A VISÃO ANTI-LIBERAL – Meu caro Lula

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

Uma carta ao Lula, na véspera das eleições.

OESP – Publicado em dezembro de 1989.

Quero que você saiba, de antemão, que não nutro nenhum preconceito em relação a você.

Embora você não se lembre, já estivemos juntos antes. Em 1977, eu era estudante de Administração na FGV e, como a maioria de meus colegas, assisti, entusiasmado, ao nascimento de seu sindicalismo independente.

Também conheci o Deops – onde passei uma noite desconfortável por participar de passeatas -, fui tachado de comunista e briguei com quase toda a minha família, porque, em 1978, ao seu lado, ao lado de Eduardo Suplicy, Mário Covas e tantos outros, participei de corpo e alma da campanha heróica e dissidente de Fernando Henrique para o Senado. Anos mais tarde, estávamos novamente na mesma trincheira, carregando bandeiras pelas diretas-já.

Conheço-o o suficiente para respeitá-lo e admirá-lo. Jamais o chamaria de “sapo barbudo”, como fez o seu recente aliado Brizola, e, como empresário, jamais deixarei o Brasil, caso você venha a ser eleito. Mas, hoje, um fosso de incompreensões nos separa…

Ouço atentamente tudo o que você fala e já estou cogitando seriamente de procurar um psicanalista. Estou com problemas graves de dupla identidade. Você insiste em dividir a sociedade em dois çampos estanques e inconciliáveis – explorados e exploradores – e eu, como centenas de milhares de outras pessoas, ainda não sabemos em qual dos dois lados você nos coloca.

Você divide o mundo em patrões e trabalhadores. Eu sou patrão e nem por isso me sinto como não-trabalhador. Mesmo mudando a terminologia para “empresários x assalariados”, ainda assim não consigo me enquadrar. Como jornalista e executivo, sou e fui funcionário de várias empresas. Como consultor, sou autônomo e profissional liberal. Como agricultor, sou patrão e empresário e, tendo algum dinheiro aplicado, uma vez que estou sempre atento ao mercado, á procura das melhores opções para preservar meu capital, poderia ser chamado também de especulador… Sou explorador ou explorado?

Outras vezes você divide a sociedade, de forma irrecorrível, entre pobres e ricos. Embora todos nós saibamos claramente distinguir um miserável de um milionário, a fronteira que divide pobres e ricos dentro da sua classificação, me parece um tanto tênue e elástica.

Se o critério é patrimônio, seguramente o meu é menor do que o de Eduardo Matarazzo Suplicy e infinitas vezes mais modesto do que o de Lawrence Pih, duas pessoas que você tem como incondicionais aliados e “progressistas” convictos. Possuo terras, concordo. Mas Bisol e Brizola, seus companheiros de luta, também as têm. As minhas se situam no Brasil, são totalmente produtivas. custeadas com capital próprio e todos os empregados têm carteira assinada. Na hora de realizar a tal reforma agrária, eu gostaria de saber quais serão os critérios e por onde começará a divisão…

Talvez, na sua concepção, o que separe pobres de ricos seja a faixa de renda disponível de cada um. Minha renda liquida, como a de milhares de médios proprietários rurais, após pagar todas as despesas e encargos, é tranqüilamente menor do que a de Plínio Sampaio, a de Hélio Bicudo – pessoas pelas quais tenho grande respeito – e, para dizer a verdade, não chega sequer à sua, que, apenas como deputado federal, supera os NCz$ 50 mil mensais.

Você fala mal dos patrões e empresários e parece não levar em conta que muitos dos pequenos e microempresários deste pais muitas vezes não conseguem retirar por mês, de suas empresas, os NCz$ lO mil a que Jair Meneguelli, como ferramenteiro, faz jus na Auto-latina, onde trabalhava, sem detrimento de benefícios indiretos como transporte, assistência médica, alimentação e indumentária gratuitos.

A sociedade, meu caro e admirável Lula, não é tão facilmente bipartivel. Há “patrões” que ganham pouco ou nada (lembra-se daquela serralheria que você e sete companheiros montaram no ABC em 1978 e foram obrigados a fechar por causa dos prejuízos?) e “proletários” que ganham, quer do Estado quer das empresas privadas, salários gigantescos. Há gente boa e gente má, quer nas camadas ricas quer nas pobres da sociedade, Existe uma maioria de empresários sérios e bem-intencionados, como também existe uma minoria de “trabalhadores” malandros e indolentes.

É essa mal traçada fronteira entre o bem e o mal, meu caro Lula, que afasta milhões de eleitores de suas propostas, cria rejeição à sua figura, faz com que muita gente deixe de reconhecer o talento, a sensibilidade, a intelígência e outras inúmeras qualidades que você, inegavelmente, possui.

Não estou à altura de lhe dar conselhos, mas, se pudesse, eu lhe diria exatamente isto: há algo de revolucionário no coração de cada um dos eleitores patriotas deste Pais. A todos nós nos revolta a miséria da maioria, em contraponto com a ganância, a corrupção e o privilégio de algumas centenas de áulicos do poder. Inflame nossas veias cívicas, toque nossas almas. Mas faça-o prometendo amor e justiça. Deixe de lado os radicalismos, não prejulgue, não divida a sociedade em duas facções inconciliáveis.

A vergonha, o medo de confessar certos erros, como dizia La Fontaine, nos leva, quase sempre, a cometer muitos outros.

O ódio não cria nada… a não ser mais ódio.

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