Tempos atrás, aqui mesmo, neste Espaço Aberto, comparei a senhora, com as ideias antiquadas que defende, a um DKW – aquele automóvel que foi fabricado no Brasil no início da década de 1960. Recebi numerosos e-mails reclamando que eu estava sendo injusto. Injusto com o DKW. Pois é. O carro deixou uma boa impressão, o que – perdoe-me o mau jeito – parece muito não ser o seu caso. Estive vasculhando as minhas memórias e constatei que o DKW é muito moderno para a senhora. A comparação adequada seria com um Ford 1929. E, ao afirmar isso, espero que ninguém reclame do fato de eu estar cometendo outra injustiça.
É Ford 1929, mesmo. Foi naquela época em que ele estava sendo fabricado que um sujeito chamado Benito Mussolini fazia sucesso com o lema: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.” Joseph Stalin e outros contemporâneos também não pensavam muito diferente disso. Poderíamos agraciar cada um deles com um Ford da época. Ou com uma Mercedes-Benz 770. A senhora sabia que esses personagens históricos já defendiam a ideia de um “Estado forte” – que é o cerne de sua plataforma política – naqueles tempos?
Li, se não me, engano, na revista Veja, que o bordão que o Duda Mendonça apresentou para a sua campanha eleitoral é baseado naquela música do Zeca Pagodinho: “Deixa a Dilma me levar; Dilma leva eu…” Com todo o respeito, dona Dilma, levar para onde? Dá calafrios só de pensar.
Por falar em Duda Mendonça, cabe a pergunta: vocês o reabilitaram? Vão pagar a campanha com dólares depositados nas Bahamas, como ele gosta? Isso é proibido, dona Dilma. A senhora sabia?
Li, creio que na mesma revista, que quem está articulando a sua campanha nos diversos Estados é ninguém menos que José Dirceu. É, ele mesmo. Ele já foi ministro-chefe da Casa Civil, o mesmo cargo que a senhora ocupa. Também foi reabilitado? E aquela história do “mensalão” como é que fica? Segundo a malvada da imprensa, ele era o grande articulador do esquema. Deixa pra lá. Isso também deve ser “intriga da oposição”, não é verdade? Continue Lendo..
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Prezada dona Dilma
Conselhos úteis ao meu filho
Meu filho do meio, o Ricardo, hoje com 22 anos e prestes a se formar em Direito, me manifestou o seu desejo de seguir a carreira política. Quanto ao País, tudo bem. Ele tem uma sólida formação moral, ideais e princípios bem definidos e uma cultura humanística bem superior à média, para a sua idade. Mas, perguntei-lhe, desde quando política pode ser definida como uma carreira?
Há maneiras diversas de se chegar a ela. Muitos logram galgar cargos eletivos porque, por algum motivo, conquistaram respeito e prestígio em suas comunidades. Começam como vereadores, têm desempenho destacado, e logo são levados a disputar a prefeitura de sua cidade ou um mandato de deputado estadual ou federal. Outros se elegem em função da mídia, por nela, graças ao seu talento comunicativo, se tornarem conhecidos e admirados o suficiente para amealhar um número de votos suficiente para aspirar a uma candidatura. Há aqueles que se elegem por serem parentes ou afilhados de algum político famoso, que lhes transfere parte de seus votos. E há, também, aqueles que, sendo abastados, se dispõem a despender fortunas em busca de um mandato que, uma vez obtido, lhes trará prestígio e consideração por parte da sociedade. Quais deles saberão se comportar da forma mais digna, de modo a honrar o mandato que os eleitores lhe outorgaram? É difícil dizer.
