Arquivo da categoria ‘Artigos Antigos’

Egoísmo esclarecido

Publicado por João Mellão Neto Em 22 Feb 2010

bandeira-dos-euaQuase dois séculos atrás, o francês Alexis de Tocqueville, em visita aos EUA, reparou que os americanos tinham algumas características que os diferenciavam de todos os outros povos. Segundo ele, todos os cidadãos seguiam dois valores aparentemente contraditórios. De um lado, cultivavam um individualismo exacerbado e explícito e, de outro, praticavam o comunitarismo em níveis também inéditos. Continue Lendo..

Conselhos úteis ao meu filho

Publicado por João Mellão Neto Em 08 Feb 2010

pai-e-filhoMeu filho do meio, o Ricardo, hoje com 22 anos e prestes a se formar em Direito, me manifestou o seu desejo de seguir a carreira política. Quanto ao País, tudo bem. Ele tem uma sólida formação moral, ideais e princípios bem definidos e uma cultura humanística bem superior à média, para a sua idade. Mas, perguntei-lhe, desde quando política pode ser definida como uma carreira?
Há maneiras diversas de se chegar a ela. Muitos logram galgar cargos eletivos porque, por algum motivo, conquistaram respeito e prestígio em suas comunidades. Começam como vereadores, têm desempenho destacado, e logo são levados a disputar a prefeitura de sua cidade ou um mandato de deputado estadual ou federal. Outros se elegem em função da mídia, por nela, graças ao seu talento comunicativo, se tornarem conhecidos e admirados o suficiente para amealhar um número de votos suficiente para aspirar a uma candidatura. Há aqueles que se elegem por serem parentes ou afilhados de algum político famoso, que lhes transfere parte de seus votos. E há, também, aqueles que, sendo abastados, se dispõem a despender fortunas em busca de um mandato que, uma vez obtido, lhes trará prestígio e consideração por parte da sociedade. Quais deles saberão se comportar da forma mais digna, de modo a honrar o mandato que os eleitores lhe outorgaram? É difícil dizer.
Carlos Lacerda, num de seus livros, distinguiu os políticos mesquinhos, tacanhos, daqueles realmente dotados de grandeza. Os pequenos, observava ele, são os que vêem no poder – e na pompa de que ele é revestido – apenas uma forma de exaltar o seu amor-próprio. Deixam-se levar pelos áulicos, extasiam-se com as reverências que lhes são dedicadas, aproveitam-se do posto para ajudar os amigos e espicaçar os desafetos e jamais vêm a entender o quanto poderiam ter-se valido do cargo para promover mudanças realmente proveitosas para a sociedade. Os miúdos simplesmente são varridos pelos ventos da História. São merecidamente esquecidos porque, na verdade, nada fizeram de monta para que viessem a ser lembrados. Ao contrário do que parece, o exercício do poder, tão sonhado e almejado, não os satisfaz. Em pouco tempo as tropas perfiladas e o rufar dos tambores acabam por se tornar rotineiros, não mais entusiasmam, e o que resta ao governante são os problemas e as dificuldades, que parecem multiplicar-se à medida que o tempo passa.
Já no caso dos autênticos estadistas, daqueles raros homens de fato dotados da virtude da grandeza, o poder não é desejado apenas como um fim em si, mas sim como uma preciosa e indispensável ferramenta para aperfeiçoar a sociedade. Com ou sem conotações místicas, todos eles se sentem predestinados (e já li centenas de biografias). Julgam-se dotados de uma missão cuja importância é maior que a deles próprios. As honrarias que lhes são dirigidas não os comovem, só amplificam o seu senso de responsabilidade. A que vieram, por que vieram são questões existenciais que os atormentam diuturnamente. E, uma vez escolhidos, dedicam ao posto o melhor de si e de seus sentimentos.
Ricardo, meu filho, que tipo de político você pretende ser? Pequenos e menores já existem de sobra. A sociedade não carece deles. Mesmo que lhe faltem as virtudes necessárias para ser um Churchill ou um De Gaulle, procure pensar e se comportar como se fosse um deles. Mais do que tudo, as pessoas carecem de referências, de exemplos. A grandeza contagia. Não só os que lhe estão próximos, mas também o próprio intérprete que se dispõe a praticá-la. Pense como os grandes e, em breve, você será um deles.
Não tema jamais, meu filho, o veredicto das urnas. A vitória, quando conseguida, fala por si. Já as derrotas, por mais amargas que sejam, trazem consigo importantes e imprescindíveis lições. Elas nos impõem, sobretudo, a humildade. Nunca fuja do bom combate. Ele sempre engrandece a todos, vencedores e vencidos.
Tenha sempre em mente, Ricardo, que política não é profissão. Dedique-se aos estudos com afinco. Não se contente, apenas, em ser um bom advogado. Busque ser o melhor, dentro das suas circunstâncias, aptidões e limitações. Somente assim você conquistará o apreço e o respeito de seus pares. E isso, por si só, já representa meio caminho andado. A fortuna abençoa e protege os bravos. Seja um deles e o universo, com certeza, conspirará a seu favor. Ninguém, é certo, confiará em você e em suas idéias, se você mesmo não demonstrar, de forma cabal, que também acredita.
Mais do que dinheiro, renome ou simpatizantes, o meu legado a você é a minha sagrada e sincera bênção e a virtude, duramente conquistada em mais de duas décadas de vida pública, de nunca, jamais, ter o meu nome conspurcado por qualquer suspeita de envolvimento em negócios escusos. Escrevi isto num artigo em honra a meu pai, falecido há quase 20 anos: “Ele era justo e bom; digno e honrado. Abençoado é aquele a quem Deus permite apor esses quatro adjetivos ao seu epitáfio.”
Seja assim, meu filho. Seu caráter, na vida pública, será, sem dúvida, o seu maior patrimônio. Será o único bem que, em qualquer circunstância, ninguém logrará tirar de você. Seja correto, meu filho, e, ganhando ou perdendo, eu sempre terei orgulho de você.
Quando, em palestra numa Faculdade de Direito, perguntaram a Abraham Lincoln se era possível, como advogados, serem políticos honestos, ele, sem pensar, respondeu: “Se vocês acham que não, tratem de ser honestos sem se atreverem a ser políticos…”
O que tenho a lhe dizer, meu filho, no fundo, é isso.
Seus ideais, Ricardo, serão para você como as estrelas. Você nunca poderá alcançá-las. Mas é orientando-se por elas que você, mais cedo ou mais tarde, haverá de chegar ao seu destino. Continue Lendo..

