, está ferida. As fraudes contábeis de grandes empresas, como a Enron, a WorldCom, a Merck e outras mais tiveram um impacto sobre a sociedade norte americana só comparável aos atentados que derrubaram o World Trade Center. Triste início de século. Em 2001, 11 de setembro, a maior potência militar da história sofreu um inimaginável ataque dentro de suas fronteiras continentais. Algo inconcebível nos últimos dois séculos. Agora, em 2002, os alicerces da América são novamente abalados. Está em xeque toda a estrutura de crenças, valores e convicções que sustenta a nação. Uma situação também inimaginável, inconcebível e, por todos aspectos, inaceitável. Com um agravante: não há, desta vez, um Afeganistão a devastar. O inimigo é interno. O que fazer?

Não, não estou carregando nas tintas. Os atentados terroristas e as fraudes contábeis são fenômenos equiparáveis. Ao menos no que diz respeito à auto-estima e ao orgulho nacional. A nós, aqui, pode parecer exagero. Logros, engodos, mentiras, tudo isso faz parte da nossa típica e familiar malandragem. É o famoso e incensado “jeitinho brasileiro”.

Já para os norte americanos a perspectiva é outra. A simples possibilidade de existência de fraude, põe em risco todos o sistema econômico, social e até mesmo religioso da nação.

Para entender as razões faz-se mister uma breve visita ao passado.

Em meados do século XIX, um dentista de origem francesa se estabeleceu no meio-oeste americano. Um de seus primeiros clientes era um cidadão que necessitava de um longo e dispendioso tratamento. Ao ser informado dos custos ele se adiantou e apresentou o seu cartão de visitas, onde constava o seu nome, o nome de uma igreja batista e o endereço de ambos. A seguir despediu-se, combinando voltar na semana seguinte.

O odontologista, ainda não familiarizado com os costumes americanos, estranhou o fato e o relatou aos seus colegas.

Foi-lhe explicado que o que o cliente quis dizer era: “Não se preocupe quanto ao pagamento, doutor”.

Em uma época em que não existiam cartões de crédito, o nome da congregação religiosa a que a pessoa pertencia era a melhor referência. Indivíduos religiosos são dignos de confiança: “Se duvidar, procure a igreja!”.

Esta passagem nos é narrada por Max Weber, em um de seus ensaios, para demonstrar a íntima relação entre a ética protestante e o espírito do capitalismo.

Confiança – esta é a pedra fundamental do sistema econômico e da sociedade nos Estados Unidos da América. E isso implica também em valores tais como: boa fé, honestidade, reciprocidade e compromisso com a verdade.

“Ora!”, dirão alguns. “O capitalismo não é a exploração do homem pelo homem? Não é um sistema que defende o individualismo, a ganância e o lucro? Onde não há nem limites nem escrúpulos na ação humana?”.

Não, não é. Ao menos nas nações onde o sistema está plenamente estabelecido – o que não é o nosso caso, infelizmente.

Um regime onde as pessoas vivem livres e convivem em paz independente das diferenças abissais de renda, riqueza e poder, só pode funcionar se tiver regras morais básicas e fundamentais que o legitimem. E estas regras são os valores listados acima.

Entende-se, por princípio, que todas as pessoas adultas sabem perfeitamente cuidar de seus próprios interesses e são capazes de firmar compromissos entre si. Independente do Estado ou de qualquer outra autoridade coercitiva. Aquele só deve intervir em situações extremas e sempre no sentido de fazer valer as leis e os contratos livremente estabelecidos.

Na América a palavra do cidadão é tudo. E subentende-se que ele sempre diga a verdade. Em sociedades assim, mentir é um pecado fundamental. Quem confessa um crime pode contar com certa complacência das autoridades. Já para quem alega inocência – caso seja comprovada a culpa – que não espere a misericórdia de ninguém.

Para nós, brasileiros, tudo isso soa um tanto estranho. Eu me recordo, por exemplo, da renúncia de Nixon, em 1973. Pouca gente, por aqui, entendeu que o presidente caiu não por causa do escândalo de Watergate, mas sim pelo fato de que mentiu ao povo, através da TV.

Voltando ao início, o que ocorre quando a fraude se imiscui no sistema? Uma terrível crise. Ainda maior no caso presente. Balanços contábeis fraudados interferem no valor de mercado das ações da empresa fraudadora. E milhares, senão milhões de investidores são logrados com isso. Vale lembrar que nos EUA, a legislação, desde a década de 1980, permite que os cidadãos escolham livremente onde e quanto aplicar dos fundos que recolhem à previdência social. Calcula-se que 60% dos americanos tenham algum valor aplicado no mercado acionário.

As instituições de uma nação, segundo Dahrendorf, são como fios de alta tensão. À primeira vista parecem inofensivos. Mas basta tocá-los para que se sintam as conseqüências.

Quando se quebram os laços de confiança – como ocorreu – os norte-americanos não perdem apenas dinheiro. Perdem também todo o sistema de valores e convicções que os fazem sentir-se moralmente superiores perante o resto do mundo.

As asas da águia foram feridas. E os remédios, sem dúvida, serão amargos. Mas ela, em breve, voltará a voar.

Por mais que muitos, pela Terra afora, torçam em contrário.

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