Governos Corruptos atrapalham o big business.
OESP – Publicado em março de 2001.
Moscou – O sujeito, inadvertidamente, estaciona o seu carro novo perto do portão principal do Kremlin. Logo aparece um guarda: “Não pare aqui! Esta é a entrada por onde passam as nossas autoridades!”. Ao que o cidadão responde: “Não se preocupe, seu guarda. Eu tranquei o carro!”.
Essa é uma das anedotas favoritas dos russos. Faz sucesso porque, descontados os exageros, ela bem reflete a realidade do país nos dias de hoje…Para quem acha que o Brasil é campeão mundial em corrupção seria bom ler as histórias, verídicas, a seguir:
Lagos, Nigéria – Um conhecido meu, brasileiro, consultor do Banco Mundial, há uns cinco anos foi fazer um trabalho no país.
Ao chegar ao hotel, recebeu a resposta de sempre: “Sinto muito, senhor, não há vagas!”. Como já conhecia os costumes locais, argumentou: “Pago 100 dólares a mais!”. O recepcionista mudou de conversa: “O senhor pode esperar um pouco?”. E saiu para tomar providências. E que providências!
Foi ao apartamento de um turista americano e comunicou: “Infelizmente houve um erro no nosso sistema de reservas. O senhor vai ter de deixar o quarto em quinze minutos! Já está aqui o carregador de malas para ajuda-lo”. A seguir desceu à portaria. “Pronto, cavalheiro. Em meia hora o senhor já pode subir para as suas acomodações!”.
Jacarta, Indonésia – O executivo de uma multinacional teve que renovar o seu visto de permanência no país. Na repartição apropriada, após fazer as contas, o burocrata local comunicou-lhe:
“Está tudo em ordem. Contando a gorjeta do chefe do xerox, do encarregado da triagem, do supervisor de vistos e a minha, são 5.855 dólares!”. O estrangeiro desesperou-se. “Mas como é que eu vou conseguir o reembolso disto pela contabilidade da empresa?”. O funcionário o tranqüilizou: “O senhor não precisa preocupar-se. Estamos acostumados a lidar com problemas como o seu. Nós damos recibo!”. Era verdade. Para perplexidade do executivo, o burocrata discriminou as despesas em papel timbrado do Departamento de Imigração, bateu o carimbo oficial e assinou embaixo…
Tirana, Albânia – ao iniciar-se o bombardeio de Kosovo, todos os diplomatas estrangeiros se dirigiram ao aeroporto, em seus carros oficiais, para deixar o país. Qual não foi a surpresa ao perceberem que um bando de homens afastou os motoristas e surrupiou todos os automóveis. Já embarcando no avião, um cônsul foi retido por dois integrantes da ‘equipe’: “O senhor esqueceu-se de deixar os documentos do carro. Por favor, nos entregue. Não queremos ter problemas com a polícia…”.
E assim caminha a Humanidade. Em inúmeros países – seja na cúpula, seja na base – a corrupção é uma prática institucionalizada.
A boa notícia é que ela está saindo de moda. Não, não se trata de um surto moralista. É um dos frutos benignos da tão mal falada globalização…
Melhor explicando.
De uma década para cá, através de bancos, fundos mútuos ou de “hedge”, centenas de bilhões de dólares – pertencentes a dezenas de milhões de investidores – estão correndo o mundo em busca de aplicações rentáveis. Por outro lado, milhares de empresas transnacionais estão fazendo volumosos investimentos diretos, construindo indústrias ou realizando empreendimentos por todo o planeta.
Obviamente ninguém age assim movido por razões humanitárias. Todos buscam obter retornos vantajosos de suas inversões. Este gigantesco capital disponível pode tanto fazer a glória como a desgraça de uma nação emergente. Aporta, em abundância, nos países julgados promissores, mas também se evade, ao menor sinal de risco, deixando as economias nacionais arruinadas.
É aí que entra o problema da corrupção. Até o biênio 97-98, não havia grande cautela quanto às decisões de investimento. Muitos bilhões fluíram para numerosas nações emergentes sem maiores cuidados ou vigilância. A derrocada das economias do Sudeste Asiático, em 1997 – seguida pela moratória russa, no ano seguinte – forçou a uma guinada radical de comportamento. Inúmeras empresas e bancos dos países desenvolvidos, ou foram à bancarrota ou tiveram toda a sua cúpula executiva decapitada. O mesmo ocorreu com os fundos de investimento os quais levaram de roldão a poupança de milhões de pequenos aplicadores dos países do primeiro mundo.
Embora a febre especulativa continue – haja vista o caso atual da Turquia – a verdade é que ela arrefeceu. Gatos escaldados, os dirigentes de bancos, empresas e fundos se tornaram mais prudentes. Permanecem investindo nos países em desenvolvimento, mas exigem, em contrapartida, que estes se enquadrem em padrões internacionais de transparência, estabilidade macro-econômica e efetividade institucional. Neste novo cenário, pode-se perceber, reduziu-se o espaço para o clientelismo, os favorecimentos e as práticas ilícitas.
A corrupção, em especial, tornou-se um estorvo. Ela é sinônima de imprevisibilidade. Qualquer negócio pode ser desfeito por alguém subornando alguém e, para os investidores, não há nada que cause mais insegurança do que isso.
Os mesmos bancos, empresas e fundos que, no passado, valeram-se de tais práticas para auferir vantagens nos países emergentes, entendem agora que a moralidade e a transparência são o melhor para todos. Embora a “Lei de Práticas Corruptivas no Exterior”, exista nos E.U.A. desde 1977, somente agora ela está sendo levada a sério. A adoção da mesma pelos 29 países ricos da OCDE, sintomaticamente, deu-se em 1997, logo após a crise asiática. Todos, agora, estão punindo as suas empresas que se valem de subornos para ganhar contratos ou facilitar seus negócios no exterior. E a vigilância será, cada vez, maior.
Quanto aos países corruptos, estes terão que se adequar às novas regras. Soberanos que são, nada os obriga. Mas o custo é alto. Nações como Rússia, Nigéria, Indonésia, Albânia – para ficar nos exemplos acima – estão de fora no comércio e nos investimentos globais. Ao menos até que aprendam a se comportar.
Os Laulau’s da vida que se cuidem: juiz ladrão, doravante, nem mesmo no futebol. A corrupção, no Brasil, já viveu os seus dias de glória. Ela está, agora, começando a incomodar…



