Arquivo da categoria ‘Liberalismo’

O pagador de promissórias

Publicado por João Mellão Neto Em 02 Sep 2010

“Existem 3 formas de perder dinheiro na vida: a mais rápida é o jogo; a mais agradável são as mulheres; a mais segura é a agricultura.” ( anônimo). Esta peça, o teatrólogo Dias Gomes, com seu inegável talento, prudentemente, esqueceu-se de escrever. É mais cômodo e agradável cortejar as patrulhas ideológicas através de enredos patéticos, nos quais o drama dos deserdados da terra é pintado, a cada cena, com um expressionismo de fazer inveja a Portinari. Enquanto todos choram a sina do “José do Burro”, um “sem terra” que vai à igreja pagar sua promessa, ninguém se comove com a via crucis do burro do José, um “com terra” abnegado que, todos os dias, vai ao banco pagar suas promissórias. No entanto o destino dos dois está intimamente ligado. Continue Lendo..

O atalho é um caminho mais longo

Publicado por João Mellão Neto Em 09 Aug 2010

“ Tudo Pelo Social é impossível. Alguma coisa terá que ir pelo elevador de serviço” O resgate da dívida social do Brasil é urgente e imprescindível. Esse Pais que sempre soube vencer seus desafios agora tem pela frente um enigma para o qual quatro gerações de ideólogos, do vermelho sangue ao verde oliva, não encontraram resposta satisfatória. Com 2.200 dólares de renda per capita muitos dos problemas sociais que nos afligem já deveriam ter sido resolvidos. Países com renda equivalente possuem índices de escolaridade, saúde pública e nutrição muito superiores aos nossos. Na década de 50 ainda era Possível ironizar as utopias distributivistas da onírica esquerda brasileira. Afinal, o único especialista em distribuir pães sem antes tê-los produzido já falecera há dois mil anos e, depois dele, a multiplicação de pães só vem podendo ser feita através da prévia multiplicação das padarias. O incremento da produção, durante três décadas, foi uma bandeira quase que unânime da sociedade. Hoje, infelizmente, para contentar a todos necessário erguer mais alguns mastros. Continue Lendo..

O Resgate Moral da América

Publicado por João Mellão Neto Em 26 Jul 2010

A eleição consagradora de um negro para ocupar a presidência dos Estados Unidos da América é um fenômeno que merece ser estudado. Barack Obama, de início, já tinha contra ele três obstáculos que o inviabilizavam. Ele não é um wasp (branco, anglo-saxão e protestante, na sigla em inglês) e, até hoje, o único eleito que não preencheu esses requisitos foi John Kennedy, que era católico. Obama só preenche um deles: é protestante. Outro óbice é a idade: os americanos raramente elegem alguém com menos de 50 anos. Obama, Bill Clinton e Kennedy foram os únicos a vencer esse preconceito, elegendo-se na faixa dos 40. Continue Lendo..

Pra frente, Brasil!

Publicado por João Mellão Neto Em 04 Jun 2010

Minha juventude transcorreu nos anos 70, durante a dita “ditadura militar”. Curiosamente, muita coisa na época era, de modo preocupante, semelhante ao que se vê hoje. Continue Lendo..

