E aquilo que ele deveria saber.
OESP – publicado em fevereiro de 2001.
Acredite se quiser. Pelo menos deu nos jornais. Na manhã desta terça-feira, um destacamento do MST avançou corajosamente sobre um terreno minado onde, em plena luz do dia, proliferavam milhares e milhares de perigosos vegetais alienígenas.
Tomadas de surpresa, as plantas não reagiram e foram totalmente destruídas. Embora disfarçadas como inofensivas mudas de soja, não lograram enganar as tropas aliadas. Perspicazes, os combativos sem-terra, para desmascara-las, valeram-se de um poderoso herbicida – o qual seria fatal caso se tratasse de uma lavoura biologicamente correta. Ao mostrarem-se imunes, as supostas leguminosas revelaram a sua natureza transgênica e foram prontamente atacadas. A Humanidade, mais uma vez, foi salva. O combate, em terras de Santa Catarina, passa à História como “A Batalha de Chapecó”…
Na véspera do épico episódio, em Florianópolis, o comandante Stedile fez um pronunciamento no qual declarou guerra aos transgênicos e conclamou todos os emessetistas à luta, sem tréguas, até que os invasores sejam definitivamente expulsos do território nacional.
Cavaleiro de muitas cruzadas, louve-se em dom João Pedro a sua bravura e determinação. O problema é que ele atira para todos os lados. Ou é um déspota “mal” esclarecido, ou pior, é um tiranete mal intencionado.
A essa altura ninguém sabe mais qual é o ofício do MST. Invasão de terras, depredação de pedágios, saque de supermercados, ocupação de prédios, administração de cooperativas, corretagem de financiamentos, qual é afinal, o seu ramo de trabalho?
Agora, pelo visto, resolveu aventurar-se no campo da biotecnologia…
Esta é uma área muito complexa, Sr. Stedile. É nela que se dá o grande desafio da ciência no século XXI. E dela, sem exagero, depende – para o bem ou para o mal – o futuro de toda a Humanidade. E, antes que o senhor saia por aí, chacinando todo e qualquer repolho suspeito, seria importante que tomasse conhecimento de alguns fatos e circunstâncias.
__O senhor já ouviu falar em Swaminathan?
Não, não é um novo guru “Hare Krishna”. Trata-se de um notável cientista indiano. Um homem que o destino incumbiu de salvar centenas e centenas de milhões de vidas. Permita-me contar-lhe a sua história.
Tudo começou em 1966 – uma época em que a Índia era conhecida como o “continente da fome”. Naquele ano houve uma seca terrível que levou a morte centenas de milhares de pessoas. Os Estados Unidos se dispuseram a enviar alimentos, porém condicionaram essa “ajuda” ao engajamento da Índia na guerra do Vietnã. Indira Ghandi, então, tomou uma decisão radical: nunca mais haveria fome na Índia!
Swaminathan, chefe do Instituto de Pesquisas Agrícolas, recebeu uma ordem peremptória da primeiro ministro:
__ O senhor, agora tem plenos poderes e também os recursos que precisar! Torne a Índia auto-suficiente em alimentos!
O agrônomo se pôs em campo. Estabeleceu contato com Norman Borlaug – o cientista americano que, através de seleções genéticas, criara o trigo Sonora-63. Era uma variedade especial, resistente à seca, às pragas e com enorme produtividade, mesmo em solos áridos. Também no seu laboratório em Sonora (México) Borlaug lograra produzir, “in vitro”, um novo tipo de milho, com as mesmas características.
Até então, nem o novo trigo nem o novo milho haviam sido cultivados em larga escala. O motivo? Os mesmo de hoje. Preconceitos os mais diversos, resistências dos briosos dirigentes dos países do Terceiro Mundo, alegações no sentido de que aquilo era um instrumento do imperialismo americano para estender-se sobre a agricultura dos povos pobres, etc.
A aliança em Borlaug e Swaminathan foi o estopim da mais tarde chamada “Revolução Verde”. O trigo, o milho e, posteriormente o arroz IR6 – todos criados em tubos de ensaio, através do cruzamento genético de milhares de espécies selvagens – foram plantados em larga escala na Índia. A produção nacional de cereais triplicou no curto espaço de duas décadas. Neste ínterim, os demais países da Ásia também adotaram essas novas sementes. Resultado: nunca mais – a não ser em situações de guerra – houve fome no Continente.
Norman Borlaug foi premiado com o Nobel da Paz, em 1970. Swaminathan, cumprida sua gigantesca missão, aposentou-se e foi dirigir um centro de pesquisas nas Filipinas. Não sei se já faleceu. Ao menos para 1 bilhão de indianos, ele ainda vive. E viverá, coberto de glórias, eternamente.
Senhor Stedile. Com os avanços no campo da engenharia genética, o mundo está às vésperas de experimentar uma nova e mais radical “Revolução Verde”. Alguns óbices ainda existem. As novas sementes, geneticamente modificadas, ainda estão passando por inúmeros testes de campo. Mas estas pesquisas não são feitas em vão. Muito em breve, elas estarão disponíveis para milhões e milhões de pequenos agricultores – como aqueles que o senhor tão apaixonadamente alega defender.
O senhor – que se arvora tão versado em economia, sociologia e política – a que atribui o fenômeno da eliminação da fome para os 1,6 bilhão de habitantes da China?
À ideologia de Marx? Ao livro vermelho de Mao? À revolução cultural de Jiang Qing?
Não, Sr. Stedile. Tudo isso é fruto da Revolução Verde. Aquela que seus correligionários dos anos 60 atribuíam a um “tenebroso complô do imperialismo capitalista”. A China continental, hoje, ferreamente governada pelo mesmo Partido Comunista de sempre, é o país que mais produz transgênicos no planeta.
É, Senhor Stedile, t-r-a-n-s-g-ê-n-i-c-o-s. Eles mesmos. Em tudo idênticos àqueles que o senhor conclama as suas hordas a devastar.
Como já diziam os antigos:
__ Ai de quem só conhece a metade de um problema! Cedo ou tarde, virá a outra para devorá-lo…