Decifrando Lula

Publicado por João Mellão Neto Em 22 Jan 2010

LulaPiscaAMar_jpgO presidente Lula, segundo as últimas pesquisas, conta com a aprovação de mais de 60% do eleitorado brasileiro. Esse extraordinário apoio popular, somado à folgada maioria que o governo tem no Congresso, faz muitos alcoviteiros, no Palácio do Planalto, começarem a cogitar da hipótese de sua reeleição. Para tanto basta enviar uma proposta de emenda constitucional ao Parlamento – que não tenho dúvidas de que seria aprovada – e deixar que as urnas façam o resto. Isso é péssimo para a democracia. Até mesmo no período autoritário, os militares cuidaram religiosamente de manter o rodízio no poder.
Por ocasião do 1º de Maio, quando as duas maiores centrais sindicais promoveram atos de apoio ao governo, eu escrevi aqui que, entre outras coisas, o fenômeno representava o início do fim da democracia liberal em nosso país. Democracias fortes não podem prescindir de oposições fortes. Quando estas deixam de existir, está aberto o caminho para governos autoritários. Continue Lendo..

Os alicerces da democracia

Publicado por João Mellão Neto Em 13 Jan 2010

loboAté 1951, o presidente dos Estados Unidos da América, legalmente, podia reeleger-se quantas vezes quisesse. George Washington, o primeiro norte-americano a ocupar a cadeira, fixou uma tradição, religiosamente seguida por seus sucessores, de só se recandidatar uma única vez. Acontece que esta obrigação nunca fora fixada em lei. Franklin Roosevelt, presidente de 1933 a 1945, decidiu desafiá-la e foi eleito para quatro mandatos. Extremamente popular, só não foi além porque, logo no início de sua quarta investidura, veio a falecer, abrindo um amplo e apaixonado debate na nação sobre a conveniência de se permitirem reeleições indefinidas para o cargo presidencial. Não que Roosevelt tivesse sido um mau governante. Ao contrário. Ele foi, sem dúvida, o supremo mandatário que mais qualidades possuiu durante todo o século 20. O problema era de outra natureza. O instituto das reeleições indefinidas atentava contra a própria democracia, cujo sistema de freios e contrapesos a fazia garantir-se por si só, aprender com seus próprios erros e manter-se em constante evolução. Esse sistema de “check and balances” – toda criança americana aprende desde que entra na escola – é a melhor criação institucional dos EUA e, por isso mesmo, a razão pela qual o povo da grande nação se julga moralmente superior aos demais e, com certa presunção, procura exportá-lo para todos os países.
O conceito norte-americano de democracia é bastante complexo e não se lastreia unicamente no ato de fazer valer a vontade da maioria. Hitler, num extremo exemplo, contava com o respaldo da maioria dos alemães e nem por isso se pode dizer que tenha governado de forma democrática. Os próprios norte-americanos quase caíram nessa terrível falácia em 1787, ao aprovarem a sua Constituição, a primeira dos tempos modernos, sem dela fazer constar os fundamentais direitos individuais. Alguns poucos anos depois, em 1791, foram aprovadas de uma vez só as dez primeiras Emendas à Constituição, que nada mais eram do que a explicitação dos direitos e prerrogativas das minorias e dos indivíduos. Continue Lendo..

Lula x Fernando Henrique Cardoso

Publicado por João Mellão Neto Em 11 Jan 2010

lula-fhcA humanidade viveu épocas mais ou menos interessantes, em geral muito bem delimitadas, através dos séculos. Um estudo recente, feito por uma associação internacional de revistas, perguntou a duas centenas de renomados historiadores quais teriam sido a época e o local mais interessantes para se viver no segundo milênio, que se encerrava. A opção que obteve maior número de indicações foi o século 15, em Veneza. A Belle Époque – período que abrange desde o fim da Guerra Franco-Prussiana até o início da Grande Guerra, em quase toda a Europa – também foi citada. (Não faz sentido falar em Primeira Guerra Mundial porque, na época, ninguém imaginava que haveria uma segunda.)