Carlos Lacerda, num de seus livros, distinguiu os políticos mesquinhos, tacanhos, daqueles realmente dotados de grandeza. Os pequenos, observava ele, são os que vêem no poder – e na pompa de que ele é revestido – apenas uma forma de exaltar o seu amor-próprio. Deixam-se levar pelos áulicos, extasiam-se com as reverências que lhes são dedicadas, aproveitam-se do posto para ajudar os amigos e espicaçar os desafetos e jamais vêm a entender o quanto poderiam ter-se valido do cargo para promover mudanças realmente proveitosas para a sociedade. Os miúdos simplesmente são varridos pelos ventos da História. São merecidamente esquecidos porque, na verdade, nada fizeram de monta para que viessem a ser lembrados. Ao contrário do que parece, o exercício do poder, tão sonhado e almejado, não os satisfaz. Em pouco tempo as tropas perfiladas e o rufar dos tambores acabam por se tornar rotineiros, não mais entusiasmam, e o que resta ao governante são os problemas e as dificuldades, que parecem multiplicar-se à medida que o tempo passa.
Já no caso dos autênticos estadistas, daqueles raros homens de fato dotados da virtude da grandeza, o poder não é desejado apenas como um fim em si, mas sim como uma preciosa e indispensável ferramenta para aperfeiçoar a sociedade. Com ou sem conotações místicas, todos eles se sentem predestinados (e já li centenas de biografias). Julgam-se dotados de uma missão cuja importância é maior que a deles próprios. As honrarias que lhes são dirigidas não os comovem, só amplificam o seu senso de responsabilidade. A que vieram, por que vieram são questões existenciais que os atormentam diuturnamente. E, uma vez escolhidos, dedicam ao posto o melhor de si e de seus sentimentos.
Ricardo, meu filho, que tipo de político você pretende ser? Pequenos e menores já existem de sobra. A sociedade não carece deles. Mesmo que lhe faltem as virtudes necessárias para ser um Churchill ou um De Gaulle, procure pensar e se comportar como se fosse um deles. Mais do que tudo, as pessoas carecem de referências, de exemplos. A grandeza contagia. Não só os que lhe estão próximos, mas também o próprio intérprete que se dispõe a praticá-la. Pense como os grandes e, em breve, você será um deles.
Não tema jamais, meu filho, o veredicto das urnas. A vitória, quando conseguida, fala por si. Já as derrotas, por mais amargas que sejam, trazem consigo importantes e imprescindíveis lições. Elas nos impõem, sobretudo, a humildade. Nunca fuja do bom combate. Ele sempre engrandece a todos, vencedores e vencidos.
Tenha sempre em mente, Ricardo, que política não é profissão. Dedique-se aos estudos com afinco. Não se contente, apenas, em ser um bom advogado. Busque ser o melhor, dentro das suas circunstâncias, aptidões e limitações. Somente assim você conquistará o apreço e o respeito de seus pares. E isso, por si só, já representa meio caminho andado. A fortuna abençoa e protege os bravos. Seja um deles e o universo, com certeza, conspirará a seu favor. Ninguém, é certo, confiará em você e em suas idéias, se você mesmo não demonstrar, de forma cabal, que também acredita.
Mais do que dinheiro, renome ou simpatizantes, o meu legado a você é a minha sagrada e sincera bênção e a virtude, duramente conquistada em mais de duas décadas de vida pública, de nunca, jamais, ter o meu nome conspurcado por qualquer suspeita de envolvimento em negócios escusos. Escrevi isto num artigo em honra a meu pai, falecido há quase 20 anos: “Ele era justo e bom; digno e honrado. Abençoado é aquele a quem Deus permite apor esses quatro adjetivos ao seu epitáfio.”
Seja assim, meu filho. Seu caráter, na vida pública, será, sem dúvida, o seu maior patrimônio. Será o único bem que, em qualquer circunstância, ninguém logrará tirar de você. Seja correto, meu filho, e, ganhando ou perdendo, eu sempre terei orgulho de você.
Quando, em palestra numa Faculdade de Direito, perguntaram a Abraham Lincoln se era possível, como advogados, serem políticos honestos, ele, sem pensar, respondeu: “Se vocês acham que não, tratem de ser honestos sem se atreverem a ser políticos…”
O que tenho a lhe dizer, meu filho, no fundo, é isso.