O que representa o civismo

Publicado por João Mellão Neto Em 09 Apr 2010

“A Justiça só é justa quando alcançada por meios justos.” Essa palavra de ordem eu conheci com o Guilherme Afif, durante a sua heroica campanha à Presidência da República em 1989 – primeiro pleito democrático de tal porte depois de três décadas. Foi por meio dele também que entendi (eu e o então garoto Gilberto Kassab) que a política não é, necessariamente, a mais vil das profissões. Ela pode ser também a mais nobre das artes. E a humanidade precisa que ela seja assim.
Eu, é forçoso reconhecer, estou ficando velho – “maduro”, numa definição mais precisa. Queira ou não, sou um político identificado pelos jovens como “do século 20″. Infelizmente é verdade. Aprendi a lidar com a informática e com a internet nos seus primórdios. Dominava tudo nessas duas áreas, mas estacionei no fim do século passado. Word, Excel, e-mail, tudo isso é comigo mesmo. Agora Twitter, Facebook e as demais redes sociais só consigo operar com a assessoria de profissionais qualificados: jovens que me “concedem” aulas, empertigados.
Cabe aí a pergunta: Será que nós, “políticos do século 20″, ainda somos de alguma utilidade? Eu ouso afirmar que sim. Somos nós, ainda, os guardiães dos “valores permanentes”. O que são eles? Coisas assim como virtude, coerência, palavra e honra – que recebemos de nossos avós com a condição de transmitirmos para os nossos netos.
Dia desses eu juntei a família e declarei: – Meus filhos, eu já ocupei quase todo tipo de cargo em minha vida pública, como jornalista, administrador e parlamentar, e posso hoje afirmar que as únicas personalidades políticas que me impressionaram foram aquelas que demonstraram ter as vistas postas além do horizonte próximo. Isso é o que se pode chamar de civismo. Essas pessoas punham os seus ideais além de suas conveniências políticas imediatas e – exatamente por isso – muitas vezes foram incompreendidas pelas grandes massas. Paciência! Nem por isso deixaram de lado os seus sonhos e se tornaram impenitentes velhacos e adeptos do farisaísmo e da hipocrisia, como parece ser praxe no mundo político. Muitos ainda lograram colher em vida os frutos de sua coerência. Outros, não, o que valida a máxima cristã (Sermão da Montanha) de que “Deus faz chover da mesma forma sobre justos e injustos”.
Voltando ao tema principal, eu declarei solenemente aos meus filhos que sempre estaria ao lado de gente com tais virtudes, porque eles pertencem a um tipo especial de políticos que “pensa grande”. E eu, particularmente, tenho especial fascínio por pessoas assim.
“Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”, repetia para mim sempre, parafraseando Fernando Pessoa, durante uma campanha presidencial – aquela de 1989 – em que todos nós sabíamos não ter chances reais de vitória. Essas palavras caíam fortes em mim em especial: um ano antes, em 1988, eu havia sido candidato a prefeito de São Paulo pelo PL, um partido então minúsculo, porém dotado de uma doutrina e de uma conduta coerentes e consistentes. E também jamais tivera chances mínimas de vitória.
Pois bem, lá se vai metade do artigo e eu ainda nem sequer esbocei a minha mensagem principal.
Lá vai. O que quero dizer é que, por já conhecer a política e os seus personagens o suficiente, eu aprendi a dar valor apenas àqueles homens que se dispõem a, na vida pública, acrescentar alguma coisa: valores, principalmente.
Em outras palavras: eu prefiro os homens públicos que sempre atiram para cima, mesmo sob o risco de errar, do que aqueles que costumam atirar para baixo, porque julgam que assim é mais fácil de acertar.
A sabedoria antiga já rezava: quando no deserto, guie-se sempre pelos astros mais brilhantes. Você jamais haverá de alcançá-los – não se iluda -, mas é seguindo-os que você alcançará o seu destino.
Eu, dessa forma, tenho especial admiração pelos homens que pretendem deixar nessa vida alguma marca de si. São eles – e unicamente eles – aqueles que conseguem fazer alguma diferença.
O agora ex-governador de São Paulo José Serra se lança candidato à Presidência da República, buscando realizar aquele que sempre foi o seu maior sonho.
Aprecio muito o Serra. Eu o conheço relativamente bem há mais de três décadas. Mais especificamente desde a heroica primeira candidatura do então professor Fernando Henrique Cardoso ao Senado, por São Paulo, em 1978, numa sublegenda do então MDB. O candidato vencedor, então, foi o Franco Montoro.
José Serra, após 1964, aproveitou para graduar-se em Ciências Econômicas no Chile e nos Estados Unidos e pretendia se candidatar naquela eleição a deputado federal. A legislação da época não permitiu e, assim, ele contentou-se em ser, como eu, um cabo eleitoral de FHC. Sorte minha. Tive assim a oportunidade de vir a conhecer razoavelmente bem alguém que o próprio Fernando Henrique me confidenciara, então, ser um dos mais preparados de seus quadros.
José Serra adotou como um dos principais temas de sua campanha a ética. Difícil escolha essa. Valores éticos não são dos mais fáceis ou atraentes temas eleitorais. Essa é uma das razões pelas quais eu tenho orgulho em empunhar essa bandeira.
Talvez seja exatamente nisso que nós, os “antigos”, nos comungamos com os mais jovens: todos nós entendemos que de nada adianta acenar ao povo com privilégios ou benesses se não se garante a ele aquilo que é o mais básico, a decência.
Essa bandeira é, de todas, a mais gloriosa. Há mais de 2 mil anos se sabe que os corações não são conquistados pela força das armas, mas sim pela grandeza da alma. Continue Lendo..

