Investidores Internacionais preferem a transparência.
OESP – Publicado em março de 2001.
Nas três esferas de governo, nos três Poderes da República, não passa semana sem que algum novo caso venha a público. Ao espectador desapercebido a primeira impressão é a de que a corrupção, por aqui está crescendo. Não é verdade. O que vem aumentando, de fato, é o interesse do público. A corrupção – quem diria?- tornou-se um estorvo. Ela, agora, passou a incomodar…
O fenômeno não é local. Em todo o mundo o assunto vem sendo discutido. E nos países emergentes, em especial, o tema é tratado em nível de segurança nacional.
Ora, corrupção é algo que existe desde os primórdios da Civilização. Quando Cristo pregava contra os ricos – e isso tem gerado inúmeras interpretações falaciosas – ele o fazia porque, à época, a única forma de acumular riquezas era através da apropriação ilegítima do dinheiro público. Pode-se dizer que a corrupção é tão antiga quanto o conceito de Estado. Por que, só agora, ela se tornou um tema tão explosivo e universal?
A questão transcende o campo moral. De sua maior ou menor ocorrência passou a depender o sucesso ou o fracasso de numerosas nações.
Já tratamos deste fenômeno em artigos anteriores (“A corrupção está fora de moda” – 2/3). Trata-se de um dos subprodutos do processo de globalização.
O raciocínio, em síntese, é o seguinte:
a) a saúde econômica das nações emergentes depende – como nunca antes – do afluxo e da permanência de recursos externos;
b) a era dos grandes investidores (nações, bancos, empresas multinacionais) está acabando. São os pequenos, agora, que – através de fundos mútuos, de pensão e de “hedge” – tomam as decisões de quando, onde e quanto investir;
c) as principais características destes micro-investidores são a inconstância e a suscetibilidade. Os grandes – com interesses em longo prazo e munidos de melhores informações – não se alarmam com facilidade. Já os pequenos – qual gazelas assustadiças – põem-se em debandada ao menor ruído suspeito. Haja vista o que ocorreu no sudeste asiático em 1997 ou na Rússia em 1998, onde o estouro da manada foi desproporcional ao risco real então existente. E, pior, não deixaram pedra sobre pedra à sua passagem;
d) para atrair estes rebanhos e mantê-los sossegados, as únicas armas que as nações possuem são a transparência, a estabilidade e a previsibilidade de suas economias;
e) a corrupção, quando em demasia, atenta contra todos estes três requisitos. Economias corruptas, como a da Rússia, a da Indonésia, a da Nigéria ou a do Marrocos, estão irremediavelmente excluídas da rota internacional de capitais. E outras tantas, se não se comportarem de forma impecável, cedo ou tarde ainda sofrerão o desgosto de ser reduzidas a frangalhos da noite para o dia.
Em resumo: a corrupção, agora, passou a ser um transtorno de proporções nacionais.
Não são poucas as sociedades que estão empreendendo verdadeiras cruzadas anti-corruptivas, não hesitando, para tanto, em derrubar governos, reformar instituições ou enjaular os seus líderes.
Em um mundo globalizado, não há espaço para economias ou governanças disfuncionais, desvirtuadas ou ineficientes. E, assim sendo, práticas tais como clientelismo, privilégio, favoritismo, compadrio ou corrupção tem que ser implacavelmente extirpadas da cultura e dos costumes locais.
Ora, o Brasil não é uma ilha isolada. Estas ondas moralizantes também batem em nossas praias. Há um constante e frenético intercâmbio de idéias, conceitos e comportamentos entre nós e o resto do mundo. Não é por mero acaso que, nos últimos anos temos assistido a uma autêntica revolução de costumes e atitudes na cultura nacional.
Não é difícil perceber a amplitude desta mudança…
Reza o ditado que “crimes perfeitos não existem”… Pois bem, partamos da premissa de que este adágio é falso. Eles existem sim.Ocorre que, justamente por serem “perfeitos”, ninguém fica sabendo de sua ocorrência. Pior: fica-se sabendo mas nada acontece porque estes “crimes” não são vistos como tais pela cultura local…Todos os toleram; entendem que eles são “parte da paisagem”. Os seus praticantes são, por vezes, até mesmo, incensados. Afinal, “esperto” – entre nós – sempre foi um elogio…
Ora, todos nós, brasileiros, sempre soubemos da existência de fiscais subornáveis, burocratas movidos à propina, políticos de aluguel e um sem número de vampiros do Erário. Como também não há ninguém que nunca tenha ouvido falar em licitações dirigidas, verbas desviadas ou obras superfaturadas. Fraudes na Sudam ou na Sudene então, são sobejamente conhecidas desde que ambas existem. E, curiosamente, nunca ninguém se importou muito com isso…
Os nossos jornais, de algum tempo para cá estão sempre carregados com denúncias de tais práticas em suas manchetes. Isto quer dizer que a corrupção aumentou?
Não. Isto significa que certas práticas escusas, antes toleradas, hoje têm o condão de escandalizar os leitores. Até alguns anos atrás, da corrupção só se publicava o “nu frontal”: – aqueles casos que, de tão diretos, evidentes e primários, não podiam passar despercebidos. Quem imaginaria, dez anos atrás, que irregularidades na Sudam dessem manchetes na imprensa. Ou que obras superfaturadas, como a do TRT, despertassem uma indignação pública suficiente para acarretar a prisão dos envolvidos?
Sinal mais emblemático dos novos tempos é a postura da nossa esquerda. Até duas décadas atrás, corrupção era um tema irrelevante. Nada mais do que – pudores moralistas da pequena burguesia”. Hoje não! A moralidade, agora, é a sua maior bandeira! Marx – vivo fosse – não acreditaria…
Há, sim, uma revolução em curso. Sua bandeira não poderia ser mais subversiva: as pessoas estão descobrindo que a honestidade, no Brasil, não é apenas um sonho. Mais do que desejável, ela, agora, é também possível!



