A Máfia tropical do MST.
OESP – publicado em outubro de 2000.
Após viajar pela Itália, cheguei a São Paulo nesta segunda-feira, ainda a tempo de ler o incisivo editorial do “ESTADO” no dia. Ao reportar as relações ilícitas do MST com os seus assentados o jornal equiparou o “movimento dos sem-com terra” à Máfia. A mim me pareceu pertinente. Afinal, basta um mínimo de conhecimento sobre a organização italiana para que se perceba algumas curiosas semelhanças.
A Máfia norte-americana – a “Cosa Nostra” – não nos serve como comparação. Ao miscigenar-se com o pragmatismo anglo-saxônico, a organização acabou por perder muito do seu charme primitivo. Embora ainda preservem boa parte da liturgia original, os mafiosos americanos têm plena consciência de que não passam de bandidos, mesmo. Já os italianos – que nobreza! Seus proclamados princípios e ideais são de causar inveja à mais romântica das antigas ordens da cavalaria…
Quer na Camorra, napolitana; quer na Ndrangheta, calabresa; quer na própria Mafia, siciliana; ai de quem ousar tachar um dos seus membros de criminoso! Ele ficará profundamente magoado:
“__criminoso por quê? Eu estou aqui para promover a Justiça!”.
E ele tem lá as suas razões. Foi admitido em uma irmandade exclusivíssima. Prestou juramento e fez um pacto de sangue. Seu vínculo é por toda a vida. É um honrado membro de uma “Onorata Società”. Sua missão é fazer justiça em uma terra onde não há lei nem polícia. Defende os fracos e excluídos da opressão dos fortes e poderosos. Quem quer que se sinta injustiçado por alguém sabe que pode contar com ele. E o povo, humilde, o procura realmente.
Se Giuseppe não consegue reaver o que emprestou a Pepe, se Giovanni seduziu a mulher de Pietro, não tem problema, basta recorrer ao “capo” local: prestativo, ele se encarregará de intimidar o Pepe e, quem sabe, de castrar o Giovanni.
Quanto custa o seu serviço? Nada, ora. A não ser uma gratidão eterna e compulsória, a qual irá sendo cobrada de tempos em tempos. De preferência, em espécie.
Mas as funções do “honrado” mafioso não se resumem a isso. Ele é, também, um agente de seguros. Mediante uma “pequena e justa” taxa, ele garante ampla cobertura a bares, lojas, pequenas indústrias ou propriedades rurais contra ocorrências corriqueiras, tais como assalto, incêndio, depredação, pancadaria, etc. Paga quem quer…
E aqueles que não quiserem pagar? Bem, estes ficam, naturalmente, mais expostos a todos estes riscos…
Há quem diga que é muito feio ficar por aí cobrando taxas ou comissões. Mas isso é conversa de gente maldosa. O desprendido mafioso não entende dessa forma.Afinal o que seria dessa gente toda não fosse a existência dele? É ele que garante a paz e a segurança de todos. É ele que concede crédito a quem não tem crédito, é ele que defende os fracos, é ele que promove a justiça, quer a pessoal, quer a social.
Nada mais justo que perceba uma “pequena” remuneração pelos seus relevantes serviços. Além do mais, o dinheiro não é para ele, individualmente. É para toda a Irmandade, para que esta possa melhor equipar-se. Suas relevantes funções sociais implicam na necessidade de adquirir veículos, moradias e, até mesmo, armas. Há também que se financiar todo o aparato logístico para que seus membros sejam cada vez mais numerosos e possam promover a justiça em áreas cada vez mais distantes para um número cada vez maior de pessoas.
Tais argumentos a nós, brasileiros, hão de soar como extremamente hipócritas. Mas vale lembrar que, no Sul da Itália, ainda há muitos cidadãos que – se não os consideram válidos – ao menos entendem ser a máfia um mal necessário. Afinal ela fornece serviços essenciais que o Estado, omisso, está longe de suprir… Não fosse assim, como explicar a sobrevivência mais que secular da organização?
Voltemos ao caso brasileiro. Está formada, entre nós, uma autêntica onorata società agrária. Seus proclamados objetivos, como os da italiana, são os de promover justiça social, defender os fracos e excluídos, e garantir a paz e a prosperidade para todos. Para a consecução de tão nobres metas, seus membros não hesitam em vender proteção aos seus supostos e indefesos “beneficiários”. Cobram taxas na concessão e manutenção da posse dos lotes, cobram pedágio para a obtenção de crédito agrícola e cobram comissão dos estabelecimentos comerciais onde este crédito é gasto.
Para aonde vai o fruto da arrecadação? Para a “irmandade”, é claro. Afinal ela precisa de dinheiro para oferecer os seus préstimos a um número cada vez maior de “deserdados da terra”. A nobreza dos fins justifica a torpeza dos meios. E, desse jeito, fica muito difícil refutar o argumento de que o MST está ficando a cada dia mais parecido com a Máfia.
Como ocorre no Sul da Itália, não faltarão aqueles que defenderão a “irmandade” como um mal necessário. Afinal, à primeira vista, todos saem ganhando no processo: ganha o sem-terra, que passa a ser um assentado; ganha o assentado, que passa a usufruir um crédito barato, ganha o comerciante, que passa a vender em maior quantidade; ganha o MST que fatura alto em todas as etapas do processo.
“__E o que é que você, um jornalista abelhudo, tem a ver com isto?”. Haverão de me questionar.
Muito. Além de jornalista, sou, também, contribuinte. Na primeira condição me sinto enojado e na segunda ultrajado. Toda essa farra está se dando às custas do Erário. Fica, assim, mais fácil defender a Máfia.
A Máfia rouba, espolia e saqueia; a Máfia esbulha, extorque e chantageia. Mas há um ponto em que ela é moralmente superior ao MST: A Máfia, ao menos, tem a decência de não avançar sobre os cofres públicos.