O Brasil tem jeito

Publicado por João Mellão Neto Em 19 Mar 2010

Artigo publicado em abril de 1988 no jornal “O Estado de São Paulo”
“Quando a floresta pegou fogo, todos os animais, com exceção do beija-flor, fugiram. Este, desesperado, fazia sucessivas viagens até o córrego, onde enchia o bico de água para depois despejá-la sobre o fogo. Frente à gozação dos demais bichos, argumentou:
- Pode ser que não funcione, mas pelo menos eu estou fazendo a minha parte…” (Fábula popular). Continue Lendo..

Quem tem medo dos populistas?

Publicado por João Mellão Neto Em 26 Feb 2010

multidãoOs populistas voltaram. Sim. Eles mesmos. Já andaram por aqui na década de 1940, ressurgiram na década de 1950 e início da de 1960 e andaram caçando bois em pastos na de 1980. Eles são sempre iguais: adoráveis em curto prazo, perigosos em médio prazo e desastrosos em longo prazo. E não se corrigem. Até porque seus métodos voltam sempre a fazer sucesso desde que o povo se esqueça das catástrofes que causaram em suas últimas atuações. O populismo é uma doença infantil da democracia. Um mal tão perigoso quanto a catapora e o sarampo. E, como eles, parece inofensivo em seus primeiros sintomas.
Populismo, na prática, é como fazem determinados jogadores de futebol que descobrem que fazer gols é muito difícil. Mais cômodo e com melhores efeitos imediatos é “jogar para a plateia”. Uma embaixadinha aqui, uma ameaça de drible acolá e pronto, os torcedores já se dão por satisfeitos. Para que lutar por resultados efetivos? De que vale suar a camisa se com muito menor esforço já se consegue agradar ao público?
Medidas e atitudes populistas não costumam agradar à opinião pública em nações onde as instituições já estão maduras e consolidadas. Também não servem para nações onde essas nem sequer existem. Funcionam bem onde já há alguns arremedos de instituições mas elas ainda são fracas, incipientes. É o caso da maior parte das nações da América Latina.
Populismo não tem fórmula pronta e acabada. Tampouco é passível de improvisação. É, na prática, um espetáculo de ilusionismo, mágicas e efeitos especiais. O governante populista não se arrisca jamais a tomar medidas que possam parecer antipáticas. Mesmo que a experiência de seu país, e também dos outros, indique que estas são as únicas que podem surtir algum efeito. Os populistas preferem arroubos retóricos a atitudes eficazes. Num momento de alto desemprego, inflação e estagnação econômica, o que vem à mente de um governante populista? Adotar um receituário econômico de austeridade e severidade? Ou fazer pronunciamientos públicos irados contra a suposta exploração de que seu pobre país seria vítima por parte das nações mais ricas? Não há dúvida de que os populistas optam pela segunda fórmula.
Agir assim é mais fácil, mais cômodo e ainda leva a vantagem de que todos os opositores podem ser tachados de inimigos do bem-estar do povo, ou entreguistas, ou mesmo agentes dos interesses estrangeiros. Ai daqueles que se manifestarem contrários às medidas populistas! Serão tachados, no mínimo, de covardes ou derrotistas. El pueblo, nos momentos críticos, não pode contar com os tíbios e os fracotes. Faz-se necessário, nessas ocasiões, que haja líderes destemidos e impetuosos. Gente “corajosa” a ponto de não temer denunciar as injustiças. E quem seriam eles? Ora, os populistas, é claro!
Infelizmente, as anomalias políticas de cunho populista não são facilmente extirpáveis do corpo social. Afinal, o populismo sempre apresenta alternativas simpáticas, impetuosas e de fácil adoção. É como se no rótulo de todo elixir populista viesse a advertência: agite antes de usar.
Pobres dos que, em oposição aos desmandos populistas, apresentam alternativas antipáticas ou dolorosas ao corpo social. As massas serão instadas a repudiá-los veementemente por se posicionarem contra os interesses maiores del pueblo e de la nación.
Você é daqueles que entendem que os populistas só podem ser bem-sucedidos em países atrasados como a Venezuela de Hugo Chávez, a Bolívia de Evo Morales, o Equador de Rafael Correa ou a ilha da fantasia dos irmãos Castro? Acredita que em povos maduros e mais bem instruídos esse tipo de discurso não pega? Você está sendo otimista demais. Como é que você explicaria o fato de o casal Kirchner permanecer no poder há tantos anos numa nação civilizada e com uma população bem-educada como a Argentina?
Pois Néstor e Cristina Kirchner dominam a cena política por lá há sete anos e seu arsenal de expedientes populistas ainda parece ser inesgotável. Desde tentarem passar ao povo a imagem de que são como que a reencarnação de outro casal de políticos do passado, Juan e Eva Perón (também populistas), até o fato de recorrerem a “atitudes corajosas” como mandar prender comerciantes por eventuais elevações de preços e, mais recentemente, medidas de aparência patriótica como reivindicar a posse das Ilhas Falkland (“Malvinas”), desde sempre propriedade do Reino Unido. Sobre essa disputa, é bom lembrar, já houve uma guerra, vencida pelos ingleses, em 1982. O governo militar argentino de então, como forma de reconquistar o apoio popular, reivindicou as ilhas e as invadiu. Os súditos de Sua Majestade as retomaram em menos de seis meses, com pesados reveses e baixas do lado dos nossos vizinhos. Como agora, o Brasil, de imediato, se posicionou do lado de los hermanos. Desta vez, ninguém sabe dizer no que vai dar. É possível que haja uma saída diplomática. Pode, também, acabar novamente em guerra. Uma coisa, no entanto, parece previsível: a sobrevivência política do casal estará, por um bom tempo, assegurada.
Para aqueles otimistas que acreditam que os brasileiros já amadureceram o bastante para não caírem mais na lábia dos populistas, vale uma advertência. A conjuntura política na América Latina sempre evolui por ondas. Quando eram os militares que ditavam as regras, quase todas as nações de nosso subcontinente adotaram regimes militares. Quando as democracias liberais do suposto Consenso de Washington apareceram, elas proliferaram rapidamente. Por outro lado, nas vezes em que regimes autoritários de cunho populista surgiram, eles contagiaram toda a região. O “regime da moda”, agora, aparenta ser esse.
Que a dona Dilma me desminta se eu não estou dizendo a verdade. Continue Lendo..

