Não se faz mais socialistas como antigamente.
OESP – Publicado em maio de 2001.
Oi, Lula!
Você nem imagina como foi difícil fazer esta carta chegar até você, aí na China! O correio daí não entrega e a Internet está censurada. Pedi a um colega, jornalista, mas ele me disse que o você sabotou a imprensa para que ninguém o acompanhasse (deve ser maldade dele!). O jeito foi apelar a um amigo meu que trabalha em uma multinacional. Ele me garantiu que só executivos, como ele, entram e saem da China à vontade. Achei meio estranho, mas, pelo sim, pelo não, estou lhe enviando esta pelo malote da empresa dele.
Estou lhe escrevendo pelo seguinte:
Um sobrinho meu, universitário, tem em você o seu maior ídolo. Filiou-se ao PT já faz uns três anos, foi logo depois que brigou com o pai. A turma dele é militante: participa do movimento ecológico, acampa junto com o MST, ajuda a fazer número em passeata e até esteve em Porto Alegre, no Fórum Social.
Pois bem. O pessoal, agora, está magoado com você. Viraram alvo de zombaria na faculdade. A turma reacionária está dizendo que o PT virou o Partido dos Turistas; que você, além de não trabalhar, viaja mais que o FHC, etc, etc. O meu sobrinho, agora, quer argumentos para se defender.
Eu já disse a ele para não ligar para essas coisas. Afinal, sendo você candidato a presidente, é natural e salutar que viaje ao Exterior para conhecer experiências socialistas bem sucedidas.
“Tudo bem, tio. Mas então o que é que ele foi fazer na China?!”.
Não soube responder…E é por isso que estou escrevendo a você…
Li no jornal, anteontem, que, tão logo desembarcou, você teria declarado que a “China é um exemplo para o Brasil” e que sua viagem serviria de ‘aprendizado para uma eventual Presidência petista”.
Olha, Lula, não sei quem é o seu agente de viagens, mas não deve ser pessoa idônea. O que você espera (ou esperava) encontrar por aí?
Mao Tse-tung? Revolução Cultural? Multidões trajando uniforme? Milhões de crianças marchando ao som da “Marcha dos Voluntários”? O povo, nas praças, a ler e reler o “livro vermelho”?
Estou com uma leve impressão de que esta sua viagem se deu com pelo menos uns vinte anos de atraso…
A essa altura, os chineses – sempre solícitos e sorridentes – já o levaram para conhecer a Grande Muralha, a Cidade Proibida, a Praça da Paz Celestial e outras atrações monumentais. Não se deixe impressionar. Tudo isso foi construído muito antes da Revolução.
Seja perspicaz. Solicite aos seus anfitriões que lhe exibam paisagens significativas da China atual.
Eles, com certeza, o levarão à fervilhante e opulenta Bolsa de Valores de Hong Kong. E lhe dirão, com orgulho, que é uma das dez mais importantes do mundo.
Em seguida você conhecerá Xangai, uma impressionante megalópole apinhada de arranha-céus futuristas e ruas congestionadas por limusines e executivos apressados, com suas pastas 007. Procure alimentar-se cedo. No horário de almoço as filas do McDonald’s costumam dobrar o quarteirão.
Tudo bem. Não era exatamente isso que você foi procurar na China. Peça então aos seus guias para que lhe mostrem proezas autenticamente revolucionárias. Por exemplo: como é que a China, com 1,3 bilhão de habitantes, conseguiu eliminar o fantasma da fome?
Eles o levarão ao campo. Surpresa! Você não encontrará nada que vagamente se assemelhe aos pequenos e bucólicos sítios idealizados pelo MST. Eles existem, é claro, mas somente nas regiões ‘atrasadas’ Ao contrário, o que eles irão lhe apresentar são gigantescas plantações irrigadas e administradas empresarialmente. O segredo? É tudo fruto da “revolução verde” – lhe dirão. Agricultura intensiva em tecnologia e insumos. E arrematarão, ufanistas: “Já somos o maior produtor de ‘transgênicos’ da Ásia! Em breve estaremos superando os Estados Unidos!”
Você, a esta altura, já estará um tanto desconfiado da tão propalada “economia socialista de mercado” chinesa. Não desanime, meu caro! Pergunte-lhes como é que a economia chinesa consegue crescer à fantástica taxa de 10% ao ano. Eles lhe responderão, mais ou menos o seguinte:
“Graças às ZEE’s – dez zonas econômicas especiais, como Xangai.”
“Especiais por que?” Você indagará, intrigado.
“Porque nessas regiões estamos permitindo que os capitais e os costumes econômicos ocidentais ingressem maciçamente!”.
Não desista, meu bravo Lula! Continue perguntando.
“Não é verdade que a China tem nada menos do que 370 mil empresas estatais que geram mais de 70 milhões de empregos?!”
“É – responderão – mas felizmente já conseguimos privatizar a metade! O resto a gente conclui nos próximos 10 anos!”.
Agora é a sua última chance, Lula! Comente com os seus amigos chineses a grave crise de energia que o Brasil está passando. Pergunte-lhes como é que a “economia socialista de mercado” consegue garantir eletricidade para mais de um bilhão de pessoas.
“Ora, honorável visitante, nós construímos aqui dez gigantescas usinas hidroelétricas por ano. A maior do mundo, por sinal, já está em obras!”.
“Graças a Deus! Enfim uma autêntica conquista socialista, não é mesmo?!”.
“Sem dúvida, Lu-La-Ká! Só que o capital é estrangeiro…”
(…)
E aí, Lula, o que é que eu digo para o meu sobrinho?