Seus ideais, Ricardo, serão para você como as estrelas. Você nunca poderá alcançá-las. Mas é orientando-se por elas que você, mais cedo ou mais tarde, haverá de chegar ao seu destino. Continue Lendo..
A revanche
Lá por meados da década de 1970 eu era universitário e nós, estudantes, tínhamos certeza que o governo militar estava caindo, de modo que nossos debates se davam a respeito de que governo viria a suceder àquele. Havia várias correntes de pensamento, todas elas marxistas, que pregavam desde o socialismo light até o comunismo da linha dura maoista. Por que não a social-democracia? Porque, segundo se dizia, esse tipo de sistema de governo era um embuste criado como forma de adiar o advento da Grande Revolução. A burguesia era culpada de tudo. E não nos dávamos conta é de que nós éramos todos burgueses também. Pequenos burgueses, o que era pior.
Ernesto Geisel, no colégio eleitoral, havia vencido Ulysses Guimarães, que se declarara “anticandidato”.
O que nós achávamos de tudo isso? Nada. Tratava-se de algo que não nos dizia respeito. Geisel ou Ulysses, ambos nos pareciam ser farinha do mesmo saco. O jogo político, no nosso pensamento, era outro. Ele não se travava nas urnas, mas sim nas ruas, onde se digladiavam, ferozmente, as diversas facções do pensamento de esquerda. Extrema esquerda, diga-se.
É de conveniência relembrar tudo isso para destacar que, curiosamente, não existia nenhuma corrente de pensamento, ao menos nos meios acadêmicos, que tivesse como bandeira a redemocratização.
Cada uma das alas do movimento estudantil, por sua vez, estava conectada a uma congênere, no mundo lá fora. Todos sabiam que o grupo x respondia ao MR-8, que o grupo y tinha laços estreitos com o PC do B, e assim por diante. No frigir dos ovos, diga-se a verdade, a situação era intelectualmente cômoda para os dois lados. Nos quartéis tinha-se como verdade o fato de que a sociedade brasileira era como um imenso caldeirão fervente: se fosse destampado, explodiria. As esquerdas, por sua vez, acreditavam no mesmo: a caldeira estava prestes a explodir. E, convictos todos disso, nada, na verdade, acontecia.
Na área sindical, sempre tomada pelos pelegos, começava a surgir algo de novo e inédito. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, tido como a elite do proletariado brasileiro, elegeu uma nova diretoria e a impressão que dava era de que essa era autêntica: não faria, como sempre, o jogo dos patrões. O novo presidente do sindicato era um nordestino agitado e falante. O Brasil ainda ouviria muito falar dele: seu nome era Luiz Inácio da Silva, mais conhecido como Lula.
Uma de suas primeiras providências, para desapontamento geral, foi comunicar aos ideólogos que a presença deles não era bem-vinda. Segundo afirmou, intelectual e estudante “só serviam para atrapalhar”. Alguns poucos anos depois, quando foi fundado o Partido dos Trabalhadores, ele viria a descobrir uma utilidade para “aquele tipo esquisito de gente”: eles eram excelentes para organizar protestos e manifestações públicas e estavam sempre dispostos a tomar a frente dos movimentos. Eram os primeiros a tomar cacetada da polícia.
Alguns anos antes, todos nós sabíamos, os intelectuais e estudantes haviam tomado outro rumo, bem mais perigoso: organizaram-se em células e partiram para o confronto armado com as forças da situação.
Muitos dos que adotaram essa opção viriam mais tarde, recentemente, a posar de mártires da luta pela volta da democracia no Brasil. Eis um dado controverso: até onde se sabe, eles não lutavam pela redemocratização. Essa hipótese nem lhes passava pela cabeça. O que pregavam, de fato, era a troca de uma “ditadura de direita” por uma “ditadura de esquerda”, que se prenunciava tão ou mais feroz do que a então existente.