Egoísmo esclarecido

Publicado por João Mellão Neto Em 22 Feb 2010

bandeira-dos-euaQuase dois séculos atrás, o francês Alexis de Tocqueville, em visita aos EUA, reparou que os americanos tinham algumas características que os diferenciavam de todos os outros povos. Segundo ele, todos os cidadãos seguiam dois valores aparentemente contraditórios. De um lado, cultivavam um individualismo exacerbado e explícito e, de outro, praticavam o comunitarismo em níveis também inéditos. Continue Lendo..

Prezada dona Dilma

Publicado por João Mellão Neto Em 12 Feb 2010

dilmaTempos atrás, aqui mesmo, neste Espaço Aberto, comparei a senhora, com as ideias antiquadas que defende, a um DKW – aquele automóvel que foi fabricado no Brasil no início da década de 1960. Recebi numerosos e-mails reclamando que eu estava sendo injusto. Injusto com o DKW. Pois é. O carro deixou uma boa impressão, o que – perdoe-me o mau jeito – parece muito não ser o seu caso. Estive vasculhando as minhas memórias e constatei que o DKW é muito moderno para a senhora. A comparação adequada seria com um Ford 1929. E, ao afirmar isso, espero que ninguém reclame do fato de eu estar cometendo outra injustiça.
É Ford 1929, mesmo. Foi naquela época em que ele estava sendo fabricado que um sujeito chamado Benito Mussolini fazia sucesso com o lema: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.” Joseph Stalin e outros contemporâneos também não pensavam muito diferente disso. Poderíamos agraciar cada um deles com um Ford da época. Ou com uma Mercedes-Benz 770. A senhora sabia que esses personagens históricos já defendiam a ideia de um “Estado forte” – que é o cerne de sua plataforma política – naqueles tempos?
Li, se não me, engano, na revista Veja, que o bordão que o Duda Mendonça apresentou para a sua campanha eleitoral é baseado naquela música do Zeca Pagodinho: “Deixa a Dilma me levar; Dilma leva eu…” Com todo o respeito, dona Dilma, levar para onde? Dá calafrios só de pensar.
Por falar em Duda Mendonça, cabe a pergunta: vocês o reabilitaram? Vão pagar a campanha com dólares depositados nas Bahamas, como ele gosta? Isso é proibido, dona Dilma. A senhora sabia?
Li, creio que na mesma revista, que quem está articulando a sua campanha nos diversos Estados é ninguém menos que José Dirceu. É, ele mesmo. Ele já foi ministro-chefe da Casa Civil, o mesmo cargo que a senhora ocupa. Também foi reabilitado? E aquela história do “mensalão” como é que fica? Segundo a malvada da imprensa, ele era o grande articulador do esquema. Deixa pra lá. Isso também deve ser “intriga da oposição”, não é verdade? Continue Lendo..