“Deus me poupou de viver numa época desinteressante.” Tais palavras resumiam a obra e a vida de um grande historiador universal. Ele tinha razão. Não há nada mais frustrante para nós, jornalistas – que não passamos de aprendizes de historiadores – do que cobrir um cotidiano ameno, tedioso, em que nada que possa vir a interessar aos leitores acontece. Nós, aqui, do Espaço Aberto, nesta página A2 do Estado, somos encarregados de cobrir a grande política, emitir juízos minimamente ancorados no bom senso, fazer diagnósticos e arriscar alguns prognósticos sobre para onde caminha a Nação.
Já 2010, daqui a dois anos, será, sem dúvida, um período política e socialmente interessante. Haverá eleições gerais no âmbito federal e estadual e parciais, no municipal. Há a suposição de que o Brasil saia extremamente modificado dessas eleições.
O quadro intricado que se apresenta é o seguinte:
O presidente Lula, extremamente popular, não se pode apresentar como candidato à reeleição, uma vez que já cumpriu dois mandatos no cargo.
Não há nenhuma figura popular, ou mesmo de expressão, em seu partido (PT)com mínimas chances de disputar e ganhar a eleição.
Qualquer hipótese extraconstitucional, dado o clima político de extraordinária normalidade em que o País vive, já está previamente descartada.
O Partido dos Trabalhadores, em grau maior que os demais partidos, depende crucialmente do domínio da máquina administrativa para sobreviver. É nela que acomoda os seus quadros, é do dízimo pago ao partido por eles que se equilibram as finanças partidárias. Não é de se acreditar que a zangada militância petista assista passiva, de braços cruzados, sem nada fazer, à derrocada do poder.
O que, então, ocorrerá? É humanamente impossível prever. Mas, com certeza, não será uma acomodação ortodoxa nem sequer arranjada bem aos moldes da índole conciliatória nacional. Talvez a militância petista arrefeça os seus ânimos com a perspectiva de, dali a quatro anos, com Lula candidato novamente, gozar mais oito anos no comando do Executivo. Mas que a transição que se vislumbra será traumática para o Partido dos Trabalhadores, disso não resta a menor dúvida.
A outra incógnita que se coloca – infelizmente, só para daqui a dois longos anos – diz respeito a que papel ideológico desempenhará a oposição PSDB-DEM tão logo chegue ao poder.
Uma obra intocável e perene dos petistas foi a criação do programa Bolsa-Família. A esta altura, pouco interesse existe em ficar discutindo se o programa é legítimo ou ilegítimo, se auxilia efetivamente os pobres ou não. O fato é que o famigerado programa está aí, atinge cerca de 11 milhões de famílias e qualquer tentativa de desmobilizá-lo seria o suicídio político do governante que ousasse fazê-lo.
A Nova Direita que assumirá o poder com a aliança de tucanos e democratas (e não há razão para chamá-la por outro nome) há que assumir-se como tal e exercer políticas voltadas para o fortalecimento do capitalismo (ou do “capitalismo social de mercado”, que se conceda…).
Não espere, também, a Nova Direita encontrar condições tão favoráveis, no campo financeiro internacional, como as que o afortunado Lula encontrou. A era que se está encerrando, segundo os analistas, foi a de maior liquidez nas finanças internacionais em várias décadas. É por isso que continuo insistindo que é impossível comparar as performances de Lula e Fernando Henrique. Que FHC promoveu reformas institucionais de monta em seu governo, isso é patente. Que Lula não se encorajou a se empenhar em reforma alguma, isso também é evidente. Mas se Lula foi beneficiado por um quadro das finanças internacionais privilegiado, a mesma sorte não teve o seu antecessor. Além do mais, os petistas hão de reconhecer, as principais bases do governo Lula foram todas elas herdadas da gestão FHC. O Bolsa-Família nada mais é do que a junção de vários programas já então em curso, como o da Saúde, o Bolsa-Escola, o Bolsa-Alimentação e o Vale-Gás. O mérito de Lula foi unificá-los, agigantá-los e torná-los o que são hoje. Continue Lendo..

Também quero um!

Publicado por João Mellão Neto Em 04 Jan 2010

cartao_corporativoOs cartões de crédito corporativos, a princípio, são uma boa idéia. Antes do surgimento deles, as pequenas ou emergenciais despesas do governo eram pagas em dinheiro vivo, causando transtornos desnecessários no caixa, ou então eram quitadas pelo próprio agente administrativo, que, para recuperar o que gastou, tinha de apresentar um longo e circunstanciado relatório justificando o porquê daquele dispêndio. Prática adotada em quase todos os países adiantados, eles surgiram por aqui na gestão de FHC. Entre outras vantagens, o cartão de crédito apresenta, em seus extratos, o que, quanto, onde e quando se realizaram as despesas. Mas no Brasil, onde há quem guarde dólares na cueca e existe gente disposta a falsificar cédulas de R$ 2, algum tipo de fraude ainda haveria de ser inventada tendo por base o vulnerável e flexível “dinheiro de plástico”.
No início, apenas autoridades de primeiro escalão e sua assessoria direta tinham direito de portar o cartão. Logo, como seria de prever, autoridades de menor expressão fizeram uma irresistível pressão para que o benefício fosse estendido a elas. Quando o volume de cartões passou da casa do milhar, não havia mais auditoria, por mais eficiente que fosse, capaz de analisar e controlar um a um. O problema agravou-se com o Partido dos Trabalhadores (PT) no poder. Ser portador de um cartão dava status. Além de demonstrar o prestígio de seu detentor, ele representava uma espécie de “licença para gastar”. O volume de cartões se multiplicou, a ponto de tornar impossível a sua checagem e análise.
Além disso, virou praxe o saque em dinheiro, nos caixas eletrônicos, o que tornava impraticável checar o destino do dinheiro. Nos dias de hoje, qualquer barnabé bem relacionado obtém com facilidade o seu cartão corporativo e sai por aí, a gastar impunemente. Apesar de já existirem vários milhares de cartões, não se tem notícia de um único servidor público que tenha sido punido pelo seu uso impróprio. O partido que se diz do povo se vale do dinheiro do próprio povo para custear as suas mordomias. E ninguém tem o direito de reclamar, visto serem seus membros legítimos delegados do próprio povo. Ficam criados, assim, além dos gastos de consumo supérfluo da odiosa burguesia, os dispêndios indispensáveis para o trabalho dos agentes do povo – não importando, no caso, que os tipos de despesas sejam idênticos. Vá lá que era o próprio PT, quando estava na oposição, o campeão inconteste dos requerimentos de CPIs. Mas agora, meia década passada, o partido amadureceu. E todos ali concordam com a tese de que tais comissões só servem para fazer barulho. Pode existir iniciativa tão impatriótica?
Provavelmente, não. E é por isso que os bravos parlamentares do PT lutam, no limite de suas forças, para impedir que tal comissão seja instalada. Se isso não for conseguido, a alternativa será o caos. Haverá inúmeras acusações levianas e sem fundamento por parte da ala oportunista da oposição; todos terçarão armas com todos para que, no final, pouca coisa seja comprovada. E assim vai mais um ano legislativo, o qual o presidente Lula pretendia que fosse utilizado para as imprescindíveis reformas de base, tão necessárias ao País. Continue Lendo..

Sou, mesmo, um pequeno burguês

Publicado por João Mellão Neto Em 28 Dec 2009

consciencia_moralHá pouco mais de dois anos, um renomado autor de novelas globais declarou em uma entrevista à revista Veja que, segundo as diversas pesquisas que tinha em mãos, podia afirmar que estava ocorrendo certo relaxamento moral na consciência do brasileiro médio. As pessoas, dizia ele, já não condenavam certas atitudes totalmente antiéticas, por parte dos personagens das suas tramas, desde que agir dessa forma fosse essencial para que atingissem os seus objetivos. Na época ninguém deu a atenção devida a esse abalizado sinal de alerta dado pelo noveleiro. Eu, pessoalmente, confesso que fiquei bastante preocupado. Continue Lendo..

A nossa gloriosa insignificância

Publicado por João Mellão Neto Em 23 Dec 2009

memorial-america-latinaO Brasil é um país quase perfeito. Temos um território continental, grande parte dele de terras agricultáveis, estamos isentos de desastres naturais de grande monta (terremotos, furacões, neve), nosso clima, em geral, é ameno e nosso povo, segundo pesquisas, é o mais otimista do mundo. Não há nada, enfim, que justifique a baixa auto-estima dos brasileiros. Talvez seja por isso mesmo. A têmpera do nosso povo nunca foi testada, nem por guerras, nem por privações. Não tivemos ainda a oportunidade de provar ao mundo a nossa tenacidade. Em países de clima frio, não se brinca em serviço. Há que produzir de sol a sol, no verão, sob pena de se passar fome no inverno. Mesmo o nosso sentimento de Pátria – pelo qual outros povos oferecem a vida – é tênue e moderado. Nós nos unimos para torcer pela seleção brasileira e é praticamente só isso. Terminado o jogo, cada um enrola a sua bandeira e adeus ao sentimento de unidade nacional.
Um velho político norte-americano disse certa vez que os aços de melhor têmpera são forjados sob o fogo mais forte. Se é assim, vai ver que o nosso fogo é morno. Ninguém, na verdade, está disposto a oferecer a própria vida no altar da Pátria; ninguém, na verdade, está disposto a abrir mão de nada, quando a Nação corre perigo.
Alexis de Tocqueville, um membro da pequena nobreza da França, viajou à América logo nos primórdios daquela civilização. Dotado de um agudo senso de observação, ele notou nos norte-americanos um sentimento quase paradoxal no que diz respeito a civismo: “Os americanos são o povo mais egoísta e individualista do mundo. Cada um cuida de si e a solidariedade praticamente inexiste. Mas bastou que a comunidade corresse algum perigo, que todos se uniram, e cada um não se furta a cumprir a sua parte, por mais sacrifício que isso implique.” Individualismo mais comunitarismo: esse inédito arranjo social norte-americano, segundo Tocqueville, era responsável pela grandeza e pela força da América. “Nós, latinos, nos derramamos em palavras bem-intencionadas, mas, na verdade, não estamos dispostos a ceder em nada”, concluiu.
As diferenças ente os povos latinos e os de origem anglo-saxônica não param por aí. Um amigo meu, levado pela profissão a freqüentar com assiduidade os Estados Unidos, observa que não há nada mais diferente, culturalmente, que um norte-americano e um brasileiro. E quem não atentar para isso está fadado a se dar mal na América. O sistema de crenças e convicções dos americanos é substancialmente diferente do nosso, bem como os seus valores. O primeiro contraste já se mostra na atitude de ambos perante a lei. Os americanos acreditam que suas leis têm uma origem transcendental, emanadas que são dos founding fathers – um congresso de iluminados que redigiu a Constituição. No Brasil a lei… Ora, a lei… Ninguém sabe quem escreveu, para que e com qual objetivo.
Na América é comum grandes astros do show business, quando cometem infrações, serem condenados a penas severas, mais do que seriam caso se tratasse de cidadãos comuns. É o contrário do Brasil, onde os ricos e famosos gozam de um sem-número de privilégios legais. Quem explica esse paradoxo é um juiz norte-americano, em entrevista a uma revista: “As celebridades devem pagar mais caro justamente porque são celebridades. Elas servem de exemplo para os cidadãos comuns. Devem ser punidas com rigor para demonstrar que aqui, na Pátria da Liberdade, a lei paira acima de todos.”
Outra característica marcante dos americanos é a de que o povo, lá, não mente. Ou, pelo menos, mente muitos menos do que nós, os latinos. Muito brasileiro se dá mal na América porque teima em transplantar os seus hábitos e costumes para lá.
Para se concluir um negócio nos Estados Unidos quase não são necessários papéis e documentos. Isso induz muitos espertalhões brasileiros a tentarem forjar títulos e falsificar atestados. Não raro acabam na cadeia. A cultura vigente nos Estados Unidos é a da “presunção da boa-fé”, ou seja, todo mundo é inocente até que se prove a culpa. Mas, uma vez provada esta, a lei não tem a menor clemência.
Enfim, estas são as diferenças básicas entre brasileiros e americanos. São eles os certos ou, então, seremos nós?
No Brasil, herança ibérica, talvez, sempre imperou a cultura do privilégio em detrimento da do mérito. Ninguém respeita sequer as filas de cinema. E autoridade é alguém fardado destinado a ser subornado.
A cultura americana tem, mais ou menos, a idade da brasileira. Nesses poucos séculos, eles lograram fazer da América uma nação. Nós outros a única coisa que soubemos fazer bem foi amaldiçoar os gringos, atribuindo-lhes todas as agruras por que passamos. Eles são os grandes culpados pela nossa pobreza, pela nossa estagnação e pela nossa falta de progresso. Esse fenômeno, aliás, não é típico do Brasil. A América Latina inteira, com raras exceções, tem como esporte favorito falar mal dos americanos. Enquanto desopilamos nosso fígado crucificando a América, o fato é que eles, os gringos, estão cada vez mais ricos e nós, cada vez mais pobres.
Que ninguém se iluda quanto à suposta importância que nós temos para eles. Dia destes, foi perguntado ao candidato democrata a presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, numa entrevista, o que ele achava do Brasil. Silêncio sepulcral. Ele não achava nada. Talvez nem soubesse a localização do País. Foi salvo por um providencial assessor que tratou logo de mudar de assunto. Nada mais normal. Se nós, brasileiros, não sabemos a localização da Zâmbia, por que Obama saberia algo do Brasil? A América Latina só é importante nos discursos de Hugo Chávez. Continue Lendo..

Corrupção é só conversa de burguês?

Publicado por João Mellão Neto Em 15 Dec 2009

Corrupção É mais útil ter uma visão histórica de que uma visão histérica dos problemas. E o problema que mais tem afligido a opinião pública é a onda de corrupção que tomou conta da nossa política. Continue Lendo..

Não é fácil ser Obama

Publicado por João Mellão Neto Em 14 Dec 2009

Barack Obama Meio século atrás, em certa cidadezinha do sertão de Minas, surgiu um sujeito bem apessoado, de barbas e cabelos longos, que afirmava ser ninguém menos do que Jesus Cristo. Tanto e com tal veemência ele insistiu que o povo da cidade começou a se amoldar à circunstância de ter, entre si, o Filho de Deus. Logo surgiram um Pôncio Pilatos, uma Madalena arrependida, 12 apóstolos, centuriões romanos e todos os personagens necessários para levar à frente a Paixão de Cristo. O sujeito foi preso e julgado. Foi devidamente condenado a morrer na cruz. Iniciou-se, então, a via crúcis. Tudo corria de modo impecável até que o tal do messias sertanejo, no momento de ser pregado na cruz, cochichou no ouvido de um dos soldados que iria até a moita mais próxima se aliviar. Foi, sumiu e nunca mais deu as caras por ali. Escafedeu-se. Tratou de dar no pé e, assim, salvar a própria pele. Continue Lendo..