Tenho reparado que essa brava gente está de volta, cerrando fileiras em torno de um canhestro “Programa Nacional de Direitos Humanos – versão 3″. Estão brincando com pólvora: entre numerosas outras propostas, eles defendem a revogação unilateral da Lei da Anistia. Continue Lendo..
Decifrando Lula
O presidente Lula, segundo as últimas pesquisas, conta com a aprovação de mais de 60% do eleitorado brasileiro. Esse extraordinário apoio popular, somado à folgada maioria que o governo tem no Congresso, faz muitos alcoviteiros, no Palácio do Planalto, começarem a cogitar da hipótese de sua reeleição. Para tanto basta enviar uma proposta de emenda constitucional ao Parlamento – que não tenho dúvidas de que seria aprovada – e deixar que as urnas façam o resto. Isso é péssimo para a democracia. Até mesmo no período autoritário, os militares cuidaram religiosamente de manter o rodízio no poder.
Por ocasião do 1º de Maio, quando as duas maiores centrais sindicais promoveram atos de apoio ao governo, eu escrevi aqui que, entre outras coisas, o fenômeno representava o início do fim da democracia liberal em nosso país. Democracias fortes não podem prescindir de oposições fortes. Quando estas deixam de existir, está aberto o caminho para governos autoritários. Continue Lendo..
Viva o lucro!
Com a realização do leilão para a concessão de exploração das rodovias federais à iniciativa privada, o governo Lula finalmente se rende à tese – tão contrária ao pensamento esquerdista – de que o Estado não pode tudo e, por conseqüência, de que ao Estado não cabe tudo.
Os intelectuais petistas sempre fizeram questão de retratar os liberais (ou neoliberais) como autênticos vendilhões da Pátria. Na condição de liberal convicto, posso afiançar que essa nunca foi a nossa bandeira. Nós não pugnamos pelo fim do Estado (essa é a tese do anarquismo), tampouco queremos um Estado mínimo (há papéis na sociedade que somente o Estado pode exercer) e muito menos desejamos um Estado fraco. Para que o capitalismo funcione eficientemente é necessário um Estado enérgico, que faça cumprir as regras do jogo. Quando isso não ocorre, o mercado se deixa tomar pela autofagia, a livre concorrência deixa de existir e, com isso, o próprio segredo do sucesso do sistema vira uma farsa. Um capitalismo forte não pode abrir mão de um Estado forte, que, tal como um árbitro esportivo, zela para que o jogo transcorra dentro das normas estabelecidas. Continue Lendo..
Lula x Fernando Henrique Cardoso
A humanidade viveu épocas mais ou menos interessantes, em geral muito bem delimitadas, através dos séculos. Um estudo recente, feito por uma associação internacional de revistas, perguntou a duas centenas de renomados historiadores quais teriam sido a época e o local mais interessantes para se viver no segundo milênio, que se encerrava. A opção que obteve maior número de indicações foi o século 15, em Veneza. A Belle Époque – período que abrange desde o fim da Guerra Franco-Prussiana até o início da Grande Guerra, em quase toda a Europa – também foi citada. (Não faz sentido falar em Primeira Guerra Mundial porque, na época, ninguém imaginava que haveria uma segunda.)
“Deus me poupou de viver numa época desinteressante.” Tais palavras resumiam a obra e a vida de um grande historiador universal. Ele tinha razão. Não há nada mais frustrante para nós, jornalistas – que não passamos de aprendizes de historiadores – do que cobrir um cotidiano ameno, tedioso, em que nada que possa vir a interessar aos leitores acontece. Nós, aqui, do Espaço Aberto, nesta página A2 do Estado, somos encarregados de cobrir a grande política, emitir juízos minimamente ancorados no bom senso, fazer diagnósticos e arriscar alguns prognósticos sobre para onde caminha a Nação.
Já 2010, daqui a dois anos, será, sem dúvida, um período política e socialmente interessante. Haverá eleições gerais no âmbito federal e estadual e parciais, no municipal. Há a suposição de que o Brasil saia extremamente modificado dessas eleições.
O quadro intricado que se apresenta é o seguinte:
O presidente Lula, extremamente popular, não se pode apresentar como candidato à reeleição, uma vez que já cumpriu dois mandatos no cargo.
Não há nenhuma figura popular, ou mesmo de expressão, em seu partido (PT)com mínimas chances de disputar e ganhar a eleição.
Qualquer hipótese extraconstitucional, dado o clima político de extraordinária normalidade em que o País vive, já está previamente descartada.
O Partido dos Trabalhadores, em grau maior que os demais partidos, depende crucialmente do domínio da máquina administrativa para sobreviver. É nela que acomoda os seus quadros, é do dízimo pago ao partido por eles que se equilibram as finanças partidárias. Não é de se acreditar que a zangada militância petista assista passiva, de braços cruzados, sem nada fazer, à derrocada do poder.
O que, então, ocorrerá? É humanamente impossível prever. Mas, com certeza, não será uma acomodação ortodoxa nem sequer arranjada bem aos moldes da índole conciliatória nacional. Talvez a militância petista arrefeça os seus ânimos com a perspectiva de, dali a quatro anos, com Lula candidato novamente, gozar mais oito anos no comando do Executivo. Mas que a transição que se vislumbra será traumática para o Partido dos Trabalhadores, disso não resta a menor dúvida.
A outra incógnita que se coloca – infelizmente, só para daqui a dois longos anos – diz respeito a que papel ideológico desempenhará a oposição PSDB-DEM tão logo chegue ao poder.
Uma obra intocável e perene dos petistas foi a criação do programa Bolsa-Família. A esta altura, pouco interesse existe em ficar discutindo se o programa é legítimo ou ilegítimo, se auxilia efetivamente os pobres ou não. O fato é que o famigerado programa está aí, atinge cerca de 11 milhões de famílias e qualquer tentativa de desmobilizá-lo seria o suicídio político do governante que ousasse fazê-lo.
A Nova Direita que assumirá o poder com a aliança de tucanos e democratas (e não há razão para chamá-la por outro nome) há que assumir-se como tal e exercer políticas voltadas para o fortalecimento do capitalismo (ou do “capitalismo social de mercado”, que se conceda…).
Não espere, também, a Nova Direita encontrar condições tão favoráveis, no campo financeiro internacional, como as que o afortunado Lula encontrou. A era que se está encerrando, segundo os analistas, foi a de maior liquidez nas finanças internacionais em várias décadas. É por isso que continuo insistindo que é impossível comparar as performances de Lula e Fernando Henrique. Que FHC promoveu reformas institucionais de monta em seu governo, isso é patente. Que Lula não se encorajou a se empenhar em reforma alguma, isso também é evidente. Mas se Lula foi beneficiado por um quadro das finanças internacionais privilegiado, a mesma sorte não teve o seu antecessor. Além do mais, os petistas hão de reconhecer, as principais bases do governo Lula foram todas elas herdadas da gestão FHC. O Bolsa-Família nada mais é do que a junção de vários programas já então em curso, como o da Saúde, o Bolsa-Escola, o Bolsa-Alimentação e o Vale-Gás. O mérito de Lula foi unificá-los, agigantá-los e torná-los o que são hoje. Continue Lendo..
Vivam as ”patricinhas”!
Ensinamento ministrado numa aula de Filosofia do Direito para alunos do 7º semestre de uma conceituada universidade paulistana: “Vocês, que só transaram com patricinhas? burguesas, não sabem de fato o que é sexo. Essas meninas se preocupam exclusivamente com sua aparência e nunca se permitem entregar-se por inteiro aos prazeres da carne. Se vocês querem saber o que é sexo de verdade, tenham relações com moças da periferia. Estas estão livres dos condicionamentos e valores burgueses e por isso sabem de fato como se pratica um ato sexual.”
Por mais absurdo que pareça, essa “aula” ocorreu de verdade e me foi relatada por um amigo de meus filhos adolescentes. Sinal dos tempos. Depois de 1989, com a queda do Muro de Berlim, o comunismo, com seu lastro marxista, deixou de existir como realidade concreta. Seus discípulos, agora, denunciam o capitalismo pelos mais insólitos motivos. Tentam conciliar comunismo com ecologia, convenientemente se esquecendo de que as nações que abraçaram essa ideologia foram, de longe, as que mais poluíram o planeta.
E não é só isso. Comunistas que se prezem estão sempre prontos a denunciar intransigentemente as mazelas das “democracias burguesas”. Para eles, a corrupção e o desperdício de verbas públicas se dão exclusivamente no capitalismo. Esquecem, talvez, que nos países que seguem o marxismo nem sequer há eleições. E, quando eventualmente ocorrem, para cada cargo existe um candidato único e quem não votar nele corre o sério risco de perder o emprego. Como nas economias comunistas só existe um patrão, o Estado, perder o emprego significa condenar-se à miséria. Além disso, se o capitalismo não é perfeito na aplicação de verbas públicas, no comunismo o desperdício desses recursos é geometricamente maior. Até porque nele não há instituições de cunho burguês, como tribunais de contas. Tampouco a imprensa pode exercer seu papel: todas as publicações são severamente controladas, de forma que não existe uma matéria sequer que denuncie o pessoal do poder.
Outra acusação recorrente é a de que no capitalismo as pessoas e instituições são insensíveis à pobreza. Talvez, em parte, realmente o sejam, mas não se pode perder de vista que a “odiosa globalização” – que a esquerda chama de neo-imperialismo – já logrou, em poucos anos, tirar centenas de milhões de pessoas da miséria. Perguntem a um vietnamita ou cambojano – cujos países foram símbolo da miséria até duas décadas atrás e hoje são “inescrupulosamente” espoliados pelas multinacionais capitalistas – se têm vontade de voltar ao antigo regime. A resposta, invariavelmente, será um sonoro e resoluto “não”.
Mas há, também, bravas nações que resistem heroicamente às poderosas investidas do monstro capitalista. Vale a pena ressaltar os corajosos exemplos de Cuba e Coréia do Norte, clube exclusivo que recebeu recentemente a companhia de Venezuela e Bolívia – o Equador ainda estuda se adere ou não. O problema-chave desses países é que a maioria de seu comércio exterior se dá justamente com os detestáveis EUA. A Venezuela, de todos, é o que se encontra em posição mais confortável: possui petróleo em abundância e os EUA, pragmaticamente, preferem ignorar a recorrente catilinária antiimperialista de Hugo Chávez desde que o fornecimento de petróleo venezuelano não seja interrompido. E Chávez não é louco de fazê-lo: dois terços da economia venezuelana dependem diretamente desse comércio e, como está, está bem para todos. Continue Lendo..
Dilma no Céu
Caiu um forte raio em Brasília. Desses que o governo afirma que são capazes de causar um blecaute. Ele caiu justamente no Palácio do Planalto. Para espanto de alguns e alívio de outros, o raio deu de cair exatamente na cabeça da ministra Dilma Rousseff, que foi literalmente torrada. Sem nada o que fazer, ela se dirigiu ao Além. Continue Lendo..
Meu caro Lula
Nos últimos 23 anos já lhe escrevi, aqui, neste Espaço Aberto, pelo menos umas cinco cartas, sempre com o mesmo título. Não tenho grande esperança de que você as leia. Afinal, você mesmo se vangloria do fato de não gostar de nenhum tipo de leitura. Não tem importância. Eu já me dou por satisfeito se ao menos algum assessor seu as ler. E me compraz também o simples fato de escrevê-las. Continue Lendo..
A Velhinha e o Escoteiro
“Burocratas, no serviço público, são como livros em estantes: quanto mais alto estão, menor serventia têm.” Continue Lendo..