A revanche

Publicado por João Mellão Neto Em 02 Feb 2010

ditadura 1Lá por meados da década de 1970 eu era universitário e nós, estudantes, tínhamos certeza que o governo militar estava caindo, de modo que nossos debates se davam a respeito de que governo viria a suceder àquele. Havia várias correntes de pensamento, todas elas marxistas, que pregavam desde o socialismo light até o comunismo da linha dura maoista. Por que não a social-democracia? Porque, segundo se dizia, esse tipo de sistema de governo era um embuste criado como forma de adiar o advento da Grande Revolução. A burguesia era culpada de tudo. E não nos dávamos conta é de que nós éramos todos burgueses também. Pequenos burgueses, o que era pior.
Ernesto Geisel, no colégio eleitoral, havia vencido Ulysses Guimarães, que se declarara “anticandidato”.
O que nós achávamos de tudo isso? Nada. Tratava-se de algo que não nos dizia respeito. Geisel ou Ulysses, ambos nos pareciam ser farinha do mesmo saco. O jogo político, no nosso pensamento, era outro. Ele não se travava nas urnas, mas sim nas ruas, onde se digladiavam, ferozmente, as diversas facções do pensamento de esquerda. Extrema esquerda, diga-se.
É de conveniência relembrar tudo isso para destacar que, curiosamente, não existia nenhuma corrente de pensamento, ao menos nos meios acadêmicos, que tivesse como bandeira a redemocratização.
Cada uma das alas do movimento estudantil, por sua vez, estava conectada a uma congênere, no mundo lá fora. Todos sabiam que o grupo x respondia ao MR-8, que o grupo y tinha laços estreitos com o PC do B, e assim por diante. No frigir dos ovos, diga-se a verdade, a situação era intelectualmente cômoda para os dois lados. Nos quartéis tinha-se como verdade o fato de que a sociedade brasileira era como um imenso caldeirão fervente: se fosse destampado, explodiria. As esquerdas, por sua vez, acreditavam no mesmo: a caldeira estava prestes a explodir. E, convictos todos disso, nada, na verdade, acontecia.
Na área sindical, sempre tomada pelos pelegos, começava a surgir algo de novo e inédito. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, tido como a elite do proletariado brasileiro, elegeu uma nova diretoria e a impressão que dava era de que essa era autêntica: não faria, como sempre, o jogo dos patrões. O novo presidente do sindicato era um nordestino agitado e falante. O Brasil ainda ouviria muito falar dele: seu nome era Luiz Inácio da Silva, mais conhecido como Lula.
Uma de suas primeiras providências, para desapontamento geral, foi comunicar aos ideólogos que a presença deles não era bem-vinda. Segundo afirmou, intelectual e estudante “só serviam para atrapalhar”. Alguns poucos anos depois, quando foi fundado o Partido dos Trabalhadores, ele viria a descobrir uma utilidade para “aquele tipo esquisito de gente”: eles eram excelentes para organizar protestos e manifestações públicas e estavam sempre dispostos a tomar a frente dos movimentos. Eram os primeiros a tomar cacetada da polícia.
Alguns anos antes, todos nós sabíamos, os intelectuais e estudantes haviam tomado outro rumo, bem mais perigoso: organizaram-se em células e partiram para o confronto armado com as forças da situação.
Muitos dos que adotaram essa opção viriam mais tarde, recentemente, a posar de mártires da luta pela volta da democracia no Brasil. Eis um dado controverso: até onde se sabe, eles não lutavam pela redemocratização. Essa hipótese nem lhes passava pela cabeça. O que pregavam, de fato, era a troca de uma “ditadura de direita” por uma “ditadura de esquerda”, que se prenunciava tão ou mais feroz do que a então existente.
Tenho reparado que essa brava gente está de volta, cerrando fileiras em torno de um canhestro “Programa Nacional de Direitos Humanos – versão 3″. Estão brincando com pólvora: entre numerosas outras propostas, eles defendem a revogação unilateral da Lei da Anistia. Continue Lendo..

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