A VISÃO ANTI-LIBERAL – De Garanhuns para o mundo

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

Se o Brasil é tão injusto, como foi que ele chegou lá?

OESP – Publicado em maio de 1989.

Tivemos na vida, meu caro Lula, poucas oportunidades de conversar pessoalmente, mas quero lhe dizer que acompanho sua vida e carreira com imenso interesse. Admiro sua tenacidade, seu talento sua capacidade. Muitos lhe torcem o nariz, alegando a sua falta de cultura. Eu, ao contrário, entendo nessa lacuna a prova maior de seu valor.

Em um País onde todos almejam ser “doutor”, você já é “Vossa Excelência”. Na terra dos bacharéis, o deputado mais votado é um operário. Você não cursou a Universidade, ao contrário, formou-se na Adversidade. Não fez mestrado, mas lidera toda uma escola de pensamento: não defendeu teses, mas fundou um grande partido. Você não precisa de um PHD, seu título tem o nome de PT, E PT, todos sabem, é sinônimo de Lula.

Só uma coisa, em você, eu não entendo; suas teses se chocam com a sua biografia.

Você combate a livre iniciativa, rechaça o capital estrangeiro, afirma que o Brasil, do jeito que é, não tem a menor viabilidade. Eu lanço os olhos nos eu passado e, paradoxalmente, a leitura que faço é exatamente o contrário.

Quando você nasceu, Lula, em 1945, todas as mazelas que hoje atribui ao Brasil não existiam. Lá em Garanhuns não havia capitães de indústria inescrupuloso e muito menos multinacionais para sangrar as veias dos trabalhadores. Provavelmente, lá no sertão, ninguém discutia luta de classes, socialismo ou nacionalismo. Afinal, não havia classes e sim castas, socialismo não fazia sentido pela falta de seu contraponto capitalista, e nacionalismo era desnecessário porque Garanhuns, na sua exuberante miséria, era um cenário autenticamente nacional.

Naquela época, na Reserva Ideológica de Garanhuns, o ideal da Igualdade entre os homens era exercido em toda sua plenitude. Com exceção de dois ou três coronéis, todos eram igualmente pobres, identicamente desnutridos, homogeneamente desesperançados. Foi ali, meu caro Lula, que você venceu o primeiro vestibular de sua vida.

De cada 100 crianças que nasciam, 30 morriam antes de completar o primeiro ano de idade. Das 70 restantes, pelo menos metade sofria de desnutrição crônica de primeiro grau e segundo grau, o que, já de início, as incapacitava para o estudo e o trabalho. A fome os tornou adultos raquíticos e idiotizados, candidatos naturais a morrer antes dos 35 anos de idade, que era a expectativa de vida em Pernambuco, na década dos 40, segundo os dados do IBGE. Você escapou de tudo isso porque, ainda jovem, trocou o horizonte perdido de Garanhuns pela selva de pedra de São Paulo.

Corriam, então, os anos 50. Aquela década maldita em que Juscelino Kubitschek, “lacaio do capital estrangeiro”, trouxe para o ABC as inescrupulosas empresas estrangeiras que você tanto combate. Muitos nordestinos, como você, foram alistados nas fileiras de “escravos” daquelas empresas. Como não tinham o menor nível de instrução, foram ela que, através do Senai e de cursos internos, trataram de treiná-los, prepará-los para o “desumano” trabalho nas fábricas.

Entre tantos outros conterrâneos, foi ali que o Luiz Inácio, forasteiro, ignorante, depauperado, começou a virar gente. Formou-se torneiro mecânico, passou a receber salários de cinco a dez vezes maiores que o mínimo vigente, pôde adquirir sua casa própria, colocar seus filhos em boas escolas, vestir-se decentemente e até mesmo comprar um carro.

Luis Inácio virou Lula. Assumiu a presidência do mais poderoso sindicato do Brasil, encontrou disponíveis os instrumentos para que, com o seu inegável talento, pudesse mobilizar a opinião pública, fundar um partido político e, aos 44 anos de idade, disputar, com chances, a Presidência da República.

Você, Lula, ataca o capitalismo e a democracia burguesa. Curiosamente, as suas vertiginosas carreiras, saindo de onde saiu, só é possível em países onde existem o capitalismo e a “democracia burguesa”. Se ao invés de Garanhuns, no Brasil, você tivesse nascido no Cazaquistão, você jamais teria bons empregos; sem padrinhos, jamais ingressaria na política, fundaria um partido e se candidataria à Presidência da República.

Lembre-se sempre , meu cara Lula, de que foi graças ao capital estrangeiro, que você tanto condena, que hoje existem o ABC, as indústrias e o poderoso Sindicato dos Metalúrgicos. O dólar que você desdenha é o mesmo que te trouxe de Pernambuco, financiou os seus estudos, criou as condições necessárias para que você fizesse a sua aplaudida carreira.

Para que tanto rancor Lula? Ainda ontem vi na sua foto, no jornal, visitando a ONU, recebendo o big business norte-americano na Park Avenue e exigindo respeito para com o Brasil, País o qual você mesmo reiterou ser a “oitava economia do mundo”.

Não era assim quando você nasceu. Em 45, éramos a sexagésima economia do planeta, não tínhamos indústrias, nem empregos, em Lulas.

Você cresceu porque o Brasil cresceu. É o que é porque esse “perverso sistema” lhe deu chance.

O que você diz importa menos do que o que você é. E quando eu vejo o menino iletrado de Garanhuns visitando a ONU, eu percebo que nem tudo, nesse país, está perdido. O simples fato de você existir, Lula, é um sinal eloqüente de que esse país tem jeito…

